Um estudo da Serasa Experian divulgado nesta quarta-feira, 14, aponta o Tocantins com a maior taxa de inadimplência entre os quatro integrantes do Matopiba no primeiro trimestre de 2026. O estado tocantinense registrou 12,2% entre pessoas físicas da população rural no período, percentual 3,4 pontos acima da média nacional, de 8,8%. Segundo a empresa, o estado também registrou 30 pedidos de recuperação judicial ligados à cadeia do agronegócio e aparece entre as dez com maior número de solicitações no período. 

No recorte da fronteira agrícola na taxa de inadimplência, o Tocantins é seguido pelo Maranhão, com 12,1%, Piauí, com 11,8%, e Bahia, com 8%. Dessa forma, os três primeiros ficaram acima da média brasileira, enquanto a Bahia apresentou índice 0,8 ponto percentual abaixo do resultado nacional.

Ao comparar com os outros estados, o Tocantins aparece com a sétima maior taxa de inadimplência rural do país. À frente estão Amapá (21,2%), Amazonas (15%), Roraima (14,4%), Acre (13,4%), Pará (13,2%) e Rio Grande do Norte (13%). Na outra ponta do ranking, o Rio Grande do Sul apresentou o menor percentual, de 5,8%. O resultado tocantinense também está próximo do cenário observado na Região Norte, que registrou a maior taxa de inadimplência entre as regiões brasileiras no primeiro trimestre, com 13,2%. Na sequência aparecem Nordeste (10,2%), Centro-Oeste (10,1%), Sudeste (7,3%) e Sul (6,2%).

Em relação aos pedidos de recuperação judicial ligados à cadeia do agronegócio, o indicador considera produtores rurais, pessoas físicas e jurídicas, além de empresas relacionadas à cadeia do agronegócio. No ranking estadual, o Tocantins aparece empatado com o Rio Grande do Sul, também com 30 registros.

Mato Grosso lidera com 135 pedidos, seguido por Goiás, com 73, Paraná, com 50, Mato Grosso do Sul, com 38, e Minas Gerais, com 34. Depois aparecem Tocantins e Rio Grande do Sul, ambos com 30; São Paulo, com 28; Bahia, com 14; e Santa Catarina, com 12.

Recuperação judicial 

No cenário nacional, a cadeia do agronegócio contabilizou 474 pedidos de recuperação judicial entre janeiro e março deste ano, crescimento de 21,9% em relação aos 389 registrados no mesmo período de 2025.

O resultado permanece abaixo dos patamares observados no segundo e terceiro trimestres do ano passado apesar do avanço. No total, foram 565 pedidos de recuperação judicial ligados ao agro no segundo trimestre e 628 no terceiro, maior número da série apresentada. No último trimestre de 2025, as solicitações recuaram para 408.

Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, comenta que os números do início deste ano refletem a continuidade de dificuldades que já vinham pressionando parte dos produtores e das empresas do setor. “O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”, disse.

Segundo ele, a evolução dos pedidos ao longo dos próximos meses depende de fatores como capacidade de geração de receita, comportamento das margens e condições para renegociação das dívidas. O especialista comenta que a recuperação judicial deve ser tratada como último recurso, com prioridade para planejamento financeiro e renegociação.

Os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica apresentaram o maior crescimento entre os perfis analisados. No total, foram 196 pedidos no primeiro trimestre de 2026, avanço de 73,5% em relação aos 113 registrados entre janeiro e março de 2025. O cultivo de soja concentrou 137 solicitações nessa categoria, enquanto a criação de bovinos respondeu por outras 42. Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideraram o número de pedidos entre produtores rurais pessoa jurídica.

A evolução trimestral mostra que esse grupo registrou 243 solicitações no segundo trimestre e 242 no terceiro trimestre de 2025. No quarto trimestre, houve redução para 155 pedidos, antes da alta para 196 no início deste ano.

Foram 182 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, redução de 6,7% frente aos 195 registrados no mesmo período de 2025. Entre esses produtores, aqueles classificados como “sem propriedades” concentram 60 solicitações. 

De acordo com a pesquisa, esse grupo pode incluir arrendatários ou integrantes de grupos familiares e econômicos relacionados à atividade rural. Os pequenos proprietários aparecem na sequência, com 44 pedidos, seguidos pelos grandes, com 41, e médios, com 37. Em 2025, os pedidos de pessoas físicas passaram de 195 no primeiro trimestre para 220 no segundo e atingiram 255 no terceiro. Depois recuaram para 183 no quarto trimestre e chegaram aos 182 registrados nos primeiros três meses deste ano.

As empresas de atividades relacionadas à cadeia do agronegócio contabilizaram 96 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, aumento de 18,5% em comparação com os 81 registrados no mesmo período do ano passado. As agroindústrias de transformação primária lideraram esse recorte, com 23 solicitações, seguidas pelas indústrias de processamento de agro derivados, com 19, e pelos serviços de apoio à agropecuária, com 15. Paraná, São Paulo e Mato Grosso foram os estados com maior número de solicitações neste grupo.

Segundo a Serasa Experian, o uso de ferramentas de análise de risco é uma forma de identificar sinais de deterioração financeira antes que as dificuldades levem a medidas como a recuperação judicial. De acordo com a empresa, análises realizadas com o Agro Score mostraram que a pontuação média dos produtores rurais pessoas físicas que posteriormente solicitaram recuperação judicial já era significativamente inferior à média da população rural três anos antes da formalização do pedido.

A ferramenta utiliza inteligência artificial e modelos preditivos para avaliar informações específicas da atividade rural e identificar alterações no perfil financeiro. “Quando a avaliação considera as particularidades da atividade rural, é possível reconhecer sinais que uma análise genérica pode não capturar. A combinação de dados, inteligência artificial e modelos preditivos permite diferenciar os níveis de risco e tornar a concessão de crédito mais segura”, disse Marcelo Pimenta.

Inadimplência 

Em âmbito nacional, a inadimplência das pessoas físicas da população rural alcançou 8,8% no primeiro trimestre de 2026. O resultado representa alta de 0,6 ponto porcentual em relação ao quarto trimestre de 2025, quando estava em 8,2%.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, quando o indicador era de 7,6%, o avanço foi de 1,2 ponto porcentual. Os dados mostram uma trajetória gradual de crescimento: o índice passou de 7,6% no primeiro trimestre de 2025 para 7,9% no segundo, 8% no terceiro, 8,2% no quarto e chegou aos atuais 8,8%.

O indicador considera dívidas de pessoas físicas da população rural brasileira vencidas há mais de 180 dias e relacionadas a empresas de setores ligados ao agronegócio.

Para Marcelo Pimenta,  o cenário mostra que parte da população rural ainda enfrenta dificuldades para recuperar a capacidade financeira. “A alta gradual da inadimplência mostra que, no início de 2026, os produtores rurais ainda enfrentam desafios para recompor sua capacidade financeira. Mesmo com uma perspectiva mais favorável para alguns segmentos do agronegócio, os efeitos de ciclos anteriores, com custos elevados, oscilações de preços e restrição ao crédito, seguem impactando o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento no setor”, disse.

O levantamento também apresenta diferenças de acordo com a faixa etária. O maior percentual foi registrado entre pessoas de 30 a 39 anos, com 13,6%, seguido pelas faixas de 18 a 29 anos, com 12,4%, e de 40 a 49 anos, com 11,3%. A partir dos 50 anos, os índices diminuem gradualmente. Entre 50 e 59 anos, a taxa foi de 8,7%; de 60 a 69 anos, 7,1%; e de 70 a 79 anos, 6,2%. Entre pessoas com 80 anos ou mais, o percentual ficou em 3,8%.

Na análise por porte, o maior índice, de 11%, foi identificado entre pessoas sem informação de registro rural, grupo que, segundo a Serasa Experian, pode incluir possíveis arrendatários ou participantes de grupos familiares ou econômicos.

Entre os grandes proprietários rurais, a taxa ficou em 9,9%. Médios e pequenos registraram 8,6% e 8,3%, respectivamente. A pontuação média dos produtores rurais no Agro Score caiu de 606 pontos no primeiro trimestre de 2025 para 591 pontos no mesmo período de 2026, indicando maior percepção de risco de crédito.

“Cada propriedade rural possui características próprias, e compreender essas particularidades é essencial para uma análise de risco mais assertiva. Com o Agro Score, reunimos inteligência de dados e informações específicas do agronegócio para apoiar instituições financeiras, cooperativas e empresas do setor na tomada de decisões mais seguras e equilibradas”, comentou Marcelo Pimenta.

Metodologia

Para o Indicador de Inadimplência do Agronegócio, a Serasa Experian considera dívidas vencidas há mais de 180 dias e até cinco anos, que somem pelo menos R$ 1 mil e estejam relacionadas ao financiamento e às atividades do agronegócio.

São considerados débitos com instituições financeiras, incluindo bancos, fundos e cooperativas de crédito; empresas ligadas ao agro, como agroindústrias, revendas de insumos e máquinas, produtores e serviços de apoio; além de segmentos como seguros, transporte de cargas e armazenamento.

O percentual é calculado sobre uma base de 10,7 milhões de pessoas físicas mapeadas na população rural. A identificação considera registros de propriedades classificadas como imóveis rurais, financiamentos rurais ou agroindustriais no Cadastro Positivo ou registro de atividade de produtor rural no Sintegra.

Enquanto isso, o Indicador Serasa Experian Agro de Recuperações Judiciais considera a quantidade de processos e de CPFs e CNPJs envolvidos em pedidos relacionados ao agronegócio. Os dados são divididos entre produtores rurais pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas relacionadas aos diferentes elos da cadeia agro.

A empresa ressalta que um mesmo processo pode envolver participantes de mais de um desses grupos. Por isso, os números apresentados separadamente por perfil não devem ser somados para chegar ao total geral de pedidos.