Vicentinho Júnior (PSDB) decidiu transformar a postura diante das mulheres em argumento da disputa pelo governo do Tocantins. Nesta segunda-feira, 21, cobrou publicamente Professora Dorinha (União Brasil) por uma acusação de agressão contra Antônio Rueda, presidente nacional do partido da senadora. “As mulheres precisam de uma explicação sua”, escreveu. Em seguida, estabeleceu o princípio de sua cobrança: quem ocupa posição de liderança precisa se manifestar “inclusive quando a situação envolve aliados e pessoas próximas do seu grupo político”.

É uma cobrança que produz um efeito político além do ataque à adversária. Ao exigir que Dorinha responda por uma conduta atribuída a Rueda, Vicentinho coloca o tratamento dispensado às mulheres entre os critérios pelos quais considera que um candidato ao governo deve ser avaliado. E, nesse terreno, seu próprio histórico recente oferece elementos para uma comparação mais direta: em episódios anteriores, não era um presidente nacional de partido ou um aliado distante que estava no centro da controvérsia. Era o próprio Vicentinho.

Opressão contra trabalho de jornalista

O caso mais evidente ocorreu com a jornalista Verônica Veríssimo Bolzan. Em junho, ela fotografou Vicentinho ao deixar um restaurante em Brasília, onde o deputado havia se encontrado com o vereador de Palmas Vinícius Pires (Republicanos). A imagem acabou publicada em uma reportagem. Vicentinho telefonou para Verônica, acusou-a de perseguição, chamou o episódio de “arapongagem” e anunciou que buscaria responsabilizá-la criminalmente. Durante a conversa, disse à jornalista que ela deveria se preparar para “gastar muito dinheiro” e afirmou: “Eu vou entrar contra você com tudo que couber para prerrogativa de mandato. Você vai entender como é que o jogo funciona”.

Ouça áudio enviado pelo candidato a jornalista:

A dimensão daquele episódio não ficou restrita a uma divergência entre um político e uma profissional da imprensa. De um lado estava um deputado federal, então pré-candidato ao governo, que invocava as prerrogativas do mandato e anunciava consequências judiciais. Do outro, uma jornalista que dizia ter exercido sua atividade profissional ao registrar um agente público em local aberto ao público. Verônica classificou a abordagem como tentativa de intimidação. Vicentinho levou a acusação de perseguição à Polícia Legislativa da Câmara.

O desfecho tornou o episódio ainda mais relevante para a análise da postura adotada agora pelo candidato. Em 14 de agosto, o Ministério Público Federal arquivou a investigação contra Verônica. O procurador Leonardo de Faria Galiano concluiu que não havia elementos suficientes para caracterizar stalking. Segundo o MPF, o único fato concreto demonstrado era a fotografia feita em local público e utilizada posteriormente em uma reportagem. O procurador registrou ainda que não foram demonstrados contatos insistentes, ameaças, invasão de espaços privados ou uma sequência de aproximações atribuíveis à jornalista.

Cinthia fora do comando do PSDB

Meses antes, a disputa pelo comando do PSDB havia colocado outra mulher no centro de um confronto com Vicentinho. Cinthia Ribeiro presidia a legenda no Tocantins quando o então deputado do PP iniciou o movimento para ingressar no partido. Em fevereiro, ela acusou o parlamentar de pressionar a direção nacional e apresentou a disputa também sob a perspectiva de gênero. “Quando uma mulher lidera, ele tenta deslegitimar, desestabilizar e tomar o comando”, escreveu. Cinthia classificou a movimentação como “violência política” e afirmou que mulheres em posições de liderança não poderiam ser tratadas como obstáculos a serem removidos.

A disputa partidária terminou acomodada. Vicentinho ingressou no PSDB e assumiu o comando estadual. Cinthia permaneceu na legenda, manteve sua atuação no PSDB Mulher e hoje disputa uma cadeira de deputada federal pelo partido. O entendimento político posterior é parte do desfecho daquele confronto, mas o episódio permanece relevante para compreender o contraste aberto pela publicação desta segunda: quando a presidência estadual estava em disputa, foi uma mulher de seu atual partido quem acusou Vicentinho de tentar deslegitimá-la por ocupar uma posição de poder. Cinthia também conduzia nacionalmente uma estrutura partidária dedicada à participação feminina e ao enfrentamento da violência contra a mulher.

Posições distintas

É essa sequência que dá outra dimensão à cobrança feita agora contra Dorinha. Vicentinho exige da adversária uma posição sobre a acusação envolvendo Rueda mesmo sem atribuir a ela participação no episódio. A responsabilidade que tenta estabelecer é política: para o candidato, a relação partidária e a posição de liderança de Dorinha bastam para que seu silêncio seja questionado. Quando esse mesmo parâmetro volta para quem formulou a cobrança, os episódios são mais próximos. No caso de Verônica, as palavras foram ditas pelo próprio Vicentinho. No de Cinthia, a acusação de violência política foi dirigida diretamente a ele.

Há ainda uma diferença central. A publicação desta segunda apresenta Vicentinho como alguém que cobra de outra liderança uma atitude diante de uma situação desconfortável. No episódio da jornalista, ele próprio ocupava a posição de poder e escolheu anunciar processos, mencionar gastos que ela teria com sua defesa e invocar as prerrogativas do mandato. A acusação criminal que sustentava essa reação acabou sem elementos para prosseguir, segundo o MPF. É esse fato, mais do que qualquer construção retórica, que coloca o episódio de Verônica no centro da contradição política aberta pelo candidato.

Vicentinho escreveu também que a defesa das mulheres “não pode aparecer só no discurso ou no período eleitoral” e que precisa existir quando é “difícil” e “desconfortável”. A frase amplia ainda mais o alcance de sua cobrança. Ao escolhê-la para atingir Dorinha, o candidato definiu uma régua que inevitavelmente alcança sua própria atuação. O debate deixa, então, de ser apenas sobre o que a senadora tem a dizer a respeito de Antônio Rueda. Passa também pelo que Vicentinho fez quando não havia um aliado entre ele e a mulher no centro da controvérsia.