Laurez precisa vencer a primeira eleição antes de construir a segunda
20 agosto 2026 às 15h44

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A campanha de Laurez Moreira (PSD) ao Governo do Tocantins tem pela frente uma eleição que, na prática, pode ser dividida em duas. A primeira passa por Vicentinho Júnior (PSDB), adversário direto na disputa por uma vaga em um eventual segundo turno. A segunda, caso consiga avançar, seria contra a senadora Dorinha Seabra (União Brasil), candidata apoiada pelo governador Wanderlei Barbosa (Republicanos).
A estratégia para a primeira etapa traz um problema para a seguinte. Laurez precisa tirar espaço político de Vicentinho para chegar ao segundo turno, o que tende a colocar as duas candidaturas em confronto ao longo da campanha. Se superar o tucano, porém, o candidato do PSD terá poucos dias para procurar justamente Vicentinho e seus aliados em busca de uma frente mais ampla contra Dorinha.
É uma equação que exige calibrar os ataques. Laurez precisa convencer o eleitor de que representa uma alternativa mais competitiva que Vicentinho sem transformar o tucano em um adversário impossível de incorporar depois. Em um eventual segundo turno, parte relevante da estratégia passaria pela tentativa de reunir grupos que hoje estão separados entre as duas candidaturas de oposição ao bloco governista.
Laurez ainda carrega uma particularidade que pode ser usada tanto pela própria campanha quanto pelos adversários: já ocupou o Palácio Araguaia. Foram cerca de três meses no comando do Estado, entre setembro e dezembro de 2025, período curto para uma avaliação consistente de uma administração, mas suficiente para deixar decisões diretamente associadas ao vice-governador.
Entre elas estão as demissões de servidores contratados da educação. Laurez sustentou que havia profissionais acima da necessidade da rede e defendeu a medida como parte de um ajuste administrativo. O episódio voltou ao debate eleitoral da última terça-feira, 18, indicação de que decisões tomadas durante a gestão interina serão cobradas durante a campanha.
Esse período produz uma disputa de narrativa. Laurez pode apresentar os três meses como demonstração de experiência e capacidade para tomar decisões impopulares que considera necessárias. Os adversários têm caminho inverso: tentar passar ao eleitor a ideia de que ele já teve uma oportunidade no governo e, portanto, pode ser avaliado pelo que fez. O problema para essa segunda leitura é o próprio tempo: três meses dificilmente permitem executar e medir um projeto de governo.
Lula
A candidatura enfrenta ainda uma mudança importante de identidade política. Laurez construiu sua trajetória mais próximo do centro e do centro-direita, mas chega à eleição como principal candidato ao governo ligado ao presidente Lula no Tocantins. A composição ampliou seu campo de alianças, mas também criou a necessidade de conversar com um eleitorado que não acompanhou necessariamente sua trajetória política.
Essa associação ainda busca ganhar nitidez. Na convenção que lançou sua candidatura, Laurez pouco citou Lula no discurso e a identidade visual do evento deu espaço limitado ao presidente, apesar da presença de um integrante de primeiro escalão do governo federal. Nos últimos dias, o candidato passou a reforçar a proximidade, inclusive com vídeos ao lado de Lula e referências mais frequentes ao presidente.
Ter o apoio de Lula e ser identificado pelo eleitor como o candidato de Lula são coisas diferentes. A primeira depende de alianças partidárias e declarações públicas; a segunda precisa ser construída durante a campanha. Para Laurez, há ainda uma dificuldade adicional: fazer essa aproximação sem perder eleitores de centro e de direita que fazem parte de sua trajetória política.
Linguagem
O desafio também passa pela linguagem. Laurez costuma recorrer à experiência administrativa, aos mandatos que exerceu e a um discurso técnico de gestão. Esse histórico pode servir como credencial, mas precisa ser traduzido para um eleitorado que demonstrou valorizar identificação pessoal e proximidade. Wanderlei Barbosa, de quem Laurez é vice, fez dessa característica um componente importante de sua campanha em 2022, quando explorou a imagem de político do interior e adotou para si a definição de “curraleiro”.
Laurez precisa, portanto, disputar diferentes eleições dentro da mesma campanha. Primeiro, convencer o eleitor a colocá-lo à frente de Vicentinho na corrida pelo segundo turno. Ao mesmo tempo, precisa administrar os efeitos de sua passagem pelo governo, consolidar a ligação com Lula e tornar seu discurso mais próximo do eleitor.
Caso passe pela primeira etapa, o paradoxo ficará ainda mais evidente. O adversário que Laurez precisa superar agora poderá estar entre os primeiros que terá de procurar depois. Para chegar a uma disputa direta com Dorinha, precisa vencer Vicentinho. Para tentar vencê-la, pode precisar dele.
