Aos 39 anos, o empresário e ex-vereador de Palmas Iratã Abreu tenta construir uma trajetória política própria sem abrir mão do sobrenome que o projetou. Filho da ex-senadora Kátia Abreu (PT) e irmão do senador Irajá (PSD), Iratã retorna ao debate eleitoral dez anos depois de deixar a vida pública. Eleito vereador da capital em 2012, optou por não disputar a reeleição em 2016, quando a família vivia um dos momentos de maior influência política no Tocantins.

Longe das urnas, mergulhou no empreendedorismo. Com atuação no setor de tecnologia e telecomunicações, tornou-se executivo do Grupo CRP Tech e assumiu a presidência da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro) no Tocantins.

Agora filiado ao PSDB e pré-candidato a deputado federal, ele afirma que retorna à política por decisão própria, rejeita o rótulo de herdeiro político e defende uma agenda centrada em transformação digital, governo eletrônico e incentivo à economia da inovação.

Nesta entrevista ao Jornal Opção Tocantins, Iratã fala sobre a decisão de deixar a política, a experiência como empresário, a escolha pelo PSDB, o peso do sobrenome Abreu e o possível retorno de Kátia Abreu às disputas eleitorais.

Por que o senhor deixou a política em 2016?

A política sempre foi um sonho para mim. Fui vereador muito jovem e a Câmara foi uma escola importante. É o vereador que lida com os problemas reais da sociedade: a doença, o desemprego, a fome.

Depois dessa experiência, eu decidi interromper esse ciclo. Foi uma opção minha. Eu não deixei de disputar porque poderia perder. Naquele momento, nossa família vivia um auge político no estado, mas eu queria experimentar outra escola: a do empreendedorismo.

Poucos políticos deixam a política. Em muitos casos, é a política que deixa o político. Eu quis sair no meu tempo.

O que aconteceu nesses dez anos longe dos mandatos?

Mergulhei no mundo da tecnologia e da inovação. Sempre fui apaixonado por informática e computação.

Ao longo desse período, participei de projetos de transformação digital em vários estados do Brasil e também no exterior. Estive nos Estados Unidos, na Europa e na África para entender como o mundo está se desenvolvendo do ponto de vista tecnológico.

Estudei, me especializei e minha empresa cresceu bastante. Sou um exemplo de que é possível empreender no Tocantins.

WhatsApp Image 2026-06-17 at 18.28.50
Empresário do setor de tecnologia, filho da ex-senadora Kátia Abreu e irmão do senador Irajá, pré-candidato do PSDB fala sobre o retorno à política, a escolha por um partido diferente da família e os desafios da economia digital | Foto: Jornal Opção Tocantins

O que o fez voltar à política agora?

A política nunca deixa você. É algo que carrego no meu DNA.

Mesmo afastado dos mandatos, continuei participando de movimentos empresariais e do associativismo. Presidi uma entidade que discutia políticas públicas voltadas ao setor de tecnologia.

Volto porque quis voltar. Não estou ocupando um espaço vazio, nem fui empurrado por alguém ou por conveniência familiar.

Hoje me sinto mais maduro, mais preparado e com uma bagagem maior.

O que a política pode entregar que o empreendedorismo não consegue?

Empreender é transformar empresas e negócios. A política permite promover transformações em grande escala.

Quero levar para a política a experiência que acumulei no setor de tecnologia e ajudar a promover uma transformação digital no setor público.

Como isso funcionaria na prática?

O governo precisa ser digital.

Hoje, o cidadão ainda precisa enfrentar filas e balcões para resolver problemas simples. Ele deveria conseguir emitir uma guia, solicitar uma licença ambiental, pagar impostos ou pedir reparos em iluminação pública pela internet.

A transformação digital já chegou às empresas. Ela precisa chegar também ao setor público.

O Tocantins está preparado para a economia digital?

Não é apenas o Tocantins. O Brasil inteiro está vivendo essa transformação.

A economia digital alcança todos os setores, inclusive a agricultura familiar.

Um pequeno produtor pode usar plataformas digitais para comercializar seus produtos, assim como uma microempreendedora pode vender pelo WhatsApp sem precisar de uma loja física.

O estado precisa entender esse movimento, criar incentivos e ajudar a acelerar essa transformação.

WhatsApp Image 2026-06-17 at 18.41.57
Iratã Abreu durante entrevista ao Jornal Opção Tocantins | Foto: Jornal Opção Tocantins

Qual deve ser o papel do poder público nesse processo?

Capacitação e desburocratização.

O Sistema S já desenvolve iniciativas importantes. O governo pode ampliar esses mecanismos, criar incentivos e simplificar a atividade econômica.

Não adianta incentivar a economia digital sem criar condições para que as pessoas participem dela.

Qual será sua principal bandeira no Congresso?

Quero participar dos debates sobre inovação tecnológica, empreendedorismo e soberania digital.

Hoje precisamos discutir onde estão armazenados os dados do país e como o Brasil pode atrair investimentos em infraestrutura tecnológica, especialmente em data centers.

Esse é um debate estratégico para o futuro.

O Tocantins pode diversificar sua economia além do agronegócio?

O agronegócio é a principal vocação econômica do estado e isso está consolidado.

Mas temos outras oportunidades, como o turismo e a inovação tecnológica.

Goiás é um exemplo interessante. O estado conseguiu ampliar sua matriz econômica e hoje é referência em tecnologia e inteligência artificial.

O Tocantins pode seguir esse caminho sem abandonar sua vocação agropecuária.

Por que escolheu o PSDB?

Sempre me identifiquei com partidos de centro.

Acredito na economia de mercado, mas também entendo que o Estado precisa amparar quem mais precisa.

Escolhi o PSDB porque encontrei as condições políticas necessárias para disputar a eleição.

O PSD, naquele momento, não me oferecia a mesma viabilidade eleitoral.

Como conviver com posições políticas diferentes dentro da própria família?

Minha mãe construiu uma relação de amizade com a presidente Dilma Rousseff e com o presidente Lula ao longo dos últimos anos.

Ela fez a opção de se filiar ao PT, enquanto meu irmão permaneceu no PSD.

Eu escolhi o PSDB.

Cada um tem sua trajetória política, mas continuamos sendo uma família.

O sobrenome Abreu abre ou fecha portas?

Abre muito mais portas do que fecha.

Ele traz responsabilidade e cobrança, mas também representa uma trajetória de trabalho.

Minha mãe participou de grandes debates nacionais e acumulou desgastes políticos por seus posicionamentos, mas ninguém pode questionar sua integridade.

Tenho muito orgulho do meu sobrenome.

O senhor teme ser visto apenas como herdeiro político?

Esse é um argumento usado, muitas vezes, por pessoas de má-fé.

Minha melhor resposta é a minha trajetória.

Tenho minhas convicções, minha independência e escolhi até um partido diferente do restante da família.

Não sou preposto de ninguém.

Como avalia a discussão sobre o fim da escala 6×1?

Esse debate não tem relação com esquerda ou direita.

Estamos falando das condições de vida do trabalhador brasileiro.

O trabalhador está cansado, enfrenta problemas de mobilidade, segurança e saúde mental.

Mas é preciso encontrar um equilíbrio.

Se houver mudanças, elas precisam ser boas para o trabalhador e também para o empresário, especialmente o pequeno empreendedor.

É preciso discutir incentivos e desoneração para evitar impactos negativos na geração de empregos.

A possível candidatura de Kátia Abreu ao Senado afetaria sua campanha?

Pelo que acompanho, não há nenhuma candidatura colocada neste momento.

Ela se filiou ao PT para apoiar o presidente Lula no Tocantins.

Mas apenas ela pode falar sobre o futuro político dela.

Se um dia tivermos a oportunidade de disputar uma eleição juntos, será uma honra.

Como o eleitor encontrará Iratã Abreu em 2026?

Vou me apresentar com base na verdade.

Sou alguém que participou da política, escolheu empreender, gerou empregos e criou oportunidades.

Quero levar para a Câmara dos Deputados uma agenda diferente, voltada à inovação tecnológica.

A economia mudou. A política precisa mudar e se modernizar