O Tocantins nasceu sob a marca de Siqueira Campos, com planejamento e uma visão de Estado que construiu alicerces sólidos. Mas, nos últimos 19 anos, a política tocantinense viveu sob outra sombra: a da instabilidade. Afastamentos judiciais, cassações e renúncias marcaram uma sequência de governos curtos, em que até quem tentou deixar legado acabou com a narrativa manchada, o acerto lembrado apenas como retórica para justificar os erros que vieram depois.

Nesse cenário, a disputa que se desenha para 2026 pode trazer uma chance rara de virar a página. Dorinha Seabra (UB) e Laurez Moreira (PSD) demonstram, até aqui, que são nomes que não se resumem a projetos pessoais. Ambos carregam biografias que equilibram trânsito em Brasília e força no Tocantins, sinalizando que a eleição pode, finalmente, ser pautada em visão macro e não em sobrevivência política.

Dorinha se projetou no Congresso com a relatoria do Fundeb, a liderança em comissões e o diálogo direto com os principais atores da política nacional. Mas sua força não está apenas em Brasília: no Tocantins, a senadora construiu base sólida entre prefeitos, incluindo os das maiores cidades, o que dá densidade política e capilaridade doméstica rara para uma senadora em primeiro mandato. A parlamentar se movimenta como quem sabe que mandato majoritário se conquista tanto em articulação nacional quanto na ponta do interior.

Laurez tem outro estilo: de vereador em Dueré a gestor com resultados visíveis em Gurupi, apresenta-se como político que fala em projetos, não em intrigas paroquiais. Mas também não é um estranho a Brasília, foram dois mandatos de deputado federal que o ensinaram que nenhum governador consegue se sustentar sem portas abertas no centro do poder. Seu discurso de colocar “projetos acima de pessoas” não é vazio; encontra eco em sua trajetória.

O que há de comum entre os dois é a perspectiva de política de legado, algo que o Tocantins perdeu ao longo das últimas quase duas décadas. Se a eleição se restringir a Dorinha e Laurez, a campanha terá chance de discutir o estado em larga escala, longe da lógica de improvisos que dominou os últimos ciclos.

Para os dois pré-candidatos que já se apresentaram, o perigo é cair na armadilha da velha política: fisiologismo e arranjos de ocasião. O eleitor do Tocantins já assistiu a esse enredo, governos que tiveram seus méritos, mas que terminaram carimbados pela Justiça.

Em 2026, o Tocantins não precisa apenas escolher um novo governador. Precisa decidir se quer voltar ao ciclo da instabilidade ou se, enfim, aposta em projetos que deixem legado sem precisar de asteriscos.