O deputado federal Ricardo Ayres (Republicanos) chega ao início da pré-campanha à reeleição tentando se firmar como um parlamentar de perfil independente dentro de um cenário político cada vez mais polarizado. Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, ele rejeitou rótulos ideológicos fechados, definiu-se como “social-democrata” e afirmou que não pretende transformar o mandato em disputa permanente entre direita e esquerda.

Vice-líder do segundo maior bloco da Câmara, Ayres fez um balanço dos primeiros quatro anos em Brasília, comentou temas nacionais que dominaram o debate político nos últimos meses — como a CPI do INSS, as bets, a dosimetria das penas do 8 de Janeiro e a proposta de redução da maioridade penal — e também falou sobre o cenário de 2026 no Tocantins. Defendeu a pré-candidatura da senadora Dorinha Seabra (UB) ao governo, elogiou a gestão de Wanderlei Barbosa (Republicanos) e disse acreditar que o Republicanos fará três deputados federais na próxima eleição.

Como o senhor resume os primeiros quatro anos de mandato na Câmara?

Foi um período muito desafiador e também muito relevante. Primeiro mandato de deputado federal não é simples. A Câmara é uma casa enorme, com 513 parlamentares, e quem chega por último precisa conquistar espaço. Acho que conseguimos isso pela presença, pela articulação e pela participação nos debates mais importantes do país.

Eu sou um dos poucos parlamentares do Brasil com 100% de presença em plenário e comissões. Também fui ocupando espaços importantes. Hoje sou vice-líder do segundo maior bloco da Câmara, membro titular da Comissão de Constituição e Justiça e participei da Comissão Mista do Orçamento.

Mas deputado não pode ser medido só por emenda. O debate nos municípios às vezes fica muito resumido a quem mandou mais recurso, mas o trabalho parlamentar é maior do que isso. É fiscalização, elaboração de leis, pareceres, articulação de programas federais. Eu já tive duas leis sancionadas de minha autoria e produzi mais de 300 pareceres nesse período.

O senhor costuma dizer que não fica “em cima do muro”. Como se posiciona nessa polarização entre direita e esquerda?

Eu vejo que o parlamento acabou diminuído por esse embate ideológico. Muitas vezes deixamos de discutir pautas importantes porque tudo virou guerra política. Isso contaminou a atuação parlamentar e aprofundou uma divisão que o país já vive.

Eu respeito quem é da direita e quem é da esquerda, mas não sou deputado de acompanhar moda. Meu mandato tem obrigação de entregar resultado para o Tocantins. Não posso transformar tudo em vídeo para rede social enquanto o estado precisa de estrada, ambulância, escola e investimentos.

Me considero social-democrata, numa linha de centro. Defendo liberdade econômica e propriedade privada, mas também entendo que o Estado precisa criar mecanismos de inclusão social.

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Ricardo Ayres considera que embate ideológico deixa parlamento sem pautar temas importantes da população | Foto: Jornal Opção Tocantins

Quais políticas sociais o senhor considera importantes dentro dessa linha de centro?

Eu defendo programas sociais. Votei favoravelmente a alterações do Bolsa Família, defendo Pé-de-Meia, tarifa social, auxílio gás, Fies. Todo mundo precisa ter oportunidade de crescer.

Esses programas são importantes porque ajudam a incluir pessoas no desenvolvimento econômico. O Estado não pode abandonar quem mais precisa.

Qual avaliação o senhor faz do governo Lula?

O governo poderia ter feito mais do que fez. Existiram condicionantes econômicas e internacionais importantes, como as guerras em curso, mas também houve um problema interno muito forte: grande parte do orçamento ficou concentrada no Congresso Nacional.

Eu mesmo defendi que uma parte das emendas fosse vinculada a programas estruturantes do país. Porque, se isso tivesse acontecido, talvez obras importantes não tivessem chegado ao ponto em que chegaram.

O senhor cita as pontes interditadas no Tocantins como exemplo disso?

Sim. Ponte de Estreito, Pedro Afonso, Araguatins. São estruturas relativamente novas e que chegaram a uma situação grave. Inclusive já fui ao Tribunal de Contas da União (TCU) pedir auditoria sobre isso.

Então acho que o governo federal poderia ter avançado mais em algumas áreas estruturantes.

O senhor foi um dos parlamentares mais críticos à regulamentação das bets. Por quê?

Porque isso virou uma tragédia social. O jogo online destrói famílias, gera vício, endividamento e ainda abre espaço para lavagem de dinheiro e outros crimes.

A Câmara inseriu os jogos online dentro de um projeto durante uma sessão esvaziada, em período de recesso. Votei contra porque vi o tamanho do problema.

Eu acompanhei casos muito próximos. Tenho assessora cujo filho tirou a própria vida por causa de dívida com jogo. E os números são assustadores. Recursos de programas sociais acabaram indo para plataformas de aposta.

O senhor defende proibição total?

Eu faço distinção entre a loteria tradicional e o jogo online permanente no celular. O problema do celular é que ele fica disponível o tempo inteiro, sem nenhum filtro.

Tenho propostas para impedir influenciadores de divulgar bets, para proibir uso de recursos sociais em apostas e para limitar apostas conforme a renda declarada no Imposto de Renda.

O senhor votou contra o relatório da CPI do INSS. Por quê?

Porque os relatórios acabaram sendo produzidos de forma parcial. Nós tínhamos dois relatórios. Um mencionava o Lulinha e esquecia o Vorcaro e o Banco Master. O outro mencionava o Vorcaro e esquecia o Lulinha. E eu acho que a CPI deveria produzir uma investigação ampla, sem proteger direita nem esquerda.

Quando o primeiro relatório foi rejeitado, existia a obrigação regimental de se deliberar um novo relatório. Só que o presidente da comissão encerrou a CPI de maneira abrupta e desnecessária para criar a narrativa de que ela terminou em pizza. Quando, na verdade, fabricaram a pizza.

O que o senhor considera que ficou de fora da investigação?

O Banco Master e o Vorcaro aparecem como estruturas que precisavam de aprofundamento maior. Havia operações de desconto envolvendo aposentados que também estavam ligadas a operações de crédito. Isso precisava ser investigado de forma mais ampla.

Eu defendi um relatório que alcançasse todos os envolvidos, independentemente de posição política. Não aconteceu.

O senhor também defende a instalação da CPI do Banco Master?

Assinei e defendo a instalação imediata. É preciso aprofundar tudo o que apareceu até agora.

Na hora que puxar esse fio, muita coisa ainda pode aparecer. E isso precisa acontecer independentemente de quem seja atingido.

O senhor é favorável à redução da maioridade penal?

Sou favorável para determinados crimes. Hoje a realidade mudou muito em relação ao passado. A tecnologia acelerou o acesso à informação e o discernimento das pessoas acontece mais cedo.

Nós tivemos mais de 1.700 homicídios praticados por menores em um único ano. Não dá para ignorar isso.

Mas o senhor defende redução ampla ou restrita?

Restrita para crimes graves, como homicídio, crimes hediondos e violência extrema. Acho que esse é um caminho intermediário mais adequado.

O senhor votou contra a chamada dosimetria do 8 de Janeiro. Por quê?

Porque o projeto não separava quem participou de atos menos graves de quem financiou, organizou ou tentou praticar ações mais violentas.

Eu também entendo que existe jurisprudência consolidada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra anistia para crimes contra a democracia. Então vi aquilo muito mais como um movimento político do que uma proposta juridicamente viável.

O senhor considera que houve tentativa de golpe?

Ficou evidente que houve esforço para isso. O 8 de Janeiro foi o ponto final de um processo que vinha sendo construído antes.

Mas houve penas excessivas em alguns casos?

Acho que algumas penas foram elevadas demais para pessoas com participação menor. Só que isso precisa ser revisto pelo Judiciário. Meu papel como deputado não é julgar processos.

Recentemente voltou ao debate a PEC que prevê o fim da escala 6×1. Qual sua posição?

Sou totalmente favorável ao fim da escala 6×1 como forma de garantir dignidade ao trabalhador.

Qualidade de vida também significa tempo para descanso, lazer, cultura e convivência familiar. Isso pesa ainda mais para muitas mulheres que trabalham fora e ainda acumulam responsabilidades dentro de casa.

Dar mais tempo para essas pessoas também significa melhorar saúde mental e produtividade.

Qual avaliação o senhor faz da gestão de Wanderlei Barbosa?

Considero uma gestão altamente positiva. O estado avançou em infraestrutura, educação, saúde e valorização dos servidores.

Você vê novas estradas, cidades sendo interligadas, obras na educação, expansão da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), investimentos na saúde e projetos importantes como o Hospital da Mulher.

Além disso, o governador manteve boa relação com a bancada federal e com o parlamento.

O senhor chegou a cogitar sair do Republicanos?

Nunca pensei nisso. O partido me deu protagonismo em Brasília e também reconheço a importância da liderança do governador Wanderlei nesse processo.

O Republicanos vai fazer três deputados federais. Temos uma chapa competitiva.

Na disputa pelo governo, o senhor considera Dorinha o principal nome?

Sem dúvida. A Dorinha é muito preparada, tem experiência de gestão e alcançou espaço importante em Brasília. Isso ajuda muito quem pretende governar o Tocantins.

E vejo também que nosso grupo precisa construir unidade para 2026.