Dark Horse e os 93 dias sem resposta: a primeira promessa descumprida de Flávio Bolsonaro como candidato
21 agosto 2026 às 08h13

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Na política, prometer transparência costuma ser um gesto barato e quase automático. O difícil é sustentá-la quando a luz do sol começa a incidir sobre aquilo que se preferia manter em penumbra. Flávio Bolsonaro (PL), senador e candidato à Presidência da República, já ultrapassou em 93 dias o prazo que ele mesmo estabeleceu para apresentar uma prestação de contas detalhada sobre os recursos destinados ao filme “Dark Horse”, produção sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O compromisso surgiu em meio a uma crise de imagem. Após a divulgação de áudios em que Flávio aparece negociando recursos com Daniel Vorcaro para a produção, o senador anunciou que havia solicitado à produtora um relatório completo sobre a origem e o destino do dinheiro. Fixou um prazo: 30 dias. O prazo venceu em 18 de junho.
Hoje, 20 de agosto, o que se tem é um número incômodo: 93 dias de atraso. E, até aqui, nenhuma prestação de contas pública nos moldes prometidos pelo próprio autor da promessa.
O silêncio se torna ainda mais estridente quando confrontado com os valores envolvidos. Reportagens indicam que R$ 61 milhões teriam sido destinados à produção por meio de uma empresa ligada a Vorcaro. A própria produtora afirmou à uma emissora de TV que recursos associados ao banqueiro responderam por mais de 90% do orçamento do longa.
O problema, no entanto, não é apenas contábil. É político.
Flávio Bolsonaro não é um produtor tentando explicar um projeto audiovisual, nem um gestor privado lidando com investidores. É senador da República e candidato à Presidência. E quem se apresenta ao eleitor como uma solução de gestão para o Brasil não pode tratar transparência como peça de marketing — nem como promessa de prazo flexível.
Não se trata de antecipar culpa ou transformar suspeitas em sentença. Trata-se de algo mais básico e, ao mesmo tempo, mais incômodo: cumprir aquilo que foi voluntariamente prometido.
Se tudo está em ordem, a solução seria simples, e até pedagógica. Bastaria abrir os números, expor os contratos, detalhar os fluxos e encerrar a dúvida pela via mais óbvia: a transparência.
Mas isso ainda não aconteceu. Enquanto não acontece, “Dark Horse” segue menos como uma obra concluída e mais como um enredo político em aberto, daqueles em que o silêncio diz mais do que qualquer fala pública cuidadosamente ensaiada.
E, nesse intervalo, cresce também uma espécie de sonho de esquecimento coletivo: a expectativa de que o tempo apague as perguntas, que a ausência de respostas se dissolva na rotina e que a memória pública simplesmente deixe de insistir no que ainda não foi explicado.
Mas, na política, 93 dias de silêncio não representam ausência de resposta. São, por si só, uma resposta escolhida.
