No Tocantins, como em tantos outros lugares do Brasil, o Dia do Jornalista chega sempre com o mesmo roteiro, mensagens prontas, artes nas redes sociais, discursos sobre a “importância da imprensa”. É bonito e, ao mesmo tempo, profundamente contraditório.

A realidade no estado escancara um cenário que muitos preferem ignorar, redações enxutas, acúmulo de funções, profissionais que precisam dar conta de texto, vídeo, foto, redes sociais, tudo isso sob prazos cada vez mais curtos com remunerações que não acompanham o nível de exigência, mas a pressão sim, esta sim tem sido ascendente.

Pressão política, inclusive. Em um estado onde as relações são próximas e os espaços de poder são concentrados, o jornalista vive na linha tênue entre informar e desagradar quem pode, direta ou indiretamente. Não é exagero fazer jornalismo crítico no Tocantins ainda custa caro.

A verdade é que o jornalista só é valorizado quando serve, quando divulga o que convém, fortalece narrativas,
e claro, não incomoda. Fora disso, passa a ser questionado, desacreditado ou simplesmente descartado e a mesma sociedade que parabeniza hoje é, muitas vezes, a que deslegitima amanhã.

Essa realidade não surgiu do nada, é fruto de um processo contínuo de desvalorização da profissão, que teve como marco a decisão do Supremo Tribunal Federal ao derrubar a exigência do diploma. No papel, uma discussão sobre liberdade profissional, porém com um recado perigoso nas entrelinhas: o de que a formação pode ser relativizada, de que o jornalismo pode ser exercido sem preparo, como se não exigisse técnica, ética e responsabilidade.

Some-se a isso propostas como o PL da multimídia e a lógica do “faz tudo”, que virou pré-requisito nas redações.

E, no meio de tudo isso, está um problema que raramente aparece nas homenagens, o adoecimento mental. Dados apresentados no Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional mostram que o Brasil registrou, em 2024, 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo o Tribunal Superior do Trabalho, um aumento de 68% em relação ao ano anterior, com média de 196 dias de afastamento. No jornalismo, esse cenário encontra terreno fértil, regado por jornadas longas, exposição constante a notícias negativas e uma rotina que não permite desligamento.

A própria Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) já indicou que quase metade dos profissionais relata sintomas como depressão e insônia. No Tocantins, esses números ganham rostos conhecidos, afinal, quem não tem colegas que acumulam funções para manter o emprego? Que precisam, inclusive, de mais de um trabalho? Que seguem além do horário sem remuneração proporcional? Que lidam com cobranças externas e internas, em um cenário de leitores cada vez mais polarizados, muitas vezes de forma agressiva?

Como parte da nova geração de jornalistas, é impossível não olhar para o futuro e sentir, de fato, um certo desânimo. Há uma tristeza real ao perceber o que nos espera nos próximos anos, mas mesmo tempo, existe uma insistência em permanecer. Em acreditar.

Porque, apesar de tudo, o que mais chama atenção é o potencial que existe, e que é constantemente sufocado. Quantos colegas não querem entregar mais qualidade no trabalho? Quantos não são, inclusive, mais do que competentes para isso? Mas esse potencial é, muitas vezes, limitado pelas condições impostas, pela pressa, pela falta de equipe, pela ausência de investimento e pelo pouco espaço para fazer um jornalismo mais aprofundado.

Essa montanha de exigências e limitações não só desgasta, como pressiona e reduz aquilo que o jornalismo tem de mais importante. No fim, os jornalistas seguem porque gostam, não porque são valorizados.

Por isso, as homenagens deste 7 de abril soam tão convenientes, é fácil parabenizar o jornalista por um dia, difícil é garantir condições dignas de trabalho o ano inteiro. Difícil é entender que jornalismo não é favor, é função social.

No Tocantins, ser jornalista é, acima de tudo, um exercício diário de resistência.

Então, sim. Feliz Dia do Jornalista.
Mas que ele sirva menos para comemorar e mais para incomodar. Porque, enquanto a profissão seguir sendo tratada como descartável, qualquer homenagem será só isso, discurso.