Moraes, Mendonça, Fux e Nunes Marques: pau que bate em Chico vai bater em Francisco?
20 setembro 2026 às 09h25

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Existe um velho ditado que diz: “pau que bate em Chico também bate em Francisco”. É a ilustração do pensamento de que os mesmos critérios e rigidez usados no julgamento e punição de um indivíduo devem ser usado para outro, sem qualquer tipo de favoritismo ou complacência. No Supremo Tribunal Federal (STF), essa sabedoria popular está prestes a passar por um teste de constitucionalidade.
A Corte começou a discutir se um relatório da Polícia Federal (PF) apresentado por André Mendonça pode servir de base para investigar o colega de toga, Alexandre de Moraes, por sua suposta relação com Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro que está no centro de um dos maiores (ou o maior) escândalos financeiros da história do Brasil. E se o caminho for aberto, o Supremo terá de mostrar se s régua usada contra Moraes vai ser a mesma quando os nomes envolvidos estiverem do outro lado do plenário.
Informações extraídas do celular de Vorcaro revelam supostos diálogos relacionados a Moraes, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustenta a nulidade do relatório – em parecer, Paulo Gonet diz ser inegável que houve um esforço para “buscar indicativos de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilícitos”. O STF, por sua vez, nem chegou ao mérito, uma vez que o pedido de vista de Flávio Dino interrompeu a discussão enquanto os ministros ainda debatiam questões de ordem, incluindo se os casos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam tramitar juntos.
Até pouco antes do julgamento, os olhos estavam voltados para o “Xandão” e somente ele. Mas o ponto é que o celular de Vorcaro atirou para todo lado: mensagens divulgadas nos últimos dias puxaram outros ministros para o olho do furacão, entre eles Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Há diálogos do ex-banqueiro com Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, e referências a pagamentos ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques.
No caso de Rodrigo Fux, mensagens apontam Vorcaro procurando o advogado para tratar de uma disputa bilionária no setor sucroalcooleiro. Leia-se: não há indicação de que o pedido tenha sido atendido pelo filho do ministro. Já no entorno de Nunes Marques, além das referências a pagamentos ao filho do ministro, foram reveladas mensagens segundo as quais Vorcaro teria custeado uma mansão no Rio de Janeiro para um ministro identificado como “KN” durante o Carnaval de 2025 (claro, a identificação e as circunstâncias ainda precisam ser devidamente esclarecidas).
Vale destacar que investigar Moraes não significa condená-lo, e investigar Nunes Marques, Fux ou qualquer outro ministro, tampouco. Entretanto, o próprio plenário já parece ter percebido que “o buraco é mais embaixo”.
No primeiro dia do julgamento, Nunes Marques se declarou impedido, enquanto Dias Toffoli alegou suspeição por foro íntimo. Em tempo: se a Corte entender que há elementos para investigar Moraes, vai estabelecer um precedente que não pode ser esquecido. Seria algo inédito. E se interpretar que os elementos são insuficientes, o Tribunal vai ter que, igualmente, explicar quais critérios adotou. De um jeito ou de outro, o estrago estará irreparavelmente feito.
Porque, depois de tudo que saiu do celular de Daniel Vorcaro, a questão primordial é se eventuais elementos relacionados a outros membros do Supremo e seus círculos próximos vão ter o mesmo escrutínio. Teremos julgamentos pra analisar também essas situações, com o mesmo rigor reservado a Moraes, ou Chico vai ficar sozinho no banco dos réus enquanto Francisco assiste de camarote?
Se o chicote “terrivelmente evangélico” de André Mendonça for usado como instrumento principal, convém descobrir se ele alcança a todos, ou se o velho ditado de Chico ficará somente no imaginário popular mesmo.
