Por Júnior Kamenach

Em momentos de normalidade institucional, embates políticos nas redes sociais já são, por si só, questionáveis quando descambam para ataques pessoais. Em meio a uma tragédia com dezenas de mortos em Minas Gerais, tornam-se ainda mais desproporcionais.

Ao decidir atacar o influenciador Rafael Lange, o Cellbit, o deputado federal Nikolas Ferreira fez uma escolha política clara: alimentar a polarização digital em vez de direcionar sua visibilidade para a crise humanitária que atinge seu próprio estado.

Não se trata de cercear o direito de crítica. Parlamentares podem, e devem, se posicionar politicamente. O problema é o contraste. Enquanto cidades da Zona da Mata mineira contabilizavam mortos e desaparecidos por causa das chuvas, o debate impulsionado por um dos deputados mais votados do país girava em torno de um gesto feito por um streamer durante uma live.

A pergunta que ecoou nas redes, “Suas prioridades estão em dia, deputado?”, não é mero deboche. É um questionamento legítimo sobre o papel institucional de um representante eleito. Nikolas Ferreira construiu sua trajetória política com forte presença nas redes sociais.

A estratégia é conhecida: tensionar o debate, provocar adversários ideológicos e mobilizar sua base. Funciona em termos de engajamento. Mas governar, ou legislar, exige mais do que viralizar. Minas Gerais enfrenta um cenário de calamidade.

Em situações assim, espera-se de um deputado federal ao menos três movimentos básicos: cobrar ações coordenadas, articular recursos, pressionar por assistência às vítimas. A visibilidade que ele tem poderia ter sido usada para amplificar informações úteis, mobilizar doações ou cobrar respostas concretas.

Ao optar por atacar um influenciador digital por alinhamento político, o deputado reforçou a sensação de que a disputa simbólica importa mais do que a dor concreta. O episódio também ilustra um fenômeno maior: a política transformada em arena permanente de guerra cultural.

Nesse ambiente, o gesto de um youtuber vira pauta prioritária, enquanto tragédias reais viram pano de fundo. Não é exclusividade de um campo ideológico. A lógica da indignação constante contamina direita e esquerda.

Mas, no caso específico, a crítica recai sobre quem detém mandato e responsabilidade institucional direta sobre o estado afetado. A resposta irônica de Cellbit pode ter garantido likes e compartilhamentos.

A publicação de Nikolas também. Mas, para as famílias que perderam parentes nas enchentes, isso é irrelevante. A maturidade política se mede, muitas vezes, pela capacidade de compreender o momento. Há horas para debate ideológico. E há horas para foco absoluto na emergência.

Quando a agenda pessoal ou partidária se sobrepõe à tragédia coletiva, a crítica deixa de ser disputa política e passa a ser cobrança de responsabilidade. Um deputado federal não é apenas um influenciador com mandato.

É um agente público eleito para representar interesses da população, inclusive nos momentos mais difíceis. E, em meio à chuva, ao luto e ao desespero, o mínimo que se espera é prioridade adequada.