A política raramente se move por um único motivo. O anúncio da pré-candidatura de Ivanete Lima ao Senado pelo PSD é um exemplo disso. À primeira vista, trata-se apenas da apresentação de mais um nome para a disputa de 2026. Mas, olhando o cenário, a decisão traz uma série de questionamentos sobre a estratégia do senador Irajá Abreu. O primeiro deles é a aparente contradição.

Quando anunciou a desistência da disputa ao Senado, em junho, o ex-governador Mauro Carlesse afirmou que a aproximação entre PSD e PT havia reduzido seu espaço dentro da chapa majoritária. Naquele momento, ele disse que a nova composição política em construção inviabilizava sua permanência no projeto.

A saída de Carlesse abriu espaço para novas negociações dentro da aliança. O nome do ex-deputado federal Paulo Mourão, do PT, passou a ser apontado como uma possibilidade para ocupar uma das vagas ao Senado, enquanto Laurez Moreira sustentava que havia um compromisso firmado entre PSD e PT para essa composição.

Depois, ao confirmar que integrará a chapa de Irajá como suplente, Carlesse apresentou uma nova justificativa para a desistência. Segundo ele, conversas com Irajá, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e Laurez indicaram que sua permanência na disputa poderia prejudicar o desempenho eleitoral do partido.

A avaliação, segundo Carlesse, era de que ele e Irajá disputariam parte do mesmo eleitorado e acabariam dividindo votos. A solução encontrada foi preservar sua força política dentro do projeto, mas retirar sua candidatura ao Senado. Se esse raciocínio era verdadeiro, por que lançar Ivanete?

É evidente que Ivanete possui um perfil político completamente diferente do de Carlesse. Mulher, negra, evangélica e com trajetória na saúde e na assistência social, ela dialoga com segmentos distintos do eleitorado. Ainda assim, representa uma segunda pré-candidatura do PSD ao Senado. A diferença está justamente no tipo de disputa.

Carlesse era um nome de maior densidade eleitoral e poderia competir diretamente com Irajá dentro do mesmo campo político. Ivanete, por outro lado, pode ser vista pelo partido como uma candidatura complementar, capaz de ampliar o alcance da chapa sem necessariamente reproduzir a mesma divisão de votos.

O lançamento de Ivanete altera imediatamente a mesa de negociação. Até então, Laurez Moreira sustentava que havia um acordo para que a segunda vaga ao Senado fosse ocupada pelo ex-deputado Paulo Mourão, do PT. Ao colocar uma candidata do próprio PSD na disputa, Irajá deixa claro que essa vaga não está automaticamente reservada ao aliado.

A movimentação também expôs uma disputa interna sobre o comando das decisões dentro do próprio PSD. Embora Irajá tenha afirmado que a pré-candidatura de Ivanete contou com o aval da direção nacional da legenda, o anúncio ocorreu sem o conhecimento de Laurez Moreira, presidente estadual do partido. Quem é o presidente da legenda, afinal?  

É uma manobra clássica da política: criar uma alternativa para aumentar o poder de barganha. Enquanto existir uma candidatura viável dentro do PSD, o partido negocia em posição mais confortável. Se o acordo com o PT avançar, Ivanete pode ser retirada da disputa. Se não houver consenso, o PSD já terá um nome posto.

Há ainda um segundo aspecto que não pode ser ignorado. Embora não exista cota de gênero para candidaturas ao Senado, as decisões do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral asseguram que candidatas mulheres participem da distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do tempo de propaganda eleitoral conforme os critérios definidos para a participação feminina.

Isso não significa que o PSD receba mais dinheiro simplesmente por lançar Ivanete. A legislação não concede um bônus financeiro para partidos que apresentam mulheres na disputa ao Senado. Mas a existência de uma candidata feminina faz com que ela passe a integrar essa divisão de recursos e de propaganda, tornando-se também um ativo eleitoral da legenda. Seria essa a verdadeira razão do lançamento?

Até o momento, não há elementos que permitam afirmar isso. Nenhum dirigente do PSD apresentou esse argumento, e as declarações públicas concentram-se na disputa pela composição da chapa, no fortalecimento do partido e na relação com o PT.

Ainda assim, seria ingenuidade ignorar que esse efeito existe. Em política, dificilmente decisões são tomadas sem que se considerem todas as consequências possíveis, inclusive as financeiras e eleitorais.

O movimento de Irajá parece produzir ganhos em diferentes frentes. Fortalece sua posição diante do PT, demonstra sintonia com a direção nacional do PSD, amplia o leque de negociações e, de forma indireta, incorpora uma candidatura feminina que também passa a participar da distribuição do FEFC e do tempo de propaganda.

No fim, talvez a maior pergunta não seja por que Ivanete foi lançada, mas por que Carlesse deixou a disputa.

Se o problema era evitar a pulverização de votos, a lógica aplicada a Carlesse precisaria ser explicada diante da entrada de um novo nome do PSD na disputa. A diferença, segundo a leitura política possível, é que Ivanete não ocupa o mesmo espaço eleitoral do ex-governador e pode funcionar mais como uma peça de negociação do que como uma concorrente direta de Irajá.

É por isso que a movimentação pode ser definida como uma manobra. Não uma manobra ilegal, mas uma articulação cuidadosamente desenhada para fortalecer a posição do PSD antes das convenções partidárias.

Se Ivanete chegará às urnas ou se sua pré-candidatura servirá apenas como moeda de negociação é uma resposta que os próximos capítulos ainda terão de dar.