Amélio critica decisões tomadas em Brasília, defende mudanças no Orçamento e prevê fortalecimento da Vice-Governadoria
27 outubro 2026 às 13h53

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O presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto) e vice-governador eleito, Amélio Cayres (MDB), afirmou nesta terça-feira, 27, em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, que a vitória de Vicentinho Júnior (PSDB) foi resultado de uma campanha construída nos municípios, em oposição às negociações conduzidas por lideranças políticas em Brasília. Amélio, que ficou fora da composição governista após ter seu nome considerado para a sucessão estadual, também defendeu a participação do governador eleito na elaboração final do Orçamento de 2027 e afirmou que pretende restabelecer a Vice-Governadoria no Palácio Araguaia, após os conflitos entre Wanderlei Barbosa (Republicanos) e Laurez Moreira (PSD).
“Tocantins não podia ser discutido em Brasília. Tocantins tinha que ser discutido com os tocantinenses. E foi o que fizemos”, afirmou Amélio, ao comentar a campanha que terminou com a vitória de Vicentinho por 64,52% dos votos válidos, contra 35,48% da senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil), uma diferença de mais de 250 mil votos.
A declaração faz referência às negociações que antecederam a definição das candidaturas majoritárias. Amélio chegou a ser considerado para disputar o governo com o apoio de Wanderlei, mas acabou fora da composição governista. Vicentinho também enfrentou resistência à sua candidatura ao Senado, enquanto Alexandre Guimarães (MDB), posteriormente eleito senador, também buscava espaço na disputa pelas duas vagas ao Senado.
“Eu não vejo um projeto desse ser discutido lá em Brasília, a exemplo de dizer: ‘O Amélio não pode estar na chapa, o Alexandre não pode ser senador, o Vicentinho não pode ser senador’. Enfim, esse projeto foi discutido lá em Brasília, entre alguns senadores e deputados federais, sem ouvir o povo. E é fadado ao fracasso”, declarou.
Embora não tenha citado nominalmente os responsáveis pelas negociações, a crítica alcança o processo de formação da aliança que sustentou Dorinha, apoiada por Wanderlei e pelo senador Eduardo Gomes (PL). A composição terminou com Atos Gomes (Republicanos) como candidato a vice e quatro nomes do mesmo campo político na disputa pelo Senado: Eduardo Gomes, Carlos Gaguim (União Brasil), Eli Borges (Republicanos) e Ronaldo Dimas (Podemos). Apenas Eduardo Gomes foi eleito pelo grupo. A segunda vaga ficou com Alexandre Guimarães.
Amélio afirmou que, após a definição da chapa, ele, Vicentinho e Alexandre percorreram os 139 municípios do Tocantins, inclusive para reuniões com poucos participantes. Segundo o vice-governador eleito, esses encontros permitiram identificar demandas que não apareciam nas discussões entre dirigentes partidários.
“Eu, Alexandre e Vicentinho visitamos todos os municípios, às vezes com dez pessoas na reunião, às vezes com cem, mas fomos ouvir as pessoas”, disse.
Para Amélio, a campanha demonstrou que a capacidade de mobilização das lideranças não pode ser medida apenas pela presença em acordos partidários. “A gente só é líder porque a sociedade nos fez líderes. Então, deixar de ouvir a sociedade certamente não vai dar certo”, afirmou.
O presidente da Assembleia também destacou a diferença entre a situação política dos integrantes da chapa meses antes da eleição e o resultado obtido no segundo turno. “Agora imaginem, há oito meses, alguém que foi excluído de um projeto majoritário, os três impossíveis de chegar ao poder, hoje bateram o recorde de maior votação no estado”, declarou.
Orçamento de 2027 será discutido com o governador eleito
A vitória eleitoral coloca Amélio em uma posição institucional particular durante a transição. Como presidente da Assembleia, caberá a ele conduzir a tramitação do Orçamento de 2027, elaborado pelo governo Wanderlei, mas que será executado pela administração de Vicentinho.
Amélio afirmou que pretende reunir representantes de setores da sociedade, deputados estaduais e integrantes das equipes econômicas dos governos atual e eleito para discutir possíveis alterações na proposta. A intenção, segundo ele, é permitir que o planejamento financeiro considere as prioridades da nova gestão antes da votação definitiva.
“Vamos chamar a sociedade para dentro, os segmentos. Embora já esteja direcionado, a gente pode ainda modificar. Da mesma forma que ouvimos o cidadão tocantinense para construir um plano de governo, o recurso é público”, afirmou.
O vice-governador eleito reconheceu que Wanderlei permanece responsável pelo executivo até o encerramento do mandato e que as alterações deverão respeitar as competências constitucionais do atual governador. Ainda assim, defendeu a participação de Vicentinho nas discussões, por ser ele o responsável pela execução das despesas no próximo exercício.
“Nada nos impede de sentar numa mesma mesa-redonda os segmentos, o atual governador, a equipe econômica, uma possível equipe econômica do próximo governo e o próximo governador”, declarou.
A proposta deverá passar pela Comissão de Finanças, Tributação, Fiscalização e Controle, presidida pelo deputado Olyntho Neto (Republicanos), antes da votação em plenário. Olyntho também afirmou ao Jornal Opção Tocantins que admite alterações no Orçamento para contemplar prioridades de Vicentinho, seja por iniciativa do atual Executivo, seja por meio de emendas parlamentares.
A discussão será uma das primeiras etapas da relação institucional entre o governador eleito e a Assembleia, cuja composição para 2027 inclui parlamentares que apoiaram candidaturas adversárias no segundo turno.
Amélio quer Vice-Governadoria no Palácio Araguaia após conflito entre Wanderlei e Laurez
A relação entre governador e vice também foi abordada na entrevista. Questionado se a Vice-Governadoria voltará a funcionar dentro do Palácio Araguaia, Amélio respondeu que considera a mudança necessária e afirmou que não espera repetir os conflitos que marcaram a convivência entre Wanderlei Barbosa e Laurez Moreira (PSD).
“Eu acredito que sim, mas isso que nós aprovamos aqui foi um projeto vindo do executivo atual. É necessário que ele faça, que mande de lá para cá essa modificação, ou então acredito que o próximo governador fará”, declarou.
A discussão tem origem no rompimento político entre Wanderlei e Laurez, que ultrapassou as divergências eleitorais e alcançou a estrutura administrativa da Vice-Governadoria. O conflito incluiu a suspensão do cartão corporativo do vice, alterações na equipe de apoio e, em janeiro de 2026, a transferência de seu gabinete do Palácio Araguaia para um prédio comercial em Palmas. O governo apresentou justificativas administrativas para as mudanças, enquanto Laurez questionou as medidas e recorreu à Justiça.
A disputa se agravou após o afastamento judicial de Wanderlei, em setembro de 2025, quando Laurez assumiu interinamente o executivo. Com o retorno do governador, em dezembro, novas alterações atingiram a estrutura do vice. Uma medida provisória, posteriormente convertida na Lei estadual nº 4.990/2026, extinguiu cargos vinculados à Vice-Governadoria.
Em maio, a Justiça determinou a recomposição da estrutura administrativa do órgão, incluindo pessoal, segurança, veículos e cartão corporativo. A decisão inicial também exigia o retorno do gabinete ao Palácio Araguaia. Em junho, porém, a presidência do Tribunal de Justiça manteve a obrigação de restabelecer as condições de funcionamento da Vice-Governadoria, mas suspendeu a exigência de que o gabinete ocupasse necessariamente dependências do Palácio. A definição do endereço ficou sob responsabilidade do executivo.
Foi nesse contexto que Amélio atribuiu a retirada da Vice-Governadoria do Palácio a um desentendimento entre os atuais ocupantes dos cargos.
“Eu entendo que o que fez isso acontecer foi um desentendimento interno entre eles, institucional ou não, que não haverá entre eu e Vicentinho”, afirmou.
O vice-governador eleito disse que pretende participar das discussões administrativas e contribuir com a experiência acumulada em 28 anos de vida pública. Segundo ele, a parceria construída com Vicentinho durante a campanha deverá permanecer no exercício do mandato.
“A nossa intenção é estarmos juntos, discutindo as ideias, tentando passar para ele o meu conhecimento de vida pública, a minha experiência de 28 anos de vida pública. E foi isso que fez nos unir”, declarou.
A posição de Amélio também tem significado institucional. Como presidente da Assembleia, ele participou do Legislativo que examinou alterações na estrutura administrativa da Vice-Governadoria. Agora, eleito para o cargo, defende uma nova organização do espaço e uma relação de maior proximidade com o governador.
A eventual transferência do gabinete dependerá de providências do executivo e da legislação aplicável. Para Amélio, entretanto, a intenção política está definida. “Se a nossa união nos trouxe até aqui, eu não tenho dúvida de que essa somatória irá prevalecer durante os quatro próximos anos”, afirmou.
