Plantio da soja avança no Tocantins, mas atraso das chuvas preocupa produtores com a safra 2026/2027
31 outubro 2026 às 10h00

COMPARTILHAR
O plantio da soja no Tocantins avança em meio à irregularidade das chuvas e às incertezas sobre os efeitos do El Niño na safra 2026/2027. Embora as precipitações registradas em outubro tenham permitido acelerar os trabalhos em diferentes regiões, o atraso no início do período chuvoso e os possíveis períodos prolongados de estiagem mantêm os produtores atentos às condições de umidade do solo e ao calendário agrícola.
Mesmo diante das incertezas climáticas, a expectativa para a safra 2026/2027 é de crescimento na produção de grãos no estado. Segundo o primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em outubro, o Tocantins poderá registrar uma produção de 10,03 milhões de toneladas. A projeção representa um aumento de 2,9% em relação ao ciclo anterior, com acréscimo de aproximadamente 286 mil toneladas. Se confirmada, a estimativa marcará a primeira vez que o estado ultrapassará a marca de 10 milhões de toneladas.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Tocantins (Aprosoja TO), Thiago Facco, avalia que o comportamento das chuvas nas últimas semanas tem favorecido o andamento dos trabalhos no campo. Segundo ele, o ritmo do plantio está acima da média registrada nos últimos cinco anos.

“O plantio tem avançado bem. Eu acho que estamos crescendo até acima dos níveis médios dos últimos cinco anos. Neste final de semana, por volta dos dias 24 e 25, choveu bem praticamente em todas as regiões, e o pessoal acelerou bastante o plantio”, afirmou.
Facco acrescentou que, apesar da distribuição irregular das precipitações ao longo de outubro, algumas regiões produtoras conseguiram avançar nos trabalhos, e há agricultores próximos de concluir o plantio.
“Outubro teve chuvas não regulares e não em todas as regiões, mas muitas regiões produtoras aceleraram bastante. Já temos relatos de produtores finalizando o plantio. Então, a irregularidade das chuvas foi menor do que o produtor estava esperando em função do El Niño”, disse.
Atraso das chuvas pode afetar safrinha e escoamento
A produtora rural e presidente do Sindicato Rural de Pedro Afonso e Região, Simone da Silva Sandri Rocha, também relatou atraso no início das precipitações e no calendário de plantio. Nas propriedades em que atua, com cultivo de soja, milho e outras culturas, além da atividade pecuária, a avaliação é de que as lavouras apresentam boa germinação, embora a chuva ainda não esteja regular.
“Como já era esperado, o início das chuvas atrasou cerca de 15 dias neste ano, em comparação com os anos anteriores, em razão do El Niño. Esse atraso também postergou o início do plantio. Mas, depois que as chuvas começaram, as lavouras vêm apresentando boa germinação. A chuva ainda não está regular e o volume não é tão elevado, mas não tem faltado”, afirmou.

Segundo Simone, o atraso pode repercutir nas etapas seguintes do calendário agrícola, principalmente na colheita e no plantio da segunda safra. “O atraso pode afetar um pouco o período da colheita e o plantio da safrinha, mas, por enquanto, ainda estamos dentro da janela”, disse.
A produtora também apontou preocupação com os custos de transporte da produção. “Em relação aos fertilizantes e insumos, como os contratos de compra foram feitos antes da interdição da ponte, o impacto foi menor. Nossa maior preocupação será no escoamento da produção. Estamos negociando e buscando alternativas para reduzir os prejuízos aos produtores, porém já temos um aumento substancial no valor do frete, chegando até 40%”, declarou.
Manejo do solo e bioinsumos
Além das condições climáticas e dos custos de produção, o manejo do solo é apontado como um dos fatores que podem contribuir para o desenvolvimento das lavouras. O engenheiro agrônomo da Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Seagro), Thadeu Teixeira Júnior, recomenda que os produtores considerem as previsões climáticas e a umidade do solo antes de definir o momento do plantio e os tratos culturais.
“O maior risco está na tomada de decisão. O produtor deve estar atento à previsão climática e às condições de umidade do solo. Outro ponto importante é que o produtor que planejou bem deve correr menos risco, haja vista que desde o início do ano já se falava em um El Niño forte”, afirmou.

O agrônomo destacou que o planejamento antecipado, a aquisição de insumos e a preparação das máquinas podem ajudar o produtor a tomar decisões durante o ciclo agrícola. Ele também chamou a atenção para os chamados veranicos, períodos prolongados sem chuva que podem ocorrer durante a estação chuvosa.
“Produtor que trabalhou bem para ter boa palhada, adquiriu insumos com antecedência e preparou maquinário certamente está bem preparado para tomar a decisão certa sobre o momento de plantar e os tratos culturais. Vale destacar que um dos problemas do El Niño, além do atraso das chuvas, devem ser os chamados veranicos, períodos longos sem chuva. Daí a importância de se ter palhada e estar preparado para o manejo correto de suas lavouras”, disse.
Teixeira Júnior afirmou que a expectativa da Seagro também é de crescimento da área plantada e da produção no estado. “O Tocantins vem, ano a ano, aumentando a área plantada, principalmente transformando as áreas de pastagem que estão em baixa capacidade de produção em área de cultivo. Assim, conseguimos avançar na expansão da soja, que é nossa principal commodity, e também do milho segunda safra”, declarou.
O agrônomo acrescentou que a decisão de cultivar milho na segunda safra também depende dos preços esperados para o produto. “Outro fator de grande importância será o preço do milho no mercado futuro, pois o cultivo exige mais investimento se comparado a culturas como sorgo, feijão-mungo e gergelim, interessantes alternativas frente aos elevados custos de produção do milho segunda safra”, afirmou.
Bioinsumos podem contribuir para a eficiência produtiva
O uso de tecnologias e insumos sustentáveis também integra as estratégias de manejo das lavouras. O professor de Agronomia da Afya Araguaína, José André Júnior, explicou que os bioinsumos podem contribuir para o desenvolvimento das plantas ao favorecer a disponibilidade e a absorção de nutrientes.
Segundo o professor, esses produtos envolvem organismos que vivem no solo e estabelecem relações com as raízes das plantas. Na soja, alguns desses microrganismos participam de processos relacionados à absorção de fósforo e à fixação do nitrogênio atmosférico.

“Quando nos referimos a bioinsumos, estamos basicamente nos referindo à camada viva do solo, que é aquela camada entre 8 e, no máximo, 15 centímetros, onde sobrevivem microrganismos, como bactérias, fungos e protozoários, que liberam nutrientes para as plantas, para a região das raízes”, explicou.
André Júnior citou os bradirrizóbios e os fungos associados às micorrizas como exemplos de organismos utilizados no manejo agrícola. De acordo com ele, esses microrganismos podem ampliar a eficiência de absorção de nutrientes pelas plantas.
“Bioinsumos dos gêneros, por exemplo, dos bradirrizóbios, que, particularmente na soja, nós temos duas espécies. Também do complexo micorriza, que atua como se aumentasse a área da raiz. Na verdade, eles se associam à raiz e isso contribui para uma melhor eficiência de absorção do fósforo, por exemplo. E, no caso dos rizóbios, dos bradirrizóbios, para a absorção do nitrogênio da atmosfera”, afirmou.
O professor destacou que a associação entre os microrganismos e as raízes permite que o nitrogênio presente na atmosfera seja fixado e aproveitado pela planta, contribuindo para a eficiência produtiva.
“Hoje nós temos em torno de 70% a 78% de nitrogênio na atmosfera. Então, o que esses bradirrizóbios fazem? Uma associação na raiz da planta, fazendo com que esse nitrogênio que está na atmosfera seja fixado na região radicular. Esses bioinsumos servem exatamente para melhorar a eficiência produtiva das plantas”, concluiu.
Estado mantém expectativa de crescimento
Apesar das incertezas relacionadas ao clima, a Seagro mantém a expectativa de ampliação da produção agrícola no Tocantins. Para Thadeu Teixeira Júnior, o avanço da atividade também depende da adoção de práticas de conservação do solo e do uso de tecnologias no campo.
“A Seagro há muitos anos já vem incentivando a utilização de novas tecnologias e o uso de insumos sustentáveis no cultivo. Vale destacar que o produtor de hoje tem a consciência de que, se não trabalhar palhada e plantio direto, não alcançará bons rendimentos, e o uso de bioinsumos vem contribuindo cada vez mais para a redução dos impactos ambientais dos cultivos agrícolas”, afirmou.
O agrônomo acrescentou que a secretaria promove atividades voltadas à orientação dos produtores sobre tecnologias, condições climáticas, manejo e conservação do solo.
“A Seagro vem promovendo vários eventos a fim de alertar os produtores ao uso de novas tecnologias, sobre as condições climáticas, manejo e conservação do solo. Tudo isso com o intuito de conscientizar o produtor tocantinense de que, se produzir de forma sustentável, a chance de alcançar melhores resultados é maior”, disse.
Para o representante da Seagro, o crescimento da produção rural também tem reflexos na economia estadual. “Para o governo do estado, o crescimento do produtor rural reflete diretamente no desenvolvimento do Tocantins”, concluiu.
