Apenas uma das seis pessoas mortas na Chacina de Miracema teria envolvimento na morte de sargento, diz Polícia Civil
08 maio 2026 às 16h17

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A Polícia Civil do Tocantins afirmou, nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, em coletiva de imprensa, que apenas uma das seis pessoas mortas durante os episódios conhecidos como Chacina de Miracema teria envolvimento com a morte do 2º sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa, registrada em fevereiro de 2022.
A declaração foi dada durante coletiva de imprensa realizada após a deflagração da operação que cumpriu 22 mandados de prisão preventiva contra policiais militares investigados pelos crimes. Segundo a corporação, um 23º mandado ainda deverá ser cumprido até o fim de semana.
De acordo com o inquérito conduzido pela Delegacia Estadual de Repressão ao Crime Organizado (Dracco), apenas Valbiano Alves Marinho possuía antecedentes criminais e era apontado como suspeito de efetuar os disparos que mataram o sargento Anamon, na noite de 4 de fevereiro de 2022.
As demais vítimas — Manoel Soares da Silva, Edson Marinho da Silva (esses pai e irmão de Valbiano), Aprígio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho — não tinham relação com o homicídio do policial militar, conforme apontaram as investigações.
“Todas as demais vítimas não tinham antecedentes criminais e não possuíam ligação com o homicídio do sargento Anamon”, afirmou o delegado da Dracco, Afonso Lyra.
As investigações foram conduzidas por uma força-tarefa da Polícia Civil, com acompanhamento de dez promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A Corregedoria da Polícia Militar acompanhou o cumprimento das medidas judiciais autorizadas por um colegiado formado por três juízes.
Morte do sargento deu início à sequência de crimes
Segundo a investigação, os fatos começaram após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, ocorrida no setor Saltinho, em Miracema do Tocantins.
Conforme os levantamentos, policiais militares realizavam uma ação de coleta de informações em uma área considerada crítica quando foram alvo de disparos de arma de fogo.
A Polícia Civil aponta que Valbiano Alves Marinho seria o autor dos disparos contra o sargento. Horas depois, ele foi morto em frente à própria residência.
Segundo o inquérito, Valbiano já estava rendido e desarmado quando foi executado.
“Conseguimos comprovar que ele estava sendo custodiado por equipes no momento em que foi executado”, declarou Afonso Lyra durante a coletiva.
Os policiais responsáveis pela custódia foram indiciados por homicídio qualificado. O corpo de Valbiano chegou a ser exumado para realização de novas perícias.
Delegacia foi invadida e familiares executados
Na madrugada de 5 de fevereiro de 2022, um grupo encapuzado invadiu a Delegacia da Polícia Civil de Miracema e matou Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano.
Conforme a investigação, 16 policiais militares teriam participado da ação.
Três servidores da Secretaria da Segurança Pública foram rendidos durante a invasão, incluindo dois policiais civis.
“A delegacia é um ambiente em que o cidadão precisa se sentir seguro. A invasão representou uma ruptura momentânea do Estado de Direito”, afirmou o delegado.
Segundo a Polícia Civil, há provas técnicas que sustentam a participação dos investigados nos assassinatos ocorridos dentro da unidade policial.
Jovens foram sequestrados, torturados e executados
Ainda na mesma madrugada, Aprígio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho foram mortos em uma área do loteamento Jardim Buritis.
A investigação aponta que os três jovens estavam em uma festa em um posto de combustíveis no centro de Miracema e não tinham qualquer ligação com a morte do sargento ou com Valbiano.
Segundo a Polícia Civil, eles foram sequestrados, submetidos a agressões e executados. Um quarto jovem sobreviveu ao ataque.
“Esses jovens foram abordados, submetidos a agressões físicas e verbais, levados para diversos pontos da cidade e depois executados”, relatou Afonso Lyra.
O sobrevivente conseguiu fugir mesmo baleado e prestou depoimento ainda no hospital de Miracema. Conforme os investigadores, o relato foi decisivo para o avanço das apurações.
Investigação aponta destruição de provas
Durante a coletiva, a Polícia Civil revelou que HDs de sistemas de monitoramento próximos ao local onde os jovens estavam foram retirados e destruídos após os crimes.
“Foi simulado o furto desses HDs de dentro de uma viatura da Polícia Militar”, afirmou o delegado da Dracco.
Segundo ele, a supressão de provas foi um dos principais obstáculos enfrentados pela força-tarefa ao longo dos mais de quatro anos de investigação.
Ministério Público já apresentou denúncia
A Polícia Civil informou que o relatório final do inquérito foi concluído em novembro de 2025 e encaminhado ao Ministério Público do Tocantins e ao Poder Judiciário.
O Ministério Público já ofereceu denúncia à Justiça, mas os investigadores evitaram comentar detalhes sobre eventual recebimento da acusação.
Durante a coletiva, os delegados ressaltaram que os investigados terão direito ao contraditório e à ampla defesa.
“Hoje encerramos a fase investigativa. A partir de agora, cabe ao Ministério Público e ao Poder Judiciário conduzirem os próximos passos da persecução penal”, afirmou o delegado-geral Claudemir Luiz Ferreira.
Polícia Civil diz que investigação não atingiu a instituição PM
Os delegados reforçaram que a investigação não teve como alvo a Polícia Militar enquanto instituição, mas policiais suspeitos de desvios individuais.
“Não investigamos a instituição Polícia Militar. Investigamos fatos praticados por pessoas”, afirmou Claudemir Luiz Ferreira.
Questionado sobre eventual participação de oficiais superiores, Afonso Lyra afirmou que não foram encontrados elementos que apontassem envolvimento da estrutura de comando da corporação.
“Se tivessem sido identificados, estariam sendo presos hoje”, declarou.
A Polícia Civil confirmou ainda que veículos oficiais foram utilizados durante as ações investigadas e afirmou que alguns investigados possuem participação comprovada em mais de um dos episódios apurados.
As investigações seguem sob sigilo parcial e novos detalhes poderão ser divulgados após eventual levantamento do sigilo judicial.
Confira o que diz a PM
A Polícia Militar do Tocantins (PMTO) informou nesta sexta-feira, 8, que acompanha por meio da Corregedoria-Geral da corporação a operação da Polícia Civil que cumpriu mandados de prisão preventiva e afastamento de função pública contra policiais militares investigados por participação na chamada Chacina de Miracema, ocorrida em fevereiro de 2022.
Em nota encaminhada à imprensa, a PMTO afirmou que tomou conhecimento da decisão judicial relacionada às medidas cautelares determinadas no âmbito da investigação conduzida pela Polícia Civil do Tocantins e destacou que presta apoio institucional às autoridades responsáveis pelo caso e ao cumprimento das determinações judiciais.
A corporação também declarou que não compactua com desvios de conduta praticados por integrantes da instituição e reafirmou compromisso com a legalidade, a ética, a disciplina e a transparência institucional.
Segundo a Polícia Militar, os fatos seguem sob apuração pelos órgãos competentes e os investigados terão assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, conforme previsto na legislação.
