A advogada Laura Gondim, responsável pela defesa de Kathellen Moreira da Silva, investigada pela morte de Gustavo Veloso, de 3 anos, em Palmas, afirmou que tem sido alvo de ameaças, xingamentos e ataques nas redes sociais em razão de sua atuação no caso. Após a repercussão de uma nota pública em que a defesa contestou interpretações sobre o depoimento de Kathellen à Polícia Civil, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Tocantins (OAB-TO) divulgou uma manifestação de solidariedade à profissional e repudiou a hostilização de advogados pelo exercício da profissão.

Em pronunciamento publicado nas redes sociais, Laura afirmou que os ataques começaram após a divulgação dos esclarecimentos sobre o depoimento da cliente. A advogada também criticou a tentativa de associar sua atuação profissional às acusações contra Kathellen e defendeu o direito de exercer a advocacia criminal sem sofrer intimidações.

“É inaceitável a forma em que as pessoas criminalizam a profissão, a minha própria atuação, inclusive, como se atuar nesse caso me fizesse ser menos profissional ou me fizesse ser menos competente”, declarou.

Laura ressaltou que respeita a família de Gustavo e lamentou a morte da criança, mas argumentou que questionamentos sobre a conduta de sua cliente devem ser esclarecidos no processo judicial, e não por meio de julgamentos nas redes sociais. Segundo ela, as medidas cabíveis serão adotadas para identificar e responsabilizar os autores de ofensas e ameaças. A advogada informou que a OAB-TO já foi comunicada.

“Você pode sim discordar de mim, você pode sim ter as suas presunções, as suas análises subjetivas com que postam em rede social, os trechos de depoimentos, mas isso não te dá o direito de me humilhar, de xingar, de me atacar”, afirmou.

Defesa contesta interpretação de depoimento

A manifestação de Laura ocorreu após a divulgação de novos trechos dos depoimentos de Igor Veloso, pai de Gustavo, e Kathellen, madrasta da criança. Foram apresentados relatos sobre as agressões admitidas pelo pai, os acontecimentos na residência e o comportamento dos envolvidos nas horas seguintes à morte do menino.

Na nota pública divulgada nesta quinta-feira, 29, a defesa de Kathellen afirmou que os trechos do depoimento da investigada precisam ser compreendidos em seu contexto integral. Segundo a advogada, a cliente declarou que não presenciou nem ouviu as agressões contra Gustavo porque estava no quarto da filha, então com cinco meses, amamentando-a.

A defesa sustenta que as agressões ocorreram na área externa da residência e que o próprio Igor teria afirmado que Kathellen não participou dos fatos e não poderia ter ouvido os golpes nas circunstâncias relatadas.

Ainda conforme a nota, Kathellen teria ouvido um barulho vindo do cômodo onde Igor estava com Gustavo, mas, ao tentar entrar no quarto, foi impedida pelo companheiro, que teria reagido com xingamentos e ameaças. A advogada também afirma que sua cliente não presenciou agressões contra a criança nem ouviu sons que permitissem identificar uma situação de violência.

A defesa acrescentou que Kathellen só soube da morte do menino na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, quando Igor teria apresentado a versão de que Gustavo havia se afogado.

No documento, Laura afirma que a cliente está privada de liberdade há mais de 60 dias e sem receber a visita da filha bebê. A defesa sustenta que outras provas serão apresentadas durante a ação penal e manifesta confiança de que a inocência de Kathellen será demonstrada.

Mãe de Gustavo questiona versão da defesa

A divulgação da nota também provocou reação de Sabrina Feitosa da Silva, mãe de Gustavo. Em publicações nas redes sociais, ela contestou a versão apresentada pela defesa de Kathellen e questionou a alegação de que a madrasta não teria conhecimento das agressões.

Sabrina afirmou que o filho mais velho de Igor teria ouvido as agressões e pedido ajuda a Kathellen. Também declarou que a madrasta teria conhecimento de episódios anteriores de violência contra Gustavo e que, em outras ocasiões, teria negado que Igor agredisse a criança.

Em outra publicação, a mãe questionou a atuação de Kathellen após a morte do menino e fez acusações relacionadas à limpeza da cena do crime e ao descarte de um telefone celular.

A advogada Stella Bueno, que representa Sabrina, também se manifestou sobre os ataques contra Laura. Apesar de atuar em lados opostos do processo, Stella declarou solidariedade à colega e ressaltou que a divergência entre as estratégias de defesa não justifica ofensas ou ameaças.

“Defender o direito de defesa não significa concordar com os fatos imputados a quem é defendido”, escreveu.

OAB-TO repudia ataques à advocacia

Na nota de solidariedade, a OAB-TO afirmou que a atuação de advogados não pode ser confundida com os fatos atribuídos aos clientes que representam. A entidade repudiou tentativas de intimidação e criminalização da advocacia em razão do exercício profissional.

A Ordem também citou o artigo 133 da Constituição Federal, que estabelece a indispensabilidade do advogado à administração da Justiça, e reafirmou o compromisso institucional com a proteção das prerrogativas profissionais.

“Defender o direito de defesa não é defender o crime. É defender a Constituição”, declarou a entidade.

Investigação e processo

Gustavo Veloso morreu no dia 2 de agosto de 2026, um domingo, em Palmas. Conforme os elementos apresentados na investigação, o laudo do Instituto Médico Legal apontou hemorragia interna provocada por lesões graves em diferentes partes do corpo, além de hematomas na cabeça e no intestino e laceração anal. Os exames também identificaram sinais de violência sexual.

Em interrogatório, Igor Veloso admitiu ter agredido o filho, relatando que o episódio começou após encontrar a criança na piscina da residência. Ele reconheceu ter sacudido o menino, provocado uma batida da cabeça contra a parede e desferido chutes e pisões na região das costas e da barriga. Negou, entretanto, a prática de violência sexual.

A investigação também apurou a conduta de Kathellen e as circunstâncias posteriores às agressões. Os dois foram indiciados no dia 28 de setembro e, posteriormente, tornaram-se réus após o recebimento da denúncia pelo Judiciário.

Igor responde por vicaricídio, estupro de vulnerável, tortura e fraude processual. Kathellen responde por vicaricídio, sob acusação de omissão diante das agressões contra o enteado, e fraude processual.