As cores da disputa: uma análise das marcas e estratégias visuais das candidaturas ao Governo do Tocantins
21 agosto 2026 às 12h03

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Felipe Leite1
Antes mesmo de uma proposta ser lida ou de um discurso ser ouvido, uma campanha eleitoral já está comunicando. Cores, fotografias, tipografias, símbolos e formas de organizar a informação ajudam a construir reconhecimento e diferenciar uma candidatura em um ambiente de intensa disputa pela atenção.
A análise a seguir observa exclusivamente a comunicação visual das candidaturas ao Governo do Tocantins nas eleições de 2026, considerando os materiais disponibilizados pelas campanhas e publicados em seus canais de comunicação.
O objetivo não é avaliar propostas, trajetórias políticas ou desempenho eleitoral, tampouco estabelecer qual candidatura possui a “melhor” identidade visual. A proposta é compreender, sob a perspectiva do design, quais recursos cada campanha utiliza para construir reconhecimento e organizar sua presença visual.
Para permitir uma comparação equilibrada, foram considerados os mesmos aspectos em todas as candidaturas: assinatura visual, cores e relação com a identidade partidária, tipografia, elementos gráficos, aplicações e consistência do sistema visual.
É importante considerar ainda que as campanhas apresentam diferentes volumes e níveis de desenvolvimento de material gráfico. Estrutura de equipe, orçamento, contratação de serviços especializados, estratégia de comunicação e destinação dos recursos podem influenciar diretamente a quantidade e a complexidade das peças produzidas.
Por essa razão, uma campanha com maior variedade de aplicações não deve ser considerada, apenas por isso, visualmente superior a outra que trabalha com recursos mais simples. Nos casos em que o material disponível não permite identificar um sistema visual mais amplo, a análise se concentra na assinatura e nos elementos efetivamente observáveis.

Ataídes de Oliveira
Assinatura visual
A identidade apresentada para Ataídes trabalha com uma solução relativamente direta, concentrando grande parte de sua força no próprio nome e no número eleitoral.
A assinatura utiliza o nome Ataídes em destaque, acompanhado do número 30, criando uma composição compacta e de leitura rápida. Entre os materiais analisados, a marca ocupa papel central na identificação da candidatura, sem depender de um repertório muito amplo de elementos complementares.
Cores e relação partidária
A paleta observada utiliza principalmente laranja, azul e branco. O laranja possui forte presença na assinatura, enquanto o azul funciona como elemento de contraste.
A relação cromática com o partido aparece de maneira relativamente direta, permitindo que a candidatura mantenha reconhecimento partidário ao mesmo tempo em que organiza uma assinatura própria.
Tipografia e elementos gráficos
A construção é predominantemente tipográfica, utilizando letras de grande peso visual e uma composição que favorece a leitura do nome e do número.
Nos materiais disponibilizados para esta análise, não é possível identificar com a mesma clareza encontrada em outras candidaturas um conjunto extenso de patterns, símbolos ou elementos proprietários. Nesse caso, nome, número e combinação cromática assumem a maior responsabilidade pelo reconhecimento visual.
Aplicações e consistência
O conjunto disponível sugere uma estratégia visual mais concentrada na assinatura principal. Isso não permite concluir que a campanha não possua outras aplicações ou um sistema mais amplo, apenas que esses elementos não aparecem de maneira suficiente no material analisado.
Principais códigos de reconhecimento: nome Ataídes + número 30 + laranja + azul.

Du Pereira
Assinatura visual
A identidade de Du Pereira utiliza uma construção compacta, com destaque para o nome do candidato e para o número 27. A assinatura trabalha esses elementos de maneira integrada, permitindo que o número eleitoral também funcione como um dos principais pontos de reconhecimento da candidatura.
Cores e relação partidária
A campanha utiliza predominantemente azul e amarelo, mantendo uma relação direta com a identidade visual da Democracia Cristã (DC), partido identificado pelo número 27.
Diferentemente de campanhas que ampliam ou modificam significativamente a paleta de suas legendas, a identidade de Du Pereira preserva os principais códigos cromáticos partidários. Dessa forma, marca do candidato e identidade do partido permanecem visualmente próximas, reforçando também a associação entre candidatura, legenda e número eleitoral.
Tipografia e elementos gráficos
A tipografia apresenta peso elevado e boa presença, especialmente na construção do nome e do número. A composição privilegia leitura direta e contraste, sem depender de um repertório muito amplo de elementos gráficos complementares.
Nos materiais analisados, a identificação se concentra principalmente na combinação entre assinatura, número e cores partidárias, mais do que na utilização de patterns, símbolos ou outros elementos proprietários.
Entre os elementos de apoio aparecem estrelas, formas curvas, faixas, recortes fotográficos e grandes áreas de cor. São recursos relativamente simples, mas repetidos de maneira suficiente para estabelecer continuidade entre as peças.
Aplicações e consistência
O material disponível para análise é mais limitado que o de algumas das demais candidaturas, o que não permite avaliar com a mesma profundidade a existência de um sistema visual mais amplo.
Ainda assim, há uma relação consistente entre os elementos observados: azul e amarelo, nome Du Pereira e número 27 formam o núcleo da identificação visual.
Principais códigos de reconhecimento: nome Du Pereira + número 27 + azul + amarelo + forte alinhamento cromático com a identidade partidária.

Laurez Moreira
Assinatura visual
A comunicação de Laurez Moreira apresenta um sistema mais amplo. Sua assinatura dá grande destaque ao nome Laurez e ao número 55, que aparece de forma recorrente nas diferentes peças.
As mensagens observadas também estabelecem relação frequente entre o candidato, sua trajetória e o conhecimento do Estado, fazendo com que elementos territoriais apareçam como parte importante da comunicação.
Cores e relação partidária
Predominam azul, verde, amarelo e branco. O azul normalmente ocupa as maiores superfícies, enquanto verde e amarelo aparecem como cores de destaque.
A campanha mantém proximidade com o repertório cromático associado ao partido, mas organiza essas cores dentro de uma linguagem própria. A combinação também se aproxima das cores nacionais, associação reforçada pela presença de elementos ligados ao território tocantinense.
Tipografia e elementos gráficos
As chamadas utilizam predominantemente tipos pesados e condensados, acompanhados, em algumas peças, por tipografias de caráter mais informal.
Mapas e contornos do Tocantins, formas solares, setas, curvas ascendentes e grandes blocos cromáticos ampliam o repertório visual.
O 55 é um dos elementos mais constantes e funciona quase como um segundo identificador da candidatura ao lado do próprio nome.
Aplicações e consistência
A campanha apresenta variedade considerável de formatos, indo de peças informativas a vídeos e conteúdos mais adaptados às redes sociais.
Essa diversidade amplia as possibilidades de comunicação, embora exija atenção à repetição dos principais códigos gráficos para que diferentes tratamentos continuem pertencendo claramente ao mesmo sistema.
Principais códigos de reconhecimento: nome Laurez + número 55 + azul + verde + amarelo + referências ao Tocantins.

Prof. Witer Naves
Assinatura visual
A identidade de Prof. Witer Naves segue uma direção bastante diferente das demais candidaturas analisadas.
A assinatura apresenta caráter mais informal e utiliza o próprio tratamento tipográfico como elemento de diferenciação. Nome e número permanecem como componentes centrais, mas aparecem dentro de uma composição visual mais expressiva.
Cores e relação partidária
O material apresenta uma paleta diversificada, com presença de roxo, amarelo, laranja e tonalidades de verde e azul.
A relação com a identidade partidária existe, mas a campanha não se limita a reproduzir uma paleta institucional. O resultado é uma identidade eleitoral com maior autonomia cromática.
Tipografia e elementos gráficos
A tipografia é um dos componentes mais característicos da assinatura. Em vez de depender exclusivamente de uma fonte geométrica ou institucional, a construção utiliza formas mais informais e expressivas.
As aplicações observadas ampliam esse repertório com blocos de cor, ilustrações e outros recursos gráficos.
Aplicações e consistência
Os materiais indicam uma linguagem visual mais livre e experimental. Nesse tipo de sistema, a consistência não depende necessariamente de repetir exatamente a mesma composição, mas de preservar alguns códigos capazes de conectar peças diferentes.
No caso analisado, paleta, assinatura e número cumprem boa parte dessa função.
Principais códigos de reconhecimento: Prof. Witer + número 50 + roxo + amarelo + tipografia expressiva.
Professora Dorinha
Assinatura visual
Na campanha de Professora Dorinha, o próprio nome da candidata ocupa posição central no sistema.
“Dorinha” funciona praticamente como uma marca autônoma, enquanto “Professora” preserva uma referência direta à forma como a candidata é publicamente identificada.
A assinatura incorpora ainda um coração, transformado em elemento recorrente da comunicação. Junto ao número 44, ele amplia o conjunto de códigos disponíveis para identificar a candidatura.
Cores e relação partidária
Entre os materiais analisados, esta é uma das campanhas que trabalha com maior variedade cromática.
Azul, amarelo, verde e branco formam parte da base visual, enquanto o rosa/magenta assume papel importante na diferenciação da candidatura.
Azul e amarelo estabelecem conexão com a identidade partidária, mas a campanha amplia significativamente esse repertório. O rosa aparece na marca, em contornos, fundos e materiais utilizados por apoiadores, tornando-se um elemento recorrente da comunicação.
Mais importante do que atribuir um significado psicológico à cor é observar sua função objetiva dentro do sistema: criar diferenciação e facilitar reconhecimento.
Tipografia e elementos gráficos
A campanha combina fontes sem serifa, condensadas e de grande peso com elementos tipográficos mais gestuais e informais.
Blocos coloridos, molduras arredondadas, patterns, formas orgânicas e contornos permitem grande variedade de composições.
O coração merece atenção particular porque ultrapassa a função decorativa: integrado ao nome e repetido em materiais físicos e digitais, passa a funcionar como um dos ativos visuais da candidatura.
Aplicações e consistência
A comunicação transita entre peças mais institucionais e conteúdos fortemente adaptados à linguagem das plataformas digitais. A marca oferece flexibilidade, mas também torna particularmente importante preservar elementos constantes entre as aplicações.
Principais códigos de reconhecimento: nome Dorinha + coração + número 44 + azul + amarelo + rosa.

Subtenente Luiz Carlos
Assinatura visual
A identidade de Subtenente Luiz Carlos apresenta uma construção de forte presença gráfica, com destaque para o nome do candidato e para o número 35.
O número recebe tratamento volumétrico, com efeitos de luz, profundidade e acabamento tridimensional, assumindo papel importante nas aplicações e funcionando como um dos principais elementos de identificação da candidatura.
Cores e relação partidária
Nos materiais analisados predominam azul, branco, verde e tonalidades de amarelo e dourado.
A combinação estabelece proximidade com um repertório cromático associado aos símbolos nacionais e permite também a incorporação de referências visuais ao Tocantins.
Mais do que atribuir significados específicos às cores, é possível observar sua função dentro do sistema: azul e verde estruturam grande parte das composições, enquanto amarelo e dourado são utilizados para contraste, destaque e valorização de determinados elementos.
Tipografia e elementos gráficos
A campanha utiliza tipografias de peso elevado, acompanhadas por contornos, volumes, brilhos, sombras e efeitos de profundidade. O resultado se distancia de uma linguagem gráfica plana e aproxima a identidade de uma estética mais ilustrativa e tridimensional.
Algumas aplicações apresentam ainda texturas, iluminação dramática, elementos tridimensionais e composições de caráter muito realista, recursos que se tornaram particularmente recorrentes na produção visual contemporânea com ferramentas de geração e tratamento de imagens por inteligência artificial.
A presença dessas características, entretanto, não permite determinar apenas pela observação das peças qual tecnologia foi utilizada em sua produção. O que pode ser analisado objetivamente é a adoção dessa linguagem estética, independentemente de ter sido produzida por IA, manipulação digital tradicional ou combinação de diferentes técnicas.
Aplicações e consistência
Os materiais disponíveis apresentam uma preferência por composições de grande impacto visual, nas quais fotografia, tipografia e elementos tridimensionais dividem protagonismo.
Apesar da variedade de efeitos empregados, a repetição do 35, da paleta predominantemente azul e dourada e dos tratamentos de volume cria pontos recorrentes de identificação entre as peças. Nesse sentido, os efeitos tridimensionais não aparecem apenas como acabamento: tornam-se parte da própria linguagem visual da candidatura.
Principais códigos de reconhecimento: Subtenente Luiz Carlos + número 35 + azul + amarelo/dourado + volumetria + estética tridimensional + referências territoriais.

Vicentinho Júnior
Assinatura visual
A identidade de Vicentinho Júnior apresenta um dos sistemas gráficos mais extensos entre os materiais analisados.
O conceito encontra correspondência direta em diferentes elementos da linguagem visual. Setas, formas direcionais, círculos, sobreposições e padrões introduzem movimento nas composições.
O próprio número 45 recebe tratamento gráfico expressivo e passa a funcionar também como elemento visual independente.
Cores e relação partidária
A campanha utiliza principalmente amarelo, azul escuro, ciano e magenta, com alto nível de saturação e contraste.
Azul e amarelo estabelecem a conexão mais direta com o universo partidário, enquanto ciano e principalmente magenta ampliam significativamente a paleta.
Essa expansão permite à candidatura construir um universo cromático próprio sem abandonar completamente os códigos de identificação já associados à legenda.
Tipografia e elementos gráficos
A tipografia é pesada, expressiva e frequentemente utilizada em grandes dimensões.
Patterns construídos com as iniciais VJ, setas, círculos, formas geométricas e tratamentos tridimensionais ampliam o repertório de elementos disponíveis.
A campanha também utiliza recursos provenientes da linguagem digital, como emojis e personagens tridimensionais, ao lado de fotografias tradicionais.
Aplicações e consistência
A quantidade de recursos permite grande diversidade de peças e formatos.
Ao mesmo tempo, quanto maior o repertório, maior a necessidade de hierarquia. Nas aplicações com muita informação, cores, fotografia, padrões e tipografia disputam simultaneamente a atenção.
Ainda assim, a repetição da paleta, das iniciais, do número e das formas direcionais cria elementos recorrentes de identificação.
Principais códigos de reconhecimento: Vicentinho Júnior + número 45 + amarelo + azul + ciano + magenta + setas e elementos de movimento.
Sete candidaturas, diferentes estratégias de reconhecimento
A comparação das sete candidaturas evidencia que uma identidade eleitoral não depende necessariamente da existência de um sistema gráfico complexo.
Algumas campanhas concentram o reconhecimento principalmente em nome, número e cores. Outras desenvolvem repertórios mais extensos, incorporando símbolos, padrões, formas, slogans e diferentes tratamentos para fotografia e conteúdo digital.
Também varia a relação entre a identidade da candidatura e a identidade de seu partido. Em alguns casos, as cores partidárias permanecem claramente reconhecíveis. Em outros, servem apenas como ponto de partida para a construção de uma paleta própria.
Essa diferença não deve ser interpretada isoladamente como indicador de qualidade. Campanhas possuem estruturas, recursos financeiros, equipes e estratégias distintas, fatores que também influenciam quanto pode ser investido na produção e manutenção de um sistema de comunicação visual.
Do ponto de vista do design, o elemento comum às sete candidaturas é o mesmo problema: transformar nome, número e mensagem política em códigos capazes de ser rapidamente identificados pelo eleitor.
Em uma eleição marcada pela circulação intensa de vídeos, fotografias, cards e conteúdos em redes sociais, a identidade visual deixa de estar restrita ao logotipo. Ela passa a funcionar como um sistema de reconhecimento.
Nesse contexto, cores, números, tipografias, símbolos e formas não determinam a escolha do eleitor, mas ajudam a responder a uma questão anterior e fundamental para qualquer comunicação: de quem é esta mensagem?
- Felipe Leite é designer e há cerca de 20 anos desenvolve projetos de identidade visual, branding e experiências digitais para instituições, empresas e profissionais. ↩︎
