Caio Brum: “A lógica manicomial ainda opera na nossa cultura, na sociedade e na forma como tratamos a loucura”
17 maio 2026 às 08h00

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Nesta semana, o Brasil celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, movimento que marcou o fechamento dos manicômios e a defesa do cuidado em liberdade para pessoas em sofrimento psíquico. Mais de três décadas após o avanço da reforma psiquiátrica brasileira, especialistas alertam que, embora os grandes hospitais psiquiátricos tenham perdido espaço, a lógica manicomial ainda persiste na sociedade, influenciando formas de tratamento, discursos e relações sociais.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o psicanalista e psicólogo docente da Ulbra Palmas, Caio Brum, especialista em Psicologia Analítica em Contexto Multiprofissional pela Unyleya, afirma que essa lógica continua operando na cultura por meio da medicalização excessiva do sofrimento, do uso desregrado de medicamentos, do estigma contra pessoas em sofrimento mental e da ascensão de comunidades terapêuticas sem fiscalização adequada.
Ao longo da conversa, Caio também aborda a expansão dos diagnósticos psiquiátricos no cotidiano, os desafios do cuidado em liberdade, a importância da convivência com a diferença e a necessidade de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no Tocantins e no Brasil.
O que representa o Dia Nacional da Luta Antimanicomial e qual a importância dessa data atualmente?
O dia 18 de maio representa a continuidade da luta antimanicomial, mesmo após o fechamento dos manicômios. Isso porque, embora os grandes hospitais psiquiátricos e as grades tenham sido abandonados, a lógica manicomial ainda opera na nossa cultura, na sociedade e na forma como tratamos a loucura e as pessoas acometidas por sofrimento psíquico.
E quais avanços observamos nessa luta?
O principal deles foi justamente o fechamento dos hospícios e hospitais psiquiátricos, encerrando uma lógica de cuidado baseada no aprisionamento e no cerceamento da liberdade. Em substituição a isso, passou-se a defender o cuidado em liberdade, especialmente a partir da criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que organiza dispositivos de saúde mental voltados para o tratamento em comunidade. A proposta é pensar a terapêutica a partir da integração do sujeito em seu meio social, e não do isolamento.

Apesar da reforma psiquiátrica, práticas manicomiais ainda persistem na sociedade e nos serviços de saúde. Quando falamos em tratamento, falamos tanto das leis e da estrutura institucional quanto da atuação cotidiana dos profissionais. Embora a institucionalidade esteja alinhada a uma lógica desinstitucionalizada, ainda enfrentamos o desafio da permanência de uma visão hospitalocêntrica e manicomial.
Isso aparece, por exemplo, em práticas violentas usadas para silenciar o sujeito, em insultos e até no uso excessivo de medicamentos como forma de controle. Às vezes, administram-se dosagens acima do necessário porque isso deixa a pessoa mais “contida”.
Também vemos a ascensão das comunidades terapêuticas, muitas vezes instaladas longe dos centros urbanos e sem fiscalização adequada. Há anos surgem denúncias, inclusive no Tocantins, envolvendo aprisionamento e trabalho forçado nesses espaços. Ou seja, a lógica manicomial ainda persiste. Por isso, a luta antimanicomial continua necessária: para celebrar o fechamento dos manicômios, mas também para enfrentar permanentemente essa mentalidade de que a pessoa em sofrimento deve ser afastada da sociedade.
Frequentemente, o sofrimento psíquico ainda é visto como algo que precisa ser isolado ou silenciado. De tempos em tempos, vemos reaparecer essa lógica hospitalocêntrica, que tenta calar aquilo que o sujeito manifesta como desencaixe em relação à cultura e à sociedade.
Você falava também sobre a medicalização excessiva como um dos pontos criticados pela luta antimanicomial. Como isso se relaciona com o debate?
Esse movimento de medicalização excessiva se fortalece principalmente a partir dos anos 1990, ganha força nos anos 2000 e hoje alcança um ápice. Existe uma lógica cultural crescente segundo a qual todo sofrimento precisa ser medicado. O sofrimento passa a ser encarado como algo que deve ser imediatamente silenciado.
Essa questão não diz respeito apenas aos profissionais da saúde mental. Ela atravessa toda a sociedade. Vivemos em uma cultura que tende a tratar a dor e a angústia como algo intolerável, que precisa ser amortecido rapidamente.
Com isso, há um empobrecimento de outras formas de cuidado que sempre fizeram parte da experiência humana: a arte, a convivência comunitária, a espiritualidade, o esporte e outras formas coletivas de elaboração do sofrimento. Vivemos um momento em que tentamos não sofrer por meio da medicação, negando que a angústia faz parte da condição humana.
Mas e quando o sofrimento leva alguém a querer morrer?
Aí entramos na questão da intensidade do sofrimento. Isso não significa defender que tudo deve ser enfrentado sem medicamentos. Pelo contrário: os psicofármacos são um avanço científico importante e, muitas vezes, fundamentais. Eles ajudam a atenuar experiências extremamente difíceis.
A crítica não é ao medicamento em si, mas à exclusividade dele como forma de tratamento. Em casos graves, o medicamento pode até assumir um papel central, mas não deve ser a única resposta. O cuidado em saúde mental precisa envolver diferentes abordagens atuando em conjunto. Os medicamentos são aliados importantes, mas não resolvem tudo sozinhos.
Vemos um crescimento estratosférico dos diagnósticos. Como analisar esse cenário sem deslegitimar quem realmente precisa de cuidado?
Acho que a resposta passa pela mesma discussão sobre os medicamentos. O problema não é o diagnóstico em si. O diagnóstico também é um instrumento extremamente importante para a prática dos profissionais da saúde mental, como psicólogos e psiquiatras.
O que vemos nas últimas décadas é um acesso cada vez maior da cultura em geral a essas nomenclaturas psicodiagnósticas. Antes, os diagnósticos eram ferramentas mais restritas aos profissionais da saúde mental. Hoje, eles se diluíram no discurso cultural. Todos nós passamos a nos relacionar com esses termos e a utilizá-los para nomear experiências próprias e dos outros.
Vivemos um momento em que a sociedade se apropria dessas categorias diagnósticas como forma de interpretar vivências.
Existe até o conceito de “bioidentidades”, em que as pessoas passam a se reconhecer e a se conectar a partir dessas nomenclaturas. É comum vermos pessoas se identificando como alguém com bipolaridade, borderline, TDAH ou transtorno de ansiedade, por exemplo. Isso prejudica ou ajuda na aceitação das condições de saúde mental?
Esse debate não pode ser moralizado. Não faz sentido pensar em “voltar atrás” ou impedir que as pessoas utilizem esses termos. Em matéria de cultura e civilização, não existe retorno ao passado. Vivemos uma realidade em que os diagnósticos fazem parte do cotidiano e da forma como interpretamos experiências.
Claro que isso traz consequências, como o autodiagnóstico ou o hábito de rotular os outros sem critério. O diagnóstico é um processo complexo, realizado por profissionais preparados para isso. Muitas vezes, tanto a população quanto os próprios profissionais utilizam essas nomenclaturas de maneira excessiva ou pouco cuidadosa.

Por outro lado, também estamos assistindo a uma maior aceitação das diferentes formas de existir e sofrer. O debate não é simples. Ao mesmo tempo em que pode haver uso inadequado dos diagnósticos, também há um avanço no reconhecimento da diversidade humana.
Hoje, uma pessoa com determinado diagnóstico tende a ser menos vista como alguém completamente estranho ou apartado da sociedade. Então, não dá para dizer que esse movimento cultural é apenas negativo. Isso seria moralizar o debate e ignorar que também existem transformações positivas, principalmente no sentido de ampliar a aceitação das diferenças.
E qual a importância dos modelos de cuidado baseados na liberdade, na autonomia e na convivência social defendidos pela luta antimanicomial?
A lógica manicomial partia da ideia de que, para se reorganizar e alcançar um certo nível de “normalidade”, o sujeito precisava ser separado da sociedade, isolado em uma instituição.
Já o cuidado em liberdade trabalha com outro pressuposto: o de que o processo de recuperação e diminuição do sofrimento acontece justamente pela conexão com a comunidade, com a família, com o bairro e com as redes de apoio.
Os dispositivos de saúde mental atuam como mediadores dessa integração social. É na convivência com o outro que o sujeito consegue construir referências, reconhecer a realidade e elaborar o sofrimento.
Por isso, salvo situações específicas de crise grave, em que pode haver necessidade de uma internação momentânea, o tratamento se dá no contato com o outro, e não na separação.
Falamos um pouco sobre preconceito e estigma. Como enfrentar isso?
Eu acredito que temos avançado no combate ao preconceito. Hoje convivemos lado a lado com a diferença de uma maneira muito mais acessível do que há 20 anos — talvez até do que há 10 anos.
E um dos processos que contribuíram para isso foi justamente a aproximação da cultura com essas noções e termos ligados à saúde mental. Passamos a compreender melhor que existem múltiplas formas de sofrimento, algumas crônicas, outras episódicas e temporárias.
Por isso, acredito que o caminho não seja retirar esse debate da sociedade e devolvê-lo exclusivamente aos profissionais. O enfrentamento do preconceito passa justamente por continuar falando sobre o tema e por complexificar esse debate. Essa entrevista, por exemplo, já é uma forma de combate ao estigma.
E qual é o papel da escola, da família e da comunidade na construção de um cuidado mais humanizado?
O principal papel dessas instituições é promover a integração das diferentes formas de existir. E quando falo em diferença, não me refiro apenas ao sofrimento mental ou aos transtornos, mas à diversidade humana de forma geral.
É importante que pessoas com diferentes formas de funcionamento convivam nos mesmos espaços. Um estudante com deficiência, por exemplo, deve compartilhar a escola com outros estudantes. A convivência entre diferentes gerações, territórios, experiências e modos de existir é fundamental.
A escola, a família e a comunidade têm o papel de fortalecer essa convivência e essa integração. Afinal, hoje entendemos que não existe um sujeito universal, médio ou completamente “normal”. O que constitui a humanidade é justamente a diferença.
Conviver com isso ainda é desafiador porque carregamos heranças históricas de homogeneização, da tentativa de encaixar todas as pessoas em um mesmo modelo de funcionamento. Mas o caminho que precisamos construir é o da valorização da diferença e da convivência entre as diferenças.
O Tocantins possui estrutura suficiente para atendimento em saúde mental fora da lógica hospitalocêntrica?
Falando especificamente da saúde mental, é flagrante a redução progressiva dos investimentos nos últimos anos. CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e outros equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) vêm sofrendo com menos investimentos, e isso não acontece apenas no Tocantins, mas em todo o Brasil.
Existe um processo nacional de desvalorização desses dispositivos de cuidado e assistência social. Em relação à saúde mental hospitalar, temos a ala psiquiátrica do Hospital geral de Palmas (HGP), que enfrenta problemas como lotação, assim como outras áreas do hospital. Ainda assim, o HGP é uma referência regional importante e vem passando por ampliações ao longo dos anos.
Por isso, acredito que a situação mais crítica está justamente nos serviços de cuidado fora do hospital, especialmente na assistência social e nos dispositivos comunitários de saúde mental.
Para encerrar: quais reflexões a luta antimanicomial propõe sobre a forma como a sociedade lida com sofrimento, diferenças e subjetividade?
A lógica manicomial normalmente nos faz pensar em como tratamos o outro. Mas ela também diz respeito à forma como tratamos a nossa própria diferença e a nossa própria “loucura” — aquilo em nós que não se encaixa completamente em determinados espaços ou expectativas sociais.
A luta antimanicomial rompe com a separação rígida entre o “normal” e o “patológico”. Ela propõe que possamos reconhecer que nossa parte vulnerável, disfuncional ou sofrida também precisa ter lugar na existência.
Vivemos em uma sociedade muito orientada pela produtividade, em que o valor das pessoas costuma ser medido pela capacidade de produzir e funcionar. Mas a vida humana não cabe totalmente nessa lógica. Sempre haverá algo que escapa.
Talvez uma das principais contribuições da luta antimanicomial seja justamente essa: entender que todos nós carregamos algum grau de diferença, de sofrimento e até de “loucura”. E que isso não deve apenas ser tolerado, mas também reconhecido como parte daquilo que nos torna singulares e humanos.
