Entenda como a arquitetura bioclimática pode reduzir o impacto do calor dentro das casas de Palmas
06 setembro 2026 às 13h20

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Palmas enfrenta um dos períodos mais quentes dos últimos anos. Segundo painel conjunto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) há mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro, com efeitos que devem se estender até o início de 2027. Para o Tocantins, a previsão aponta chuvas abaixo da média no mesmo período, associadas a temperaturas acima dos padrões históricos, um cenário que pode prolongar a estiagem, aumentar o déficit hídrico e deixar áreas de vegetação mais vulneráveis a incêndios.
O calor já se manifesta no curto prazo, pois no início de setembro, o Inmet registrou máximas próximas de 39°C na capital tocantinense, e o prognóstico climático indica que partes do estado podem ter temperaturas até 2°C acima da média histórica.
Nesse contexto, a forma como as casas e edifícios de Palmas são projetados deixa de ser apenas uma questão estética e passa a interferir diretamente na qualidade de vida da população. É o que defende o arquiteto Renato Pereira Lopes, sócio, ao lado da esposa Danielly Daudt, do escritório Perelopes Arquitetura, fundado há dez anos na capital. A trajetória da dupla começou ainda na faculdade, quando o trabalho de conclusão de curso de Renato foi premiado em um concurso que reuniu projetos de toda a América Latina. De lá para cá, o escritório já somou mais de 350 projetos contemplados em todo o Brasil, alguns publicados em plataformas internacionais de arquitetura, sempre com um fio condutor: a preocupação com o clima local.

O que é, afinal, arquitetura bioclimática
Para Renato, essa preocupação remonta à própria origem da profissão. “A bioclimática dentro da arquitetura talvez tenha sido uma das primeiras coisas que fez o homem procurar abrigo ou modificar a natureza para se abrigar. O surgimento da arquitetura é o homem modificando o meio natural para adequar a necessidade dele, e o primeiro intuito sempre foi se proteger das intempéries. Isso sempre foi de maneira mais orgânica, sem nenhum pretexto estético, apenas pela funcionalidade, um dos maiores motores da arquitetura”, explica.
Segundo o arquiteto, esse motor foi perdendo força ao longo do tempo, tanto pela pressa das construtoras em entregar empreendimentos quanto pela facilidade oferecida por soluções como o ar-condicionado. “Hoje a gente tem duas vertentes bem interessantes na arquitetura. Nunca houve, devido às redes sociais, tanta conscientização das pessoas sobre a importância de um bom projeto. Mas, pela facilidade de colocar uma placa solar e um ar-condicionado, existe também o lado contrário, de pessoas que acham que podem fazer qualquer coisa porque o ar-condicionado vai resolver tudo. E a ideia não é essa, não é que o morador, depois de gastar muito dinheiro para construir, fique refém do ar-condicionado. A ideia é ele chegar em casa às 3h30 da tarde, numa casa que ficou fechada o dia todo, e que ela não esteja como um forno. Que esteja confortável, vai estar quente, porque nessa época do ano isso é inevitável, mas tranquila. Ele liga o ventilador e não começa a suar, porque o ambiente já não é tão hostil assim”, descreve.
Renato ressalta ainda que não existe uma fórmula única de arquitetura bioclimática, já que cada região do país exige soluções diferentes. “Uma das coisas mais particulares da arquitetura é que um projeto feito aqui tem que ser diferente de um projeto feito em Brasília, e diferente de um projeto feito no Rio Grande do Sul. Temos climas diferentes, e mesmo havendo períodos quentes em ambos os locais, o sol se comporta de maneira diferente, com inclinação diferente em relação ao eixo Norte-Sul. É uma parte bem minuciosa, bem cuidadosa. Fazemos bastante simulação hoje para entregar aos clientes o maior conforto possível, que no final das contas é qualidade de vida, não é só para ter um teto. É onde a pessoa vai estar vivendo, convivendo, interagindo. Uma casa que promove esse bem-estar deixa quem mora nela mais tranquilo do que num ambiente em que todo mundo está quente”, afirma.
Paredes, telhados e a orientação do sol
Ele explica que cuidado bioclimático começa pela escolha dos materiais e pela orientação da construção em relação ao sol e aos ventos. “Na prática, a ideia de uma construção para uma pessoa que vai morar nela é conseguirmos manter a temperatura interna da casa o mais estável possível. Nós temos aqui um clima de inverno bem quente, que não chega a ser frio, porque a variação é pequena, e não queremos que essa variação de temperatura externa influencie na parte interna. Isso faz com que nossa primeira preocupação seja cuidar de toda a casca da construção. As paredes externas precisam ter a capacidade de absorver o calor e não transmiti-lo para dentro da casa. Existem materiais que fazem isso com mais ou menos facilidade, e é importante não condenar nenhum tipo de material, pode ser que só se tenha aquele, e tudo bem, só é preciso ter algum outro cuidado a mais que talvez não fosse necessário com outro. Isso envolve todas as paredes externas e também o telhado.”
Ele recorre a uma imagem para explicar o papel da cobertura das edificações. “Imagine que nossas casas precisam de algo como um velho chapéu de palha, com abas bem grandes, para proteger o entorno do sol. Isso ajuda muito, ainda vai ser quente, mas estaremos bem melhor do que se não tivesse essa proteção. A cobertura tem esse intuito, é a primeira camada que vai nos separar do sol quente e do ambiente onde estaremos”, diz.

Além do material da envoltória, Renato aponta a disposição dos cômodos como um segundo fator determinante: “O primeiro cuidado do projeto, quando estudamos a orientação do sol, é o posicionamento correto dos cômodos em relação à orientação solar. Não adianta ter toda essa casca perfeita e a cozinha ficar voltada para o sol da tarde. Não vai adiantar: a janela vai precisar de uma cortina, e daqui a pouco você não estará mais vendo o quintal, porque teve que fechar a casa toda. Uma das primeiras coisas é posicionar a casa corretamente em relação à orientação solar e aos ventos predominantes da região, para termos a troca de ar no período em que o vento está mais ameno. É um conjunto de soluções para chegar ao resultado”, resume.
Uma preocupação ainda rasa no mercado
Questionado sobre se esse cuidado está de fato presente nas construções habitacionais e nos grandes empreendimentos de Palmas, Renato é direto ao apontar que a lógica comercial costuma se sobrepor ao conforto térmico. “Existe uma preocupação no meio corporativo e no meio da habitação popular em entregar o máximo possível, seja para entregar mais rápido, seja para lucrar mais, no caso das incorporadoras. Isso deixa de lado alguns estudos, algumas preocupações que não deixariam a obra necessariamente mais cara. Algumas escolhas, de forma negativa, como utilizar uma telha muito inferior numa casa popular, vão fazer com que a pessoa não consiga ter uma casa refrigerada, porque o teto pega fogo, você não consegue nem colocar a mão nele de tão quente que fica, e o forro logo abaixo também esquenta, trazendo um grande mormaço para dentro da casa. Com pequenos cuidados já seria possível resolver isso: em vez de usar o tijolo mais fino, cerâmico, usar um tijolo mais largo, para que a parede, em vez de ficar com 14 ou 15 centímetros, fique com 25, o que já garante uma camada de proteção muito maior para a construção”, explica.
Para quem está prestes a contratar um projeto e não tem conhecimento técnico sobre o tema, Renato recomenda alguns cuidados básicos, a partir da experiência que tem com consultorias para avaliação de projetos prontos: “A primeira coisa é estar bem ciente do percurso do sol no lote, mesmo que o profissional que esteja projetando não apresente isso de maneira natural. Pense: você consegue saber, mais ou menos, onde o sol está se pondo? Pergunte como isso está sendo considerado no projeto. Porque, se você descobre que o sol está se pondo no fundo do seu terreno, naturalmente aquela não vai ser a área de lazer tradicional, a que sai da cozinha, com a varanda virada para o fundo — porque ninguém vai usar aquele espaço do meio-dia ao fim da tarde, e à noite ainda vai estar quente. Essa é uma das primeiras coisas a se observar: a orientação solar. A segunda é em relação à vizinhança e à direção dos ventos. Aqui em Palmas, os ventos vêm predominantemente da Serra, um pouco da direção sudeste. Os vizinhos podem interferir um muro muito alto e muito fechado, que pode impedir que a casa receba bons ventos, de dia ou de noite, e isso já vai ditar como a casa vai se comportar, se ela vai ficar mais concentrada no fundo do terreno, com a área de lazer na frente, ou o contrário, ou ainda se será uma casa em formato de pátio. Tudo isso é muito definido por essa análise climática”, orienta.
Mesmo quem já mora em uma casa que não foi projetada com esses critérios pode adotar medidas para amenizar o problema, segundo o arquiteto, que cita a própria residência como exemplo. “A minha casa é um exemplo disso. Comprei uma casa de 20 anos de idade, a princípio pequena, que havia sido ampliada pelo antigo proprietário, e reformei tentando extrair o máximo possível do que ela podia oferecer. Ela não tem um posicionamento solar ideal, mas as janelas mais expostas foram protegidas. Plantei duas árvores grandes no quintal, que hoje sombreiam toda a parte da frente da casa, a partir das 15h já tem sombra total. Criei alguns beirais e proteções extras para as janelas expostas. Uma coisa que não fiz foi subir o telhado, e o ar quente sempre sobe: quanto mais baixa a casa, mais o ar quente fica próximo da nossa cabeça, via de regra. O telhado é um pouco baixo e é cerâmico, o que absorve calor, então criei uma ventilação entre o telhado e o forro para tirar parte desse ar. Nesse período em que estamos entrando, em setembro, o nosso mês mais quente, a casa ainda esquenta quando a gente entra, mas está bem melhor do que outras casas novas, mais altas e com materiais mais modernos que não existiam na época em que ela foi construída. Então, sim, é possível melhorar. Na suíte que construí do zero, ampliando a casa, usei tudo que podia, e mesmo nesse horário mais quente, no período pós-almoço, a gente consegue ficar só com o ventilador. É possível melhorar a qualidade de vida dos moradores, e eles vão perceber isso na pele”, relata.
Uma questão também estrutural
Além do conforto percebido pelos moradores, o arquiteto destaca que a exposição solar tem implicações estruturais que vão além da sensação térmica. “Fisicamente, isso é muito importante. Tudo que está em contato direto com o sol é o que precisa de maior isolamento. Uma parede que vai receber sol do meio-dia até o fim da tarde não pode ter 15 centímetros, porque do lado de dentro você vai colocar a mão e vai sentir o calor. Ela precisa ser mais espessa, para que, quando o sol começar a ir embora, depois de quatro ou cinco horas de exposição, o calor comece a recuar para fora, e a gente consiga manter a temperatura da casa mais adequada.”
Sobre a formação dos futuros arquitetos, Renato reconhece que o tema já está consolidado nos currículos universitários, mas defende que a experiência prática de mercado ainda carece de aprofundamento. “Da minha experiência de faculdade, e de outras vezes em que fui convidado por professores para falar sobre o tema, isso sempre ficou claro: existe a disciplina de conforto térmico no curso de arquitetura, de maneira obrigatória. Acho que o que carece um pouco é, na verdade, a prática de mercado, a experiência que o universitário tem enquanto estagiário. Ele vai para algum escritório, trabalha ali três anos, e não ouve falar muito sobre como tal casa se posicionou em relação ao sol, o que foi feito em tal projeto. Isso não vem sendo apresentado, não vem sendo proposto, e acaba virando uma lacuna que ele nem percebe e leva para a carreira profissional. Então, quanto ao curso, sim, com toda certeza a formação existe. Além da faculdade, também existem cursos à parte, guias e livros, hoje está mais fácil do que nunca. Na minha época era só material físico; hoje você consegue baixar e consultar a qualquer momento. Não faltam ferramentas, é mais uma questão de conscientização mesmo, e de resultado”, pondera.
Para o arquiteto, falta ainda ao público em geral a percepção do potencial que uma casa bem adaptada ao clima pode oferecer. “Acho que carece muito, em quem utiliza a nossa arquitetura aqui, falando do nosso regionalismo, a pessoa entrar numa casa que está bem adaptada a isso. Poucas pessoas conhecem essa diferença — para elas, todas as casas são iguais, até o momento em que entram em uma e se surpreendem: ‘nossa, mas está agradável aqui’. Aí ela percebe o potencial que aquilo pode ter. A gente tem vários clientes que já presenciaram pessoas entrando na casa e se surpreendendo, como se houvesse um ar-condicionado ligado. Ela passa pela porta e comenta: ‘nossa, que legal, olha só, está tão fresquinho, tem aquela sombra, tem isso, tem aquilo’. É muito interessante”, conclui.
