Uma planilha apreendida pela Polícia Federal (PF), registros de transferências bancárias que somam R$ 420 mil e uma distribuidora de bebidas com movimentação financeira de aproximadamente R$ 170 milhões estão entre os elementos de uma investigação da Operação Overclean que alcançou o deputado federal e candidato ao governo do Tocantins, Vicentinho Júnior (PSDB). A apuração busca esclarecer se o parlamentar recebeu vantagens indevidas para favorecer uma empresa contratada pelo governo estadual. Ele nega irregularidades e não foi indiciado na etapa da operação concluída em agosto de 2026.

A suspeita surgiu a partir de documentos relacionados aos empresários Alex e Fábio Parente, investigados por suposta participação em um esquema de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro. No Tocantins, uma das empresas ligadas aos irmãos, a Larclean Saúde Ambiental, celebrou contratos e termos aditivos com a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) que somaram R$ 59,2 milhões entre 2021 e 2024.

Ao analisar a movimentação financeira do grupo, a PF identificou transferências para a GMD Borba Distribuidora Eireli, registrada em nome de Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira, esposa de Vicentinho. Os investigadores relacionaram parte dos pagamentos a anotações identificadas pelo codinome “VIC”, que atribuíram ao deputado.

Em setembro de 2025, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para realizar buscas e bloquear bens relacionados ao parlamentar e à esposa. O ministro Nunes Marques negou os pedidos, após manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão rejeitou as medidas cautelares, mas não determinou o arquivamento da investigação.

Como começou a Operação Overclean

A Operação Overclean foi deflagrada em 10 de dezembro de 2024 pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU). Na primeira fase, foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 17 de prisão preventiva em cinco estados.

Inicialmente, a investigação concentrou-se em suspeitas de irregularidades em contratos públicos, incluindo obras financiadas por recursos federais e procedimentos vinculados ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), especialmente na Bahia.

Segundo a PF, o grupo investigado utilizaria empresas e intermediários para direcionar licitações, obter contratos com órgãos públicos e distribuir valores a pessoas que facilitassem as contratações. A investigação também passou a examinar suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras incompatíveis com as atividades declaradas por determinadas empresas.

Entre os nomes identificados estão os empresários Alex e Fábio Parente e José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”. As apurações foram ampliadas para outros estados à medida que documentos, contratos e transações bancárias revelaram possíveis conexões com diferentes administrações públicas.

Foi nesse contexto que os investigadores identificaram a atuação da Larclean no Tocantins e passaram a examinar contratos firmados com o governo estadual.

Contratos da Educação colocaram o Tocantins na investigação

A Larclean Saúde Ambiental venceu uma licitação realizada em 2020 para a prestação de serviços de dedetização e desratização em escolas e prédios administrativos da rede estadual.

O valor inicial divulgado para a contratação foi de R$ 13,6 milhões. De acordo com a invetigação, os contratos e termos aditivos celebrados entre 2021 e 2024 somaram R$ 59,2 milhões.

A Polícia Federal identificou indícios de que a empresa poderia ter sido favorecida no procedimento licitatório, em prejuízo de concorrentes. Os investigadores também examinaram suspeitas de sobrepreço e pagamentos indevidos a agentes públicos.

O contrato da Larclean integra a frente tocantinense da Overclean, que alcançou antigos integrantes do governo estadual e pessoas relacionadas à administração da Educação.

Após a deflagração da operação, a Seduc informou que havia suspendido os pagamentos à empresa e colocado documentos à disposição das autoridades. A Secretaria da Administração (Secad) também anunciou a suspensão de novas contratações decorrentes de uma ata de registro de preços vencida pela Larclean em 2024, esclarecendo que aquele procedimento específico ainda não havia resultado em contratos vigentes.

As investigações sobre os contratos da Larclean forneceram parte do contexto para a análise dos registros financeiros posteriormente associados a Vicentinho. A suspeita policial, porém, não comprova que o deputado tenha participado da licitação ou interferido diretamente na contratação.

O que a Polícia Federal encontrou sobre Vicentinho Júnior

Entre os documentos apreendidos durante a primeira fase da Overclean, em dezembro de 2024, estava uma planilha que reunia registros de pagamentos, valores e identificações de possíveis destinatários.

Uma das anotações apresentava o codinome “VIC”. Ao cruzar as informações do documento com movimentações bancárias, a Polícia Federal passou a relacionar a identificação ao deputado Vicentinho Júnior.

Os investigadores identificaram transferências realizadas pela BRA Teles Ltda., empresa apontada como vinculada aos irmãos Parente, para a GMD Borba Distribuidora Eireli, registrada em nome de Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira.

Segundo a apuração, a BRA Teles transferiu R$ 260 mil para a distribuidora entre 2023 e 2024. Os registros indicavam pagamentos recorrentes de R$ 20 mil, cujas datas e valores apresentavam correspondências com as anotações encontradas na planilha.

Além das transferências da BRA Teles, a PF identificou registros de pagamentos associados a outros remetentes. Considerando o conjunto das anotações referentes a 2023 e 2024, o montante supostamente relacionado ao deputado e à esposa chegou a R$ 420 mil.

Em relatório encaminhado ao STF, a Polícia Federal afirmou ter alcançado um elevado grau de certeza de que os valores registrados sob o codinome “VIC” teriam sido destinados a Vicentinho por intermédio da empresa de Gillaynny.

A conclusão é dos investigadores e foi contestada pelo deputado. 

Planilha localizada pelos investigadores | Foto: Reprodução/PF

Distribuidora da esposa movimentou R$ 170 milhões

Outro ponto examinado pela Polícia Federal foi o histórico financeiro da GMD Borba Distribuidora, registrada em Sítio Novo do Tocantins.

Segundo relatório da investigação divulgado inicialmente pelo UOL, em dezembro de 2025, a empresa movimentou aproximadamente R$ 170 milhões entre janeiro de 2019 e abril de 2025.

O montante corresponde à soma das entradas e saídas bancárias no período. Foram cerca de R$ 85 milhões em créditos e outros R$ 85 milhões em débitos. Isso significa que a empresa não necessariamente recebeu R$ 170 milhões em receitas: o número representa a movimentação acumulada das contas.

A GMD Borba possui capital social declarado de R$ 100 mil e atividades econômicas relacionadas ao comércio de bebidas. A diferença entre a estrutura empresarial identificada e o volume das operações levou a PF a levantar a hipótese de que a companhia pudesse funcionar como uma conta de passagem.

Nesse tipo de mecanismo, recursos são recebidos e posteriormente transferidos para outras contas, o que pode dificultar a identificação de sua origem e de seus destinatários. A existência de movimentações elevadas, entretanto, não comprova isoladamente a prática de lavagem de dinheiro.

Durante diligências no endereço informado como sede da GMD Borba, os investigadores identificaram circunstâncias que levantaram dúvidas sobre o funcionamento de uma distribuidora de bebidas no local. Segundo as reportagens baseadas no inquérito, o endereço também estava associado a outros estabelecimentos.

A Polícia Federal passou a examinar se as operações financeiras eram compatíveis com a atividade comercial declarada e se a empresa poderia ter sido utilizada para intermediar pagamentos relacionados ao grupo investigado.

No endereço onde fica a GMD Borba funciona outros estabelecimentos | Foto: Reprodução

O que Nunes Marques decidiu sobre os pedidos da Polícia Federal

Com base nos documentos apreendidos, nas transferências identificadas e nas informações sobre a GMD Borba, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal autorização para realizar buscas e apreensões e bloquear aproximadamente R$ 420 mil em bens relacionados a Vicentinho Júnior e à esposa.

A Procuradoria-Geral da República manifestou-se contra as medidas. Em decisão de 9 de outubro de 2025, o ministro Nunes Marques rejeitou os pedidos.

O magistrado considerou que os elementos apresentados não demonstravam conexão suficiente entre o parlamentar e os fatos investigados para justificar as medidas cautelares solicitadas naquele momento.

A decisão teve consequências específicas: as buscas pretendidas pela Polícia Federal não foram autorizadas e o bloqueio de bens não foi determinado.

Isso não equivale, entretanto, ao arquivamento automático do inquérito. A negativa de uma medida cautelar significa que o Judiciário não considerou atendidos os requisitos necessários para autorizá-la naquela ocasião.

A investigação relacionada ao deputado foi identificada como uma frente vinculada à Petição 13.388, sob relatoria de Nunes Marques. A apuração permanece aberta, sem indiciamento do parlamentar ou denúncia apresentada pelo Ministério Público.

Claudinei Quaresemin e outros ex-gestores aparecem na frente tocantinense

A investigação sobre contratos da Larclean também alcançou ex-integrantes do governo estadual. Um dos primeiros nomes identificados foi Claudinei Aparecido Quaresemin, ex-secretário extraordinário de Parcerias e Investimentos do Tocantins e sobrinho do ex-governador Mauro Carlesse.

Claudinei foi preso na primeira fase da Overclean, em 10 de dezembro de 2024. Segundo a Polícia Federal, ele teria atuado como intermediário do grupo empresarial no estado, facilitando procedimentos de contratação e indicando contas para o recebimento de pagamentos suspeitos.

Os investigadores identificaram transferências que ultrapassaram R$ 805 mil, supostamente realizadas por integrantes do núcleo empresarial investigado.

A apuração também alcançou agentes vinculados à Secretaria de Estado da Educação. Na oitava fase, deflagrada em 31 de outubro de 2025, foram cumpridos mandados contra Claudinei, o ex-secretário-executivo da Educação Éder Martins Fernandes e Itallo Moreira de Almeida, ex-diretor administrativo da Secretaria Municipal de Educação de Goiânia, além de outros investigados.

Durante as diligências, Éder e Danilo Pinto da Silva foram presos em flagrante, sob suspeita de tentar monitorar a movimentação da Polícia Federal em Palmas para antecipar o cumprimento de mandados. As prisões foram posteriormente revogadas por decisão judicial.

A defesa do empresário Alex Parente afirmou ao UOL que os contratos foram executados e que os preços praticados eram regulares.

As suspeitas envolvendo esses investigados pertencem a diferentes procedimentos da Overclean. A existência de uma frente relacionada a Vicentinho não demonstra, por si só, que ele tenha participado das condutas atribuídas a Claudinei ou aos ex-gestores.

Operação chegou à décima fase com novas buscas no Tocantins

Desde dezembro de 2024, a Operação Overclean avançou por diferentes estados e passou a investigar contratos públicos, emendas parlamentares, agentes políticos e empresários.

As etapas realizadas em 2025 envolveram suspeitas de vazamento de informações, irregularidades em contratações na área da educação, contratos relacionados à Codevasf e possíveis pagamentos indevidos a agentes públicos.

A oitava fase teve ligação direta com a frente tocantinense da investigação, especialmente com contratos da Larclean e a atuação de antigos gestores estaduais.

A décima fase foi deflagrada em 17 de setembro de 2026, com 24 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo.

O foco dessa etapa foram procedimentos de contratação realizados por uma secretaria municipal de Belo Horizonte entre 2024 e 2025, envolvendo serviços e fornecimento de materiais didáticos. Pelo menos três contratos examinados somavam mais de R$ 80 milhões.

Embora tenham sido cumpridas medidas no Tocantins, a Polícia Federal não apresentou essa etapa como uma investigação contra Vicentinho Júnior. O nome do deputado aparece em uma frente anterior, relacionada aos registros financeiros e às suspeitas de pagamentos associados à empresa da esposa.

Vicentinho nega irregularidades e destaca decisão do STF

Vicentinho Júnior tem contestado publicamente as suspeitas levantadas na Operação Overclean. O deputado sustenta que não participou de irregularidades e destaca a decisão do ministro Nunes Marques que rejeitou as medidas solicitadas pela Polícia Federal.

Em manifestação, o parlamentar afirmou que os fatos mencionados já haviam sido analisados pela Procuradoria-Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal. Também ressaltou que não estava entre as 25 pessoas indiciadas em uma etapa da operação concluída em agosto de 2026.

Sobre a GMD Borba, Vicentinho declarou anteriormente que a distribuidora pertencia ao sogro, falecido em abril de 2024. O deputado também afirmou que os pagamentos identificados pelos investigadores estavam relacionados a “rotinas da minha vida pessoal” e que havia prestado os esclarecimentos necessários no processo.

O que ainda precisa ser esclarecido

A investigação da Operação Overclean relacionada a Vicentinho Júnior reúne elementos financeiros e documentais que a Polícia Federal considera indicativos de possíveis pagamentos indevidos. Entre eles estão a planilha com o codinome “VIC”, as transferências para a GMD Borba e as suspeitas sobre o favorecimento da Larclean em contratos estaduais.

Permanecem, contudo, questões fundamentais para a definição de eventual responsabilidade criminal, incluindo a origem e a finalidade dos pagamentos, a relação efetiva do deputado com as transações e a existência de provas suficientes para sustentar uma acusação formal.

A Polícia Federal apontou indícios que justificaram o aprofundamento da apuração, mas o STF rejeitou as medidas cautelares solicitadas contra o parlamentar. Vicentinho não foi incluído entre os 25 indiciados na etapa concluída em agosto de 2026.