O senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou a Miami, nos Estados Unidos, na quarta-feira, 28, acompanhado da mulher e das duas filhas, após deixar o Brasil em uma viagem marcada por informações contraditórias sobre seu paradeiro. Já em território norte-americano, publicou uma carta em que questionou, sem apresentar provas, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de domingo, 25, e se apresentou inicialmente como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, alterou o texto e passou a se definir como “líder do Brasil”.

A declaração provocou manifestações de distanciamento entre aliados políticos que participaram de sua campanha. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da candidatura, afirmou que ele e o partido não podem declarar que houve fraude eleitoral. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também defendeu o reconhecimento do resultado das urnas e afirmou que o caminho é seguir em frente.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro, declarou que a eleição terminou e defendeu a união da direita. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno também reafirmaram a importância de respeitar o resultado eleitoral.

Na carta, Flávio sustenta que teria ocorrido fraude na votação e questiona a atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula. O senador afirma que o resultado seria matematicamente impossível, mas não apresenta evidências que sustentem a acusação. O argumento repete alegações disseminadas por apoiadores do bolsonarismo nas redes sociais.

O texto passou por pelo menos quatro versões, duas divulgadas por aliados e duas publicadas pelo próprio senador. Uma das versões distribuídas por pessoas próximas à família Bolsonaro trazia um brasão histórico com a grafia “Brazil”. Na publicação feita pelo próprio Flávio, a expressão “verdadeiro presidente eleito” foi inicialmente mantida, antes de ser substituída por “líder do Brasil”.

A mudança ocorreu após o senador ter adotado, na segunda-feira, 26, um discurso de liderança da oposição. No domingo, após a derrota para Lula, ele havia questionado a legitimidade do resultado e alegado irregularidades relacionadas à ampliação do horário de votação em algumas localidades.

Segundo as informações publicadas pela Folha de S.Paulo, pouco mais de 34 mil votos foram registrados durante o período de prorrogação. O PL chegou a considerar uma ação para questionar a validade do pleito, mas desistiu de protocolar o pedido de anulação.

Viagem aos Estados Unidos teve rota por três países

Flávio chegou ao Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka às 10h23, no horário de Brasília, após uma viagem que começou em Porto Iguaçu, na Argentina, e incluiu uma escala em Guayaquil, no Equador. O deslocamento ocorreu em um jato Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly.

A viagem aconteceu após o ministro do STF Alexandre de Moraes determinar, a pedido da Polícia Federal (PF), que o senador entregasse seus passaportes, diante do risco de fuga. Flávio deixou o Brasil sem cumprir a determinação, utilizando o passaporte italiano, obtido em 2023, para viajar.

A PF informou que o senador não é considerado foragido, pois não existe ordem de prisão contra ele. A saída do país, contudo, levantou questionamentos sobre os procedimentos migratórios e a sequência de informações divulgadas por aliados durante o deslocamento.

A operação foi precedida por versões divergentes sobre o paradeiro do senador. Enquanto alguns aliados afirmavam que ele já estava nos Estados Unidos, outros divulgavam rotas diferentes. O registro de entrada na Argentina também foi objeto de informações contraditórias: inicialmente, autoridades migratórias negaram a passagem de Flávio pelo país, mas depois confirmaram que ele e a família haviam ingressado em território argentino.

O avião deixou Porto Iguaçu na madrugada de quarta-feira, 28, e seguiu para Guayaquil, contornando o espaço aéreo brasileiro antes de continuar até Miami. A sequência dos deslocamentos e a divergência entre as informações divulgadas alimentaram questionamentos sobre como a viagem foi organizada.

Trump evita envolvimento direto

Na carta, Flávio agradeceu aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pela participação no processo que permitiu sua chegada ao território norte-americano. O senador atribuiu a Milei a coragem e a Trump o acolhimento.

Apesar da proximidade política com a família Bolsonaro, Trump afirmou a jornalistas que não pretende se envolver na crise política brasileira. O presidente norte-americano declarou que Flávio recebeu autorização para entrar no país, mas evitou comentar os desdobramentos da eleição brasileira.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos indicou que a autorização concedida ao senador e à família era um visto, e não um pedido de asilo político, hipótese que havia sido mencionada por aliados bolsonaristas.

A viagem também ocorre em meio à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde vive desde 2025. O deputado federal licenciado atuou junto a autoridades norte-americanas em iniciativas de pressão sobre o governo brasileiro, incluindo medidas tarifárias.

A situação reacendeu comparações com a postura adotada por Jair Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022, quando o então presidente não reconheceu publicamente a vitória de Lula. Jair Bolsonaro está atualmente em prisão domiciliar após condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado.