O Governo do Tocantins publicou no Diário Oficial do Estado (DOE) o afastamento de funções de três policiais militares citados na investigação da chamada Chacina de Miracema, caso que apura seis homicídios ocorridos em fevereiro de 2022, além da invasão à Delegacia da Polícia Civil do município. O Jornal Opção Tocantins busca a defesa dos citados. 

As medidas atingem o tenente-coronel Wallas de Sousa Melo, o major Wilquer Barbosa de Sousa e o tenente-coronel Douglas Luiz da Silva, que atuava como ajudante de ordens da Casa Militar do governo estadual. Os atos foram assinados pelo secretário-chefe da Casa Civil, Deocleciano Gomes Filho.

No Diário desta terça-feira, 12, Wallas de Sousa Melo foi dispensado da função de comandante de batalhão. No mesmo dia, Wilquer Barbosa de Sousa deixou o comando de uma Companhia Independente da Polícia Militar. No caso de Douglas Luiz da Silva, além da exoneração do cargo comissionado na Casa Militar, o governo também revogou a cessão do militar ao órgão no último dia 8.

Os afastamentos ocorrem poucos dias após a operação da Polícia Civil que cumpriu 23 mandados de prisão preventiva contra policiais militares investigados por participação direta ou indireta nos crimes.

Wallas é apontado como uma das lideranças do grupo

Entre os três afastados, o relatório da investigação detalha principalmente a atuação atribuída a Wallas de Sousa Melo, que era major e subcomandante da 6ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) à época dos fatos.

Segundo a investigação, ele exercia posição de ascendência dentro da tropa e teria atuado na coordenação das ações criminosas após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, com quem mantinha proximidade.

O relatório aponta que Wallas esteve no ponto de encontro dos policiais na noite de 4 de fevereiro de 2022, chegando ao local por volta das 23h55 em uma viatura caracterizada. Conforme a denúncia, ele teria saído e retornado ao local em diferentes momentos, conversando com os demais policiais e acompanhando a movimentação.

Os investigadores sustentam que, horas depois, já nas proximidades da Delegacia de Polícia Civil de Miracema, Wallas ocupava uma viatura Renault Duster e teria sinalizado com feixes de luz para os demais veículos envolvidos na ação.

A Polícia Civil interpreta a movimentação como o “aval final” para a invasão da delegacia e a execução de Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano Alves Marinho, apontado como suspeito de matar o sargento Anamon.

O relatório também afirma que Wallas aparece em imagens transitando em frente à delegacia por volta das 5h55 e permanecendo estacionado em um quarteirão adjacente, em posição considerada estratégica pelos investigadores.

Além da atuação operacional, a investigação aponta suspeita de participação do oficial na fase inicial da chamada “Operação Olhos de Águia”, apontada pelo Ministério Público como parte das ações que antecederam a morte de Valbiano.

Segundo a apuração, ele teria encaminhado despachos usados como justificativa para levantamentos de informações relacionados ao alvo posteriormente executado.

O Ministério Público denunciou Wallas pelos homicídios qualificados de Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva e pediu sua prisão preventiva e afastamento das funções públicas.

Wilquer é investigado por atuação na invasão à delegacia

O major Wilquer Barbosa de Sousa, que à época estava lotado na 8ª Companhia Independente da Polícia Militar, em Palmeirópolis, é apontado na investigação como um dos integrantes do grupo que participou da invasão à Delegacia de Polícia Civil de Miracema.

Segundo a denúncia, Wilquer chegou às proximidades da unidade policial por volta das 6h25 do dia 5 de fevereiro de 2022 em um VW Gol branco, acompanhado do cabo Werles de Moraes Souza.

A investigação afirma que ambos integraram o grupo que rendeu os agentes de plantão e executou Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva dentro de uma cela.

As apurações também apontam suspeita de fraude no sistema de rastreamento do veículo utilizado pelos policiais.

De acordo com os investigadores, o carro sob responsabilidade de Wilquer e Werles foi um dos únicos com falhas ou supressão de dados de GPS durante o período analisado, o que é tratado pelo Ministério Público como indício de tentativa deliberada de ocultar deslocamentos e dificultar a investigação.

O oficial foi denunciado por dois homicídios qualificados, com agravantes como motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa das vítimas.

Além da prisão preventiva, o Ministério Público requereu o afastamento do oficial das funções públicas e a suspensão do porte e posse de arma de fogo.

Douglas integrava equipe da Casa Militar apontada como executora no Jardim Buritis

Já Douglas Luiz da Silva, que atuava na Ajudância de Ordens do Gabinete do Governador, é apontado pela investigação como integrante da chamada “equipe Casa Militar”, formada também por Halisson Pires dos Santos e Wanderson Ferreira Cordeiro.

Segundo o relatório, o grupo utilizava um VW Virtus branco e teria atuado diretamente na abordagem dos quatro jovens sequestrados na madrugada de 5 de fevereiro de 2022.

A investigação afirma que as vítimas, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, Aprígio Feitosa da Luz, Gabriel Alves Coelho e Gabriel Bezerra, foram abordadas nos fundos do Posto Veredão, em Miracema.

Conforme a denúncia, os jovens foram submetidos a agressões físicas, ameaças e tortura antes de serem levados ao loteamento Jardim Buritis.

No local, segundo os investigadores, os quatro foram colocados ajoelhados e atingidos por disparos pelas costas. Três morreram no local e Gabriel Bezerra conseguiu fugir mesmo baleado.

A Polícia Civil aponta que Douglas Luiz participou diretamente das agressões e da execução das vítimas.

O Ministério Público denunciou o policial por quatro homicídios qualificados, três consumados e um tentado, e também requereu sua prisão preventiva, afastamento das funções públicas e suspensão do porte de arma.

Caso apura seis mortes e invasão à delegacia

A investigação conduzida pela Delegacia Estadual de Repressão ao Crime Organizado (Dracco) concluiu que apenas uma das seis vítimas mortas tinha relação com o assassinato do sargento Anamon Rodrigues de Sousa.

Segundo a Polícia Civil, Valbiano Alves Marinho teria sido o autor dos disparos contra o militar. As demais vítimas foram Manoel Soares da Silva, pai de Valbiano; Edson Marinho da Silva, irmão dele; Aprígio Feitosa da Luz; Pedro Henrique de Sousa Rodrigues; e Gabriel Alves Coelho.

Conforme a investigação, nenhum deles possuía envolvimento com a morte do sargento Anamon ou antecedentes criminais relacionados ao caso.

Além dos seis mortos, a investigação aponta que Gabriel Bezerra sobreviveu ao ataque ocorrido no loteamento Jardim Buritis. Segundo a Polícia Civil, ele conseguiu fugir mesmo baleado e prestou depoimento ainda no hospital de Miracema. O relato do sobrevivente foi considerado decisivo para o avanço das investigações.

O relatório final do inquérito aponta a atuação de múltiplos núcleos formados por policiais militares, envolvendo ações de vigilância, abordagem, execução e ocultação de provas.

A investigação teve acompanhamento do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, e as medidas cautelares foram autorizadas por um colegiado de três juízes.