A entrada dos jovens no mercado de trabalho envolve desafios que vão desde a conclusão da educação básica até a adaptação à rotina profissional. No Tocantins, dados apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) mostram que a formação técnica, a experiência prática, as habilidades socioemocionais e o domínio de tecnologias estão entre os pontos que interferem tanto na conquista do primeiro emprego quanto na permanência dos jovens nas empresas.

Economista de formação, Paula Montagner estudou em duas universidades do Estado de São Paulo e é professora na Escola de Ciências do Trabalho do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Atualmente, ela ocupa o cargo de subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e avalia que a conclusão do ensino médio continua sendo uma referência para o ingresso profissional. Para ela, a formação técnica e a aprendizagem podem complementar essa preparação

“O nível médio é a primeira credencial demandada do jovem, porque representa a formação inicial. Ninguém espera que um jovem que tenha apenas o nível médio já tenha conhecimentos técnicos, mas aqueles que conseguem combinar a formação básica com conhecimentos técnicos tendem a se sair melhor. Quando ele consegue fazer uma escola técnica, um estágio ou uma aprendizagem, passa a combinar conhecimento teórico com experiência prática e pode alcançar melhores postos de trabalho e melhores remunerações.”

Paula Montagner | Foto: Kayo Magalhães

A aprendizagem profissional aparece, nesse cenário, como uma forma de conciliar estudo, capacitação e experiência. Paula destaca ainda que a possibilidade de obter renda durante esse período pode contribuir para que o jovem permaneça vinculado à formação, especialmente diante dos custos associados ao acesso a equipamentos e recursos necessários para estudar.

No Tocantins, dados citados pelo MTE apontam que havia 2.752 aprendizes em junho de 2026, com remuneração média de aproximadamente R$ 1.190. A subsecretária observa que o número, isoladamente, não permite avaliar a dimensão da aprendizagem no Estado, já que fatores como a distribuição territorial e as características do mercado local também precisam ser considerados. Para ela, a capacidade de oferecer oportunidades profissionais é relevante para evitar a saída de jovens qualificados.

“O que é importante para as políticas públicas é reter os talentos, reter significa oferecer bons empregos, boas condições de trabalho e bons salários. O jovem não pode parar no nível médio ou no nível técnico. Ele precisa continuar o processo de qualificação, seja em níveis técnicos mais sofisticados, seja alcançando o ensino superior. Para ter um bom trabalho, a pessoa precisa ter uma formação técnica de qualidade.”

No Senai Tocantins, a procura por capacitação também está concentrada entre jovens. Segundo a gerente da Unidade de Educação e Tecnologia (UNETI), Marcela Canola, a Aprendizagem Industrial reúne predominantemente pessoas de 16 a 24 anos e atende, atualmente, uma média de 900 aprendizes.

Dados sobre a procura por formação profissional em 2026 mostram um perfil majoritariamente masculino entre os estudantes atendidos pela instituição no Tocantins. Até o fim de julho, 60% do público era formado por homens e, considerando as diferentes modalidades de cursos oferecidas, o ensino médio completo aparece como nível de escolaridade predominante. Esse perfil, porém, varia conforme a formação. Nos cursos técnicos, por exemplo, 68% dos alunos são homens e a maioria possui o ensino médio completo. Na aprendizagem básica, as mulheres representam 60% do público, também com predominância de estudantes que já concluíram o ensino médio.

Entre as formações procuradas, o curso de Técnico em Eletrotécnica aparece como a principal demanda na modalidade técnica, área que, segundo o Senai, possui procura tanto na indústria quanto no agronegócio. Nos cursos de qualificação e na aprendizagem básica, Operador de Computador está entre as formações mais buscadas. Já na aprendizagem técnica, a maior procura é pelo curso de Técnico em Eletromecânica.

Dados sobre a modalidade de Aperfeiçoamento Profissional | Fonte: Senai Tocantins
Perfil etário de jovens | Fonte: Senais Tocantins

Segundo a instituição, os principais motivos apresentados pelos jovens para buscar a formação estão relacionados à entrada e à evolução profissional na indústria.

“A formação profissional representa, para o jovem, uma oportunidade concreta de se preparar para o ingresso no mundo do trabalho, desenvolvendo competências e habilidades que poderão ser aplicadas em sua trajetória profissional. A Aprendizagem Industrial aproxima o estudante da realidade das indústrias ainda durante o período de formação. Essa procura reflete o que move os jovens em busca de qualificação: a conquista do primeiro emprego, a superação das dificuldades de inserção no mercado ou a melhoria da renda familiar”, pontua Marcela.

Marcela Canola | Foto: Senai Tocantins

A formação técnica, porém, não é apontada como o único requisito para a contratação. Marcela explica que os jovens também chegam ao mercado com desafios relacionados às competências socioemocionais, à adaptação à rotina profissional e ao uso das tecnologias. “Os jovens que chegam em busca de qualificação apresentam lacunas em três dimensões. A primeira é a das competências socioemocionais, como comunicação, trabalho em equipe, gestão de conflitos e postura profissional. A segunda é o preparo para a cultura do trabalho, já que muitos chegam sem familiaridade com rotinas, prazos, hierarquia e responsabilidades do ambiente industrial. A terceira é o domínio de tecnologias digitais e de inteligência artificial, porque há um descompasso entre o uso cotidiano dessas ferramentas e sua aplicação profissional.”

Na avaliação de Paula, esse processo de adaptação envolve tanto os jovens quanto as empresas, pois além de chegar ao mercado com conhecimentos e habilidades em desenvolvimento, o profissional em início de carreira também precisa encontrar um ambiente que ofereça acompanhamento e permita o aprendizado com trabalhadores mais experientes.

“Nós mostramos os números para o ministro do Trabalho, e as pessoas dizem muito que o jovem não quer trabalhar, que não tem vontade ou disciplina. Talvez, no passado, fosse mais comum o jovem chegar ao local de trabalho e conviver com pessoas mais velhas, que ajudavam a entender a experiência prática. Hoje, muitas empresas parecem esperar que o jovem chegue completamente pronto, sabendo tudo o que leu. Ler sobre uma coisa não é praticar. Por isso, a aprendizagem é tão importante, porque é o momento em que ele transforma o conhecimento teórico em prática.”

Para Paula, parte desse processo de formação também passa pela troca de experiências dentro das empresas. Trabalhadores mais experientes podem contribuir para a preparação de quem está começando, enquanto os jovens levam para o ambiente profissional aprendizados adquiridos durante a formação: “Esse processo de interação é fundamental. Se a empresa não investe nisso, há uma rotatividade alta do jovem, porque hoje ele também procura uma empresa que invista nele. Se percebe que a empresa não vai investir, ele não vai ficar. Ele vai procurar outro emprego. Se houver essa conciliação entre aquilo que aprendeu na teoria e o que aprende na prática, para isso a empresa precisa acolhê-lo, garantir tempo de entrosamento com as equipes e valorização. Se ele não se sentir valorizado, vai embora.”

Outro desafio está relacionado à continuidade dos estudos depois da entrada no mercado: “Se você tiver uma jornada de trabalho muito extenuante, é difícil ir para a escola e conseguir estudar. Então, condições de trabalho e bons salários são uma forma de reter o jovem que está aí e atrair jovens de outros lugares. Também são necessárias oportunidades educacionais, porque o jovem vai precisar continuar estudando e acompanhando as transformações que está vendo.”

Uso de inteligência artificial

O uso de recursos digitais também aparece entre os desafios identificados pelo Senai na preparação dos jovens para o mercado de trabalho. A instituição observa que, no processo de contratação, as empresas têm considerado mais: “Do lado das indústrias, o que se observa no momento da contratação é uma exigência cada vez mais combinada. Elas buscam o domínio técnico da ocupação associado às competências socioemocionais, como comunicação eficaz, proatividade e adaptabilidade. De forma crescente, também exigem habilidades digitais e de inteligência artificial aplicadas à rotina profissional”, diz Marcela.

Paula defende que o uso de inteligência artificial no trabalho exige que o jovem saiba avaliar as informações produzidas pelas ferramentas e compreenda o contexto em que elas estão sendo utilizadas: “A tecnologia, quando é bem utilizada, está a favor do jovem. Se você usa a inteligência artificial para fazer uma prova por você, está perdendo seu tempo porque não está aprendendo. Se usa a inteligência artificial para aprofundar um conhecimento, aprender formas melhores de fazer seu trabalho, pesquisar e checar se a informação está correta, aí está valendo. O jovem precisa saber fazer as perguntas certas e entender que a ferramenta depende das informações que recebe.”

A relação entre tecnologia e trabalho também envolve mudanças na dinâmica das empresas, segundo Paula: “A pessoa que dirige a empresa precisa ver o que o jovem pode trazer, e o jovem precisa entender que todas aquelas coisas teóricas que aprendeu têm um preço na vida comum. Essa adaptação é dos dois lados e acontece o tempo todo. Quando não acontece, os empreendimentos ficam para trás. É preciso encontrar formatos em que as novas tecnologias possam ser incorporadas a custos adequados para as empresas.”

A política de aprendizagem também é apontada por Paula como parte da relação entre os jovens e o mercado de trabalho: “Fazer da política de aprendizagem uma política para ajudar a empresa, e não apenas para cumprir cota, é uma ação muito importante. Isso pode ajudar as empresas e os jovens, porque a empresa se transforma e o jovem se integra. Também precisamos garantir escola pública gratuita de nível técnico, tecnológico e superior para os jovens e processos de inserção no mundo do trabalho, inclusive nas pequenas empresas.”

No Tocantins, a discussão sobre a formação dos jovens também envolve as condições encontradas por eles para permanecer no Estado: “Eu acho que é fundamental encontrar formas para que o Estado do Tocantins continue mantendo seus jovens e oferecendo postos de trabalho. É importante garantir que eles continuem na escola, cheguem ao nível médio e adquiram conhecimentos técnicos. Se quiserem ser empreendedores, também precisam conhecer o mercado e aquilo que é demandado. O jovem não nasce líder. Ele se forma e precisa de tempo e conhecimento para criar seu espaço no mundo do trabalho”, finaliza Paula.