O alerta apareceu no iPhone de uma engenheira quando ela voltava da academia, no último sábado, 26 de setembro, em Palmas. A mensagem informava que um dispositivo desconhecido poderia estar acompanhando seus deslocamentos. Ela pensou primeiro em uma falha do celular. Dois dias depois, após sucessivas notificações, um rastreador foi encontrado escondido na parte inferior de seu carro.

O caso é o mais recente de três episódios semelhantes envolvendo mulheres em Palmas que chegaram ao conhecimento do Jornal Opção Tocantins. Em agosto, a influenciadora Jhuly Vaz, que reúne mais de 260 mil seguidores no Instagram, relatou ter encontrado um AirTag na parte externa de seu veículo. Nesta semana, uma terceira mulher procurou o próprio carro depois de saber do caso da engenheira e também localizou um dispositivo.

Não há elementos, até agora, que permitam relacionar os três episódios ou apontar uma mesma autoria. Há, porém, uma coincidência entre eles: as mulheres descobriram os rastreadores depois de receberem alertas do iPhone informando que dispositivos desconhecidos acompanhavam seus deslocamentos.

No caso da engenheira, as notificações começaram depois de uma passagem por um shopping da capital e continuaram à noite, na volta da academia. Ela carregava dois iPhones e recebeu o aviso nos dois. Ao consultar o aplicativo Buscar, afirma ter encontrado registros do trajeto percorrido nos dias seguintes.

Alerta exibido no iPhone informa que o rastreador “PEI-AD01” foi encontrado em movimento junto com a usuária e avisa que o proprietário do dispositivo pode visualizar sua localização | Foto: Arquivo pessoal

No domingo, durante um curso, comentou a situação com colegas. Uma delas lembrou do caso de Jhuly, divulgado dois meses antes. Na segunda-feira, já preocupada com a repetição dos avisos, a engenheira chamou o ex-marido, que é policial, e foi com ele a uma delegacia da Polícia Civil.

Naquele momento, o dispositivo ainda não havia sido localizado. Segundo a engenheira, ela foi orientada a tentar encontrá-lo. A suspeita de que o aparelho estivesse no carro aumentou quando percebeu que o sinal desaparecia ao se afastar do veículo e voltava quando se aproximava.

O ex-marido levou o carro e fez novos testes com outros iPhones. Os aparelhos também detectaram o rastreador. Pelo aplicativo Buscar, ele acionou a função que permite reproduzir um som no dispositivo desconhecido. Depois de procurar dentro do veículo, passou para a parte externa e ouviu um bipe próximo a uma das rodas.

O aparelho foi encontrado preso na parte inferior do carro. A engenheira enviou à reportagem um vídeo do momento em que familiares localizam o dispositivo. Na manhã seguinte, ela retornou à Polícia Civil, registrou ocorrência e entregou o rastreador para análise, segundo seu relato. Ela afirma não saber quem colocou o equipamento no veículo.

iPhone mostra o trajeto registrado por dispositivo desconhecido detectado próximo à proprietária do veículo | Foto: Arquivo pessoal

Relato leva outra mulher a procurar o carro

A descoberta da engenheira acabou ajudando outra mulher a perceber que vivia uma situação semelhante. O caso foi contado à irmã da engenheira, chegou a uma amiga e terminou compartilhado em um grupo de WhatsApp de um condomínio de Palmas.

Uma das moradoras respondeu que também recebia alertas no iPhone e ainda não havia encontrado a origem das notificações. “Tá acontecendo comigo! E já procurei esse rastreador no carro e não encontrei ainda”, escreveu. Ela afirmou ter recebido três avisos.

Depois da conversa no grupo, a mulher e o marido voltaram a procurar. Mais tarde, ela informou aos demais moradores que o aparelho havia sido localizado no carro. “Meu marido acabou de achar o rastreador no carro. Fiquem atentas, meninas”, escreveu. Uma fotografia compartilhada na conversa mostra um pequeno dispositivo branco.

O episódio não permite estabelecer relação entre os dois casos. Mostra, no entanto, como o relato da primeira descoberta levou uma segunda mulher, na mesma cidade, a investigar notificações que até então não sabia explicar.

Influenciadora encontrou AirTag em agosto

O caso que havia chamado a atenção da colega da engenheira foi publicado por Jhuly Vaz em 6 de agosto. A influenciadora contou que morou em Palmas e estava na capital para compromissos profissionais quando recebeu no iPhone um alerta sobre um AirTag desconhecido que se deslocava junto com ela.

Jhuly também desconfiou inicialmente de uma falha do aparelho. Procurou dentro do carro e não encontrou nada. Com a ajuda de amigos, acionou a função para fazer o AirTag emitir um som. O dispositivo foi localizado do lado externo do veículo, na região de uma das rodas.

A influenciadora afirmou que procurou uma delegacia. Segundo seu relato, um delegado considerou pouco provável a hipótese levantada inicialmente por ela e pelos amigos de que o rastreador tivesse sido instalado para facilitar o furto do veículo. Ele teria mencionado a possibilidade de alguém interessado em acompanhar seus deslocamentos. Não há informação de que essa hipótese tenha sido confirmada.

“Até hoje eu não faço ideia de quem colocou esse dispositivo, nem qual a motivação”, disse Jhuly no vídeo. Ao publicar o caso, afirmou que pretendia alertar outras mulheres sobre notificações desse tipo.

Foi esse alerta que, dois meses depois, chegou indiretamente à engenheira quando ela comentou com colegas sobre a mensagem que aparecia no celular. O caso da engenheira, por sua vez, levou a terceira mulher a procurar o dispositivo que também acompanhava seu carro.

Polícia Civil confirma investigações em Palmas

A Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP) confirmou ao Jornal Opção Tocantins que a Polícia Civil mantém procedimentos em andamento relacionados à instalação de rastreadores em veículos em Palmas.

Os casos são investigados pela 1ª Delegacia Especializada de Repressão às Infrações de Menor Potencial Ofensivo (1ª Deimpo), que realiza diligências para esclarecer as circunstâncias dos episódios e identificar possíveis responsáveis.

A SSP não informou quantos procedimentos estão em andamento nem confirmou se os registros investigados correspondem aos três casos relatados nesta reportagem. Segundo a pasta, informações sobre as apurações não serão detalhadas neste momento para não comprometer as investigações.

A confirmação da SSP mostra que a Polícia Civil apura mais de um caso de instalação de rastreadores em veículos na capital. Até agora, não há informação oficial de que os episódios tenham relação entre si ou de que uma mesma pessoa seja responsável pelos dispositivos encontrados.

Nos três relatos obtidos pela reportagem, as vítimas são mulheres e os dispositivos foram encontrados nos veículos após alertas emitidos pelo iPhone sobre rastreadores desconhecidos que acompanhavam seus deslocamentos.