Com o grande número de veículos em circulação nas rodovias federais que cortam o Tocantins e a preocupação com a redução de acidentes, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) tem intensificado tanto a fiscalização quanto ações de educação no trânsito no estado. Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, a porta-voz da PRF no Tocantins, Nathália Guimarães Teixeira, detalha o panorama recente das ocorrências nas estradas, explica quais são os tipos de acidentes mais registrados — como colisões traseiras, saídas de pista e colisões frontais — e comenta os fatores que mais contribuem para esses casos, como excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas, sonolência e falhas na manutenção dos veículos.

Ao longo da conversa, a policial também aborda o impacto das condições das rodovias do estado, em sua maioria de pista simples e com acostamentos estreitos, e explica como o comportamento dos motoristas pode influenciar diretamente na segurança das viagens. Ela ainda fala sobre as orientações da PRF para quem pretende pegar a estrada, as ações educativas realizadas com condutores e as diferenças percebidas no trânsito entre o Tocantins e outras regiões do país.

Na entrevista, Nathália Guimarães também comenta situações comuns atendidas pelas equipes nas rodovias, os riscos enfrentados por motociclistas e caminhoneiros, o funcionamento das fiscalizações e o que o motorista deve fazer ao presenciar um acidente. Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Por quais motivos um acidente de trânsito acontece? 

O termo “sinistro” veio justamente para que parem de encarar a ocorrência do acidente como uma situação que não foi possível impedir, uma casualidade. Não. Por isso passamos a tratar na normativa de uma forma diferente, como sinistro, existem fatores que levam à sua incidência. Fatores climáticos, por exemplo. 

Quando chega o período de chuva, ficamos mais em alerta, porque tendem a acontecer muitas colisões traseiras dentro do contexto de cidade, onde vemos um carro batendo atrás do outro, gerando engavetamento, mas também no contexto das rodovias, que ainda têm a questão da alta velocidade.

Um dos fatores relacionados ao comportamento humano que leva a essas colisões traseiras é a ausência de reação. A pessoa está em excesso de velocidade, está muito próxima do veículo da frente, está chovendo, o veículo da frente faz uma manobra de frenagem de emergência por qualquer motivo que seja, um animal passando na pista. Quem está vindo atrás nem consegue reagir a tempo suficiente e vem a colisão traseira.

Esse é um dos tipos de acidente que mais acontecem na rodovia, somando comportamento humano — distração, excesso de velocidade — com fatores climáticos, como a chuva. Fatores da via também podem influenciar. Então é multifatorial. Em resumo: comportamento humano, questão climática e infraestrutura da via. Esses três já resumem bem o que leva à ocorrência do acidente. Em questão de proporcionalidade, mais de 80% está relacionado à conduta humana.

Quando vemos os dados do que levou ao acidente, às vezes não tem nem marca de frenagem na via, o que é um indicativo evidente de que essa pessoa reagiu ou de que ela tentou desviar, porque o carro faz marcas na via. Quando uma perícia de trânsito é realizada pela PRF, o agente vai observar os indícios. Para onde foram os dejetos do acidente? Tudo isso tem mensagens a trazer. Onde está a marca de frenagem na via? Ela está no sentido da via certinho ou está na transversal? Ou seja, o condutor tentou desviar para o outro lado, sentido contrário, podendo gerar até uma colisão frontal com o veículo que está vindo na direção oposta.

O acidente é multifatorial, muito complexo de avaliar e, ao mesmo tempo, não tem muito segredo. Excesso de velocidade, pressa, ultrapassagem em locais indevidos. 

Quais são os tipos de acidentes mais frequentes registrados pela PRF no Tocantins?

Nas rodovias, o que mais costuma acontecer são as colisões traseiras, saída do leito carroçável e também a colisão frontal. Cada uma tem um motivo diferente.

A colisão traseira é a reação tardia, é quando o veículo está muito próximo do que está à frente e não consegue ter tempo de reação caso o veículo da frente faça uma manobra de emergência. Vai um e colide atrás do outro.

Também tem casos, por exemplo, desta madrugada (20/02). A equipe da PRF de Palmas foi atender um ônibus que deu pane na rodovia. Não tem muito espaço no acostamento, então parte desse veículo fica em cima da via. Com baixa luminosidade, às vezes o sistema de iluminação do ônibus não está bom, às vezes não tem um triângulo ou algo para sinalizar e acionar a PRF.

Ninguém imagina que vai ter um ônibus parado ali do lado. Essa é uma situação que causa colisão traseira.

No mês de dezembro nós tivemos uma situação de um ônibus que colidiu em um caminhão que estava sem luminosidade nenhuma, com o farol apagado. A questão da saída de leito carroçável pode ser causada por sonolência — a pessoa apaga e sai da pista — ou pode ser causada por tentar desviar de algum animal ou de outro veículo.

E a questão da colisão frontal está muito associada às ultrapassagens indevidas. Às vezes a ultrapassagem é permitida naquele trecho, mas a pessoa não observou se tinha algum veículo vindo no sentido contrário ou não tinha tempo para fazer a manobra. Isso é o que leva à colisão frontal, que é o tipo com maior índice de fatalidade hoje, porque são dois veículos vindo na mesma via, em sentidos opostos. Pela física, soma a massa dos veículos com a velocidade e vira aquele estrago. O índice de óbitos é altíssimo nesse tipo de colisão.

Existem trechos considerados mais perigosos nas rodovias federais do Tocantins?

Aqui no Tocantins, os acidentes estão muito próximos das cidades. Ao contrário do que o senso comum diz, esses acidentes não costumam acontecer com quem está viajando de um estado para o outro, em viagem interestadual, como um ônibus ou um caminhoneiro. Geralmente acontecem com pessoas que moram naquela cidade. Aqui em Palmas, por exemplo, gente que vem de Taquaralto para trabalhar em Palmas, ou que está indo de Palmas para voltar para casa, naquela hora do rush, início do dia ou final do dia, com muitos veículos ocupando o mesmo espaço na via. Acaba acontecendo acidentes.

Foto: Júlia Carvalho

Onde acontece a maioria dos acidentes? 

No perímetro urbano das grandes cidades aqui no Tocantins. Paraíso, Araguaína e Palmas têm um altíssimo índice de acidentes comparado com outras capitais também. Colinas também tem uma concentração, e naquela região de Gurupi, no perímetro urbano, onde se concentra maior fluxo de veículos.

Então os horários seriam começo e fim de expediente?

Exatamente. A partir das 5 horas da manhã até umas 8 horas, e aí começa a diminuir a partir das 9 horas. E também no final da tarde, a partir das 4 horas até às 7 horas da noite, quando se concentra o fluxo de veículos.

Quais são as principais causas dos acidentes nas rodovias que passam pelo Tocantins? É excesso de velocidade, ultrapassagem indevida, álcool, distração com celular ou outros motivos?

São multifatoriais os motivos, mas os principais costumam, sim, estar associados ao excesso de velocidade. O excesso de velocidade vai levar à reação tardia muitas vezes, porque você está em uma velocidade tão alta que não consegue desviar se precisar fazer uma manobra de emergência.

A questão da atenção também. Às vezes, por exemplo, temos um termo chamado “infrator contumaz”. Infrator contumaz é aquele que, quando você vai ver o histórico, tem 20 infrações por excesso de velocidade ou muitas ultrapassagens indevidas. Esse condutor, estatisticamente falando, é o que mais se envolve em acidente.

Ocorre que, às vezes, aparece um outro senhor, por exemplo, quando fazemos o laudo pericial. São dois veículos: um era infrator contumaz e o outro tinha apenas uma multa por sistema de iluminação. Percebe? Aqui eu tenho um infrator contumaz e aqui uma pessoa que costuma estar certa no trânsito, com apenas uma multa de iluminação. No acidente, essa pessoa costuma vir a óbito.

Começamos a questionar: o infrator contumaz está em excesso de velocidade, acostumado a fazer ultrapassagem indevida, se acidenta, e o outro é que morre, mesmo sem histórico de infração. Uma das possibilidades que levantamos, conversando no setor de operações, é que essa pessoa que está sempre correta no trânsito acaba diminuindo o nível de atenção dela. Ela fica relaxada: “Estou respeitando a sinalização, estou tranquila, estou respeitando o limite de velocidade”.

Só que vem alguém do outro lado fazendo uma ultrapassagem indevida e pega essa pessoa de surpresa. Nessa situação de surpresa é que a pessoa puxa o carro, sai da via, capota. Às vezes ela não consegue ter tempo de reação suficiente porque não estava com o nível de alerta alto. Em contrapartida, o outro que já dirige sempre no limite está sempre com o nível de alerta lá em cima. De modo que, se ele fizer uma ultrapassagem indevida, ele já está atento para tentar alguma manobra.

O nível de atenção é uma situação que leva a muitos acidentes também. Nível de atenção, excesso de velocidade e a própria capacidade do veículo. Às vezes a pessoa não observa se o carro dela consegue fazer aquela manobra ou não. Mas os principais que enumeramos são reação tardia ou ineficiente — às vezes a pessoa nem tem tempo de reação — e também o uso do celular.

O acidente com uso do celular vemos acontecendo muito na cidade e também na rodovia, principalmente no perímetro urbano. Mas podemos englobar isso como fatores distratores. Tanto o uso do celular quanto o fato de você estar conversando e não estar atento à via. Tudo isso tem relação com tempo de reação e atenção. 

Você pode colocar aí que mais de 80% — alguns dizem até 90%, dependendo do instrutor da PRF — da incidência dos acidentes advém da conduta humana, da decisão que a pessoa tomou atrás do volante. Uma delas é a pressa. A pessoa está com pressa, saiu atrasada, quer chegar logo, se excede na velocidade e faz manobras de risco, como a ultrapassagem no contexto da rodovia.

E o consumo de álcool hoje ainda é uma preocupação?

Sim, sempre vai ser. Culturalmente, o cidadão brasileiro já ingere muito álcool. Aqui na região Norte temos muito problema com isso também. É cultural: o pessoal que gosta de sertanejo associa a música com bebida. 

Qual é o grande problema do álcool? Antigamente havia uma pequena tolerância, mas não adianta. Uma cerveja para uma pessoa habituada a beber gera um efeito; para quem não está habituado, gera outro. O nível de resistência ao álcool e como ele afeta o organismo de cada pessoa é completamente diferente. Não tem como fazer um controle individual. Mesmo pequenas doses já podem gerar letargia e perda de percepção do condutor.

Nós tivemos um atropelamento ontem (19/02) em Wanderlândia. O que pode ter gerado esse atropelamento? Era 10 horas da noite, baixa visibilidade. A pessoa pode ter tomado uma cerveja. Qual é o efeito? Relaxa, baixa a pressão, pode causar sonolência. Quando vê, a pessoa já não está mais observando direito, mesmo dirigindo dentro da faixa. Pequenas quantidades podem gerar esse efeito.

Então o álcool é um problema, principalmente quando falamos de rodovia, que é uma via de velocidade mais alta. E estamos falando de uma cultura em que muitas pessoas estão habituadas a beber e depois ir para o volante.

No ano passado tivemos mais de 60 mil testes de alcoolemia realizados e mais de 1.100 casos de embriaguez ao volante, entre pessoas que fizeram o teste e aquelas cuja constatação foi feita por sinais. A constatação pode ser feita pelo etilômetro, o bafômetro, ou pelo termo de constatação dos sinais da pessoa.

Se a pessoa não quer fazer o teste ou não está em condições, observamos os sinais. Por exemplo: a pessoa está com olho vermelho, com hálito de álcool, não consegue responder onde está. Temos muitas situações assim na rodovia. Pegamos um carro esses dias que estava tombando em uma região de obra, na beira da rodovia, sinalizada porque tinha um barranco ao lado. O carro ficou beirando ali e está até no estacionamento da PRF.

Neste Carnaval tivemos três casos de pessoas que desrespeitaram a ordem de parada. Em uma situação de sinistro, a equipe em Porto Nacional estava fazendo pare e siga para controlar o trânsito e uma moto passou empinando. Quando fomos abordar, o condutor estava sem CNH e embriagado. São pessoas que desrespeitam a lei de trânsito porque estão embriagadas, e a própria embriaguez já é um problema. Vai juntando uma coisa com a outra. Por isso a embriaguez sempre é um problema e sempre é uma preocupação na fiscalização.

E dá prisão, não é?

Dá prisão. Quando dá prisão? Se a pessoa faz o teste de alcoolemia e o resultado dá até 0,33 miligrama de álcool por litro de ar alveolar, é infração de trânsito. A pessoa vai pagar a multa e terá que chamar alguém para pegar o carro dela.

Se exceder esse limite, a partir de 0,34 miligrama de álcool por litro de ar, a pessoa responde por crime de trânsito. O nível de consumo de álcool é considerado alto. Ela é encaminhada para a Polícia Civil, fica com antecedente, e pode haver detenção de até três anos. Além disso, há multa, pontos na carteira e uma multa de cerca de R$ 3 mil.

Mas quem não paga aquela multa do 0,33 miligrama de álcool por litro de ar alveolar, como é que funciona? Se a pessoa não paga, ela também é presa?

Não. Se o teste dela deu até essa medida, ela vai ser liberada, mas não pode conduzir. A medida administrativa imediata que o policial vai tomar é orientar a pessoa: “A senhora não pode sair daqui dirigindo. Acione um condutor para levar o carro ou o veículo terá que ser removido para o pátio. A senhora terá que sair com um motorista de aplicativo ou outra alternativa”. A pessoa não pode ser liberada para continuar dirigindo pela equipe policial.

Então só acima disso que a pessoa é presa?

Acima disso ela vai ser presa, ou se for feito o termo de constatação de sinais pelo agente também. Por exemplo, se a pessoa está andando de forma desequilibrada, fazendo zigue-zague, são vários fatores que o agente avalia, não é só um. A partir de três ou quatro fatores podemos fazer esse termo de constatação, e a pessoa também será encaminhada para a Polícia Civil e terá que responder na esfera judicial.

Quais são as principais orientações da PRF para quem vai pegar a estrada no Tocantins e quer evitar acidentes?

Todo mundo quer evitar acidentes. A primeira coisa que o condutor precisa pensar é em tudo o que pode dar errado nesse deslocamento. Quando ele já está com essa visão preventiva, vai considerar: meu carro está em condições de trafegar? O horário que eu quero viajar é mais tranquilo ou vai ter muita gente na estrada, o que pode gerar estresse e necessidade de ultrapassagens?

Também tem a questão do descanso, que é fundamental. Muita gente dirige cansada, no final do dia, de madrugada ou à noite. A luminosidade, curiosamente, falando agora do funcionamento do cérebro, é crucial para a pessoa sentir sono ou não. Se ela já está cansada e vai dirigir à noite, uma coisa soma com a outra.

Então o condutor vai observar as condições do carro, o descanso pessoal, a hora do dia mais segura e, aí, no momento do deslocamento, precisa estar atento o tempo todo. Não apenas ao próprio comportamento — se está atento, desperto, respeitando as normas de trânsito e dentro do limite de velocidade — mas também à conduta das outras pessoas na pista. Assim como ele pode sentir sono, o outro também pode. Se alguém jogar o carro para cima dele, ele precisa estar preparado. O que ele vai fazer se estiver na sua faixa e o carro do sentido contrário estiver fazendo uma ultrapassagem e não der tempo?

Quando o condutor tem esse pensamento de prevenção e segurança, melhor ele consegue fazer o deslocamento sem sofrer acidentes. Respeitar o limite de velocidade, a sinalização viária e manter-se atento durante todo o percurso, além de observar a hora do dia mais segura.

Quando falo de atenção, isso envolve não ingerir bebida alcoólica. Bebida, medicamento também pode ser fator. Às vezes a pessoa toma um remédio para enjoo, como um Dramin, e sente sono. Não dá para dirigir assim.

Qual é a importância da manutenção do veículo nesse sentido?

A manutenção do veículo faz com que você não tenha surpresas durante o deslocamento, principalmente se a viagem for longa. Há vários fatores a observar. Se o carro não vai dar uma pane e ficar parado na beira da estrada, por exemplo.

As rodovias do Tocantins, em sua maioria, são de pista simples: uma mão indo, outra voltando, separadas apenas por uma faixa. Além disso, temos acostamentos estreitos. Imagine o carro quebrar numa rodovia de pista simples, com acostamento estreito e só mato ao lado. Imagine você, mulher, parada numa rodovia escura com o carro quebrado, esperando a PRF ou um mecânico chegar. O estresse e os riscos são grandes: alguém pode colidir na traseira do seu veículo, você pode ser atropelada ou até abordada por alguém com más intenções.

As pessoas nem sempre pensam nessa dimensão. Todo mundo sabe que tem que fazer revisão do veículo, mas muitas negligenciam. Não observam o que pode acontecer a partir de um carro parado na beira da rodovia.

Tem também a questão da iluminação. Se a pessoa precisar dirigir à noite, a qualidade do farol é crucial para enxergar o que está à frente. Por exemplo, se há um buraco na pista e o farol está quebrado, funcionando só de um lado, você pode não ver. A 80 ou 100 km/h, passar por cima de um buraco pode fazer perder o controle do carro, corrigir de forma brusca ou sair da pista.

Em situações de emergência, é preciso acionar o sistema de iluminação de emergência, o pisca-alerta. Vemos muitos casos de pessoas que param e não lembram de acender o alerta ou de colocar o triângulo de sinalização, que deve ser posicionado a cerca de 30 metros do veículo. Todo esse equipamento existe por um motivo e precisa estar em dia.

Também entra a questão de lubrificação do veículo, para evitar pane. A potência do carro é outro fator. Se a pessoa sabe que o veículo é menos potente, precisa considerar isso no deslocamento. Aquilo que você comentou sobre o ar-condicionado, por exemplo, pode reduzir a potência.

Pneus carecas, especialmente no período de chuva, aumentam o risco de aquaplanagem. O ideal é trocar o pneu. Existe o TWI, que é o indicador de profundidade no pneu. Esses sulcos permitem que a água escoe e evitam que o carro perca aderência. Quando ocorre aquaplanagem, forma-se uma camada de água entre o pneu e o asfalto.

Sistema de iluminação, potência do veículo, estado dos pneus, troca de óleo, água do radiador, são coisas básicas que influenciam muito. Até o para-brisa e as palhetas do limpador devem estar em boas condições. Em uma chuva forte, se as borrachas estiverem desgastadas, a pessoa pode não enxergar e precisar parar na beira da rodovia.

Numa situação de emergência, a orientação é parar fora da via para evitar colisão traseira e, se possível, esperar a chuva passar.

Os motociclistas e caminhoneiros costumam ser vistos como os mais afetados. Há algum cuidado diferente para eles?

Principalmente os motociclistas. Eles são o grupo mais vulnerável no trânsito. O motivo é claro: não têm para-brisa nem estrutura de proteção como um carro. Quando há colisão, a chance de serem arremessados, sofrer fraturas ou até morrer é muito maior.

Estatisticamente, temos muitos óbitos envolvendo motociclistas. A orientação é evitar ao máximo se envolver em acidentes. Eles precisam estar atentos aos pontos cegos dos veículos grandes, que muitas vezes não percebem a motocicleta. A moto acelera e reduz a velocidade com facilidade, o que também faz com que apareça e desapareça no trânsito rapidamente.

O motociclista atento sabe disso e procura deixar sua presença mais evidente para os outros condutores.

Não à toa, em alguns estados do Brasil, os motociclistas já passam buzinando na cidade para alertar. Na rodovia, como ele vai fazer isso? Vai procurar manter distância dos outros veículos e vai se comportar o mais semelhante a um carro possível. 

Exemplo: às vezes estamos dirigindo na rodovia e o motociclista acha que vai estar mais seguro se ficar bem na beirinha da pista, quase no acostamento. E não. Aquilo vai fazer com que os carros não façam uma ultrapassagem correta, que é deslocar para a outra faixa e depois voltar para a pista. Isso faz com que, ao passar pelo motociclista, o veículo passe muito perto dele. O que o motociclista pode fazer, então, para não ser jogado na pista? Ele tem que ficar no meio da faixa. No meio da faixa ele vai se comportar como um carro e o outro veículo vai ter que fazer a ultrapassagem, vai ter que se distanciar devidamente dele.

Ele também vai procurar manter maior distância dos outros veículos, ou ele vai passar logo do veículo ou vai permitir que o veículo passe logo por ele. Ele mantém a distância porque isso faz com que ele entre no raio de visão de um caminhoneiro, por exemplo.

Quais são as ações de fiscalização e educação para o trânsito que a PRF tem intensificado para reduzir os acidentes?

Hoje temos um grupo de educação para o trânsito, o Getran, que é focado justamente nessas ações. Com frequência, fazemos o cinema rodoviário, por exemplo, que é uma das nossas principais ações de educação para o trânsito.Como ele funciona? Abordamos os veículos, fazemos a fiscalização e convidamos os condutores para uma roda de conversa com a PRF. Passamos alguns vídeos de acidentes nas rodovias justamente para falar sobre os fatores que levaram a esse acidente.

Quando as pessoas observam e param para refletir sobre isso, é como se estivessem ativando o córtex frontal, que é a região responsável pela tomada de decisão e pela análise crítica.

Qual é o grande problema da condução do carro? Entramos em modo automático. É algo tão automatizado que você não reflete muito quando está dirigindo, você só toma a decisão.

Essa roda de conversa é justamente o momento em que pegamos o motorista no meio da viagem e fala: “Olha isso aqui, o que vocês acham que levou a esse acidente?”

Muitos ficam impressionados: “Como isso aconteceu?” Mas é desse jeito mesmo. Nessa conversa, estimulamos as pessoas a refletirem melhor sobre as decisões que tomam ao volante e sobre o que leva à ocorrência de um acidente. Aí o condutor volta para a via mais atento.

O cinema rodoviário, portanto, é uma dessas ações de educação para o trânsito.
Além dele, toda abordagem da PRF hoje tem como metodologia não somente autuar um condutor, mas explicar para ele os riscos, por exemplo, de andar com o farol queimado. São alguns dos exemplos que eu dei aqui.

Uma criança, às vezes, está na cadeirinha, mas ela não está bem fixada. Qual é a utilidade de uma cadeirinha se a criança está sentada nela e a cadeirinha está solta no carro? A frenagem pode segurar a criança, mas a cadeira está solta e vai se deslocar com a criança.

Então, nas abordagens da PRF hoje, procuramos trabalhar o porquê daquela fiscalização estar sendo feita dessa forma. Isso também faz parte da educação para o trânsito.

A PRF é nacional, enquanto a PM não é, pois cada estado tem a sua. Às vezes tenho a impressão de que vocês podem atuar em diferentes estados, com policiais sendo transferidos de um lugar para outro pelo país. Nessas mudanças, vocês percebem se o comportamento no trânsito do tocantinense é diferente do de pessoas de outros estados, como, por exemplo, do Rio Grande do Sul?

Converso muito com outros colegas que já estiveram em vários estados e, Elaine, cada estado tem suas especificidades, culturas diferentes, e isso se reflete no trânsito também. Eu tive instrutor no curso de formação da PRF, por exemplo, que trabalhou anos no Pará. O Pará tem como característica muita irregularidade de pessoas conduzindo motocicleta sem CNH, pilotando sem capacete ou com chinelo. Muitas situações que existem em algumas regiões não vão existir em outras.

Ele saiu do Pará e foi para Santa Catarina, e a fiscalização mudava completamente de característica. Não tinha os mesmos problemas que existiam naquela região.

Outro exemplo: aqui na PRF do Tocantins estamos muito em perímetro urbano, então faz muita fiscalização de trânsito. É uma PRF que está mais próxima das cidades.

Em Mato Grosso do Sul, existem grandes vazios demográficos, de modo que, para chegar de uma cidade a outra, a pessoa percorre 200 km sem ver uma casa ou uma pessoa na via, e a PRF está bem no meio desse deslocamento. Então a PRF acaba sendo um porto seguro para quem está viajando, porque a pessoa pode ter um problema mecânico no carro e o mecânico mais próximo está a mais de 100 km de distância.

Ali é uma polícia mais voltada para a fronteira, para o combate à criminalidade, não tanto para fiscalização de trânsito.

Então, por ser uma polícia federal, nacional, a PRF precisa se adaptar muito à demanda de cada região. Na Região Norte as demandas são umas. Nas áreas de fronteira, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, são outras. No Rio de Janeiro e em São Paulo é diferente, assim como no Espírito Santo e no Sul.

Isso vem da demanda regional, da cultura local e daquilo que o próprio condutor da região mais vai precisar de nós; 

E como podemos colaborar para ter um trânsito mais seguro? 

Partindo do princípio de que a segurança é uma responsabilidade de todos nós. O condutor que vai fazer um deslocamento deve estar preocupado com como chegar ao destino de forma tranquila, sem imprevistos.  É importante se adiantar no deslocamento e verificar se quem está viajando com ele está em segurança também: se todos os passageiros estão com cinto de segurança, se os filhos estão com dispositivo de retenção, seja bebê-conforto, cadeirinha ou assento de elevação adequado. Também é necessário prever fatores que podem acontecer no meio do deslocamento e que podem atrapalhar a segurança, tanto da própria conduta, como sentir sonolência ou estar com pressa, quanto da conduta de outras pessoas que estejam transitando na rodovia.

Quando o condutor se precaver e prever tudo que pode dar errado, desde as condições climáticas até o sono ou o horário do deslocamento, ele consegue se antecipar para esses problemas e resolvê-los antes que aconteçam, chegando ao destino com mais segurança.

O que o motorista deve fazer ao presenciar um acidente em rodovia federal?

Essa é uma pergunta importante. Já tivemos situações em que alguém quis parar para ajudar em um acidente e acabou sofrendo outro acidente também.
Estamos numa rodovia e o trânsito não vai parar porque tem um acidente acontecendo. As pessoas continuam dirigindo, muitas vezes em alta velocidade.

Então, quem vai parar deve observar primeiro a própria segurança: onde vai parar, se será fora da rodovia ou no acostamento, e se, ao descer do carro, haverá risco de outro veículo passando.
A primeira preocupação deve ser com a própria segurança. Aconselhamos parar fora da via, em um acesso à chácara ou a um posto, por exemplo. Tirar o carro da via já reduz a chance de colisão traseira ou com o próprio veículo.

Ao descer do carro, observar se não há outro veículo se aproximando. Outra questão é acionar imediatamente a PRF, o SAMU ou os serviços de emergência, para que haja atendimento eficiente para a vítima.

Então, observar a própria segurança, parar o carro fora da via, tomar cuidado ao descer do veículo e acionar imediatamente os órgãos de segurança pública e emergência.

Qual é o canal da PRF?

É o 191. É a nossa central, que vai fazer o direcionamento do atendimento para a equipe mais próxima daquele acidente.

É muito importante que o contato seja feito diretamente pelo 191, porque já tem todos os trâmites para enviar a equipe.

Outra coisa importante é a sinalização. Às vezes a pessoa que se acidentou está inconsciente e não consegue fazer a própria sinalização do acidente. Se alguém parar para ajudar, pode colocar um triângulo a cerca de 30 metros do veículo, se ele estiver sobre a via, de preferência nos dois sentidos, para sinalizar que há um veículo parado e acidentado. Isso ajuda a evitar que outros acidentes aconteçam.

A omissão de socorro é penalizada no condutor que causou o acidente e não prestou socorro. Por exemplo, se o motorista estiver embriagado, colidir com um ciclista ou com outro veículo e não parar, isso configura omissão de socorro. Para quem está apenas trafegando pela rodovia, é mais difícil caracterizar isso.