O Tocantins procura sua esquerda
14 junho 2026 às 17h30

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Com exceção da candidatura do PSOL, principais projetos colocados para a sucessão estadual ocupam espaços entre o centro-direita e a direita, o que tende a concentrar o debate eleitoral em pautas conservadoras e econômicas
A menos de quatro meses da eleição, a disputa pelo governo do Tocantins apresenta uma característica que ajuda a explicar não apenas quem são os candidatos colocados na corrida pelo Palácio Araguaia, mas também quais temas tendem a dominar a campanha. Embora existam diferenças de trajetória, discurso e alianças, as principais pré-candidaturas ao governo estão posicionadas entre o centro-direita e a direita. O resultado é uma sucessão estadual em que a disputa ocorre, em grande medida, dentro do mesmo campo político, enquanto a esquerda busca formas de manter espaço e influência no debate.
A senadora Dorinha Seabra (União Brasil), líder nas articulações da base governista, construiu sua trajetória mais pela capacidade de diálogo e composição do que por uma identidade ideológica claramente definida. Ao longo da carreira, transitou por diferentes governos e evitou vinculações rígidas a campos políticos. Ainda assim, parte importante das lideranças que sustentam sua pré-candidatura está associada ao eleitorado conservador e ao bolsonarismo. O senador Eduardo Gomes (PL), um dos principais defensores de sua candidatura, foi líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso e segue como uma das referências desse grupo político no estado.
O deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB) ocupa outro espaço dentro desse mesmo espectro. Diferentemente de Dorinha, sua identificação com a direita é mais explícita. Crítico frequente do governo Lula, defensor da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e aliado de pautas defendidas pelo bolsonarismo, Vicentinho construiu sua imagem pública em oposição à esquerda. Se Dorinha reúne parte das lideranças conservadoras, o deputado busca dialogar diretamente com um eleitorado que se reconhece ideologicamente nesse campo.
Ataídes Oliveira (Novo) reforça esse movimento. Empresário e pré-candidato ao governo, ele chega à disputa associado ao discurso liberal que caracteriza o partido. A defesa da redução do tamanho do Estado, do controle dos gastos públicos, da liberdade econômica e do fortalecimento da iniciativa privada o posiciona em um segmento que também disputa o eleitorado de direita. Sua presença amplia a fragmentação desse campo político, mas não altera a predominância conservadora que marca a corrida eleitoral.
O caso do vice-governador Laurez Moreira (PSD) é mais complexo. Embora seu partido avance nas conversas para uma aliança com o PT, sua trajetória política nunca esteve associada à esquerda. Ex-prefeito de Gurupi e atual vice-governador, Laurez construiu sua carreira em ambientes políticos mais próximos do centro e do centro-direita. A aproximação com os petistas atende a uma lógica de composição eleitoral e ampliação de alianças, mas não transforma automaticamente a identidade política do projeto que vem sendo construído para 2026.
A própria composição discutida entre PSD e PT ajuda a ilustrar essa situação. A senadora Kátia Abreu, hoje filiada ao PT e cotada para disputar uma das vagas ao Senado, tornou-se aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos anos, mas construiu sua trajetória como uma das principais lideranças do agronegócio brasileiro. O senador Irajá Abreu, que integra o mesmo grupo político, mantém interlocução com o governo federal e vota com o Planalto em diversas matérias, mas também não é identificado com as correntes tradicionais da esquerda. O resultado é uma possível aliança em que o PT ganha espaço institucional sem necessariamente deslocar o eixo ideológico da chapa para o campo progressista.
Essa configuração eleitoral influencia diretamente o conteúdo da campanha. Com a maioria das candidaturas situada entre o centro-direita e a direita, temas como agronegócio, segurança pública, infraestrutura, ambiente de negócios, responsabilidade fiscal, atração de investimentos e eficiência administrativa tendem a ocupar posição central nos debates. São pautas que dialogam com a estrutura econômica do Tocantins e com uma parcela significativa do eleitorado estadual.
Em contrapartida, pautas mais associadas ao campo progressista aparecem com menos protagonismo entre os principais concorrentes ao Palácio Araguaia. Temas como ampliação de programas sociais, redução das desigualdades, políticas afirmativas, inclusão educacional, fortalecimento de mecanismos de proteção social, agenda ambiental e maior participação do Estado na promoção do desenvolvimento econômico tendem a ocupar espaço mais restrito na disputa. Nos últimos anos, esse conjunto de bandeiras passou a incorporar também debates sobre regulação de setores como o mercado de apostas, combate à concentração de renda e até mesmo a defesa da soberania nacional em disputas econômicas e comerciais. Na eleição tocantinense, essas pautas aparecem concentradas principalmente na candidatura de Witer Naves pelo PSOL e na influência que o PT poderá exercer dentro de uma eventual aliança com o PSD.
Ex-petista e militante histórico da esquerda tocantinense, Witer surge como o único pré-candidato ao governo cuja identidade política está claramente vinculada ao campo progressista. Sua candidatura passa a ocupar um papel que vai além da disputa eleitoral propriamente dita. Ela se torna também o principal instrumento de representação de pautas que aparecem de forma mais periférica entre os demais concorrentes.
A situação cria um desafio para o próprio PT. Caso a aliança com o PSD seja confirmada, os petistas terão de equilibrar dois objetivos distintos: participar de uma chapa considerada competitiva e, ao mesmo tempo, preservar a visibilidade de suas bandeiras históricas. A questão não envolve apenas a distribuição de cargos ou espaços na chapa majoritária, mas também o peso que pautas tradicionalmente defendidas pela esquerda terão na construção do discurso eleitoral.
A eleição de 2026, portanto, parece menos uma disputa entre direita e esquerda e mais uma disputa entre diferentes versões da direita tocantinense. Dorinha representa uma construção política ampla e pragmática; Vicentinho busca o eleitorado conservador mais identificado com o bolsonarismo; Ataídes aposta na agenda liberal do Novo; e Laurez tenta construir uma aliança que amplia seu campo político sem alterar substancialmente sua trajetória de centro. Nesse cenário, a esquerda chega à campanha diante de uma escolha estratégica: preservar identidade própria por meio de uma candidatura claramente progressista ou buscar influência dentro de projetos mais amplos. Enquanto essa definição acontece, o debate eleitoral tende a ser conduzido principalmente por candidaturas que falam, em diferentes intensidades, para o mesmo campo político.
