A Polícia Civil concluiu o inquérito que investiga a morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, e indiciou o pai da criança, o advogado Igor Veloso de Sousa, por quatro crimes: vicaricídio, estupro de vulnerável, tortura e fraude processual. A madrasta, Kathellen Moreira, foi indiciada por vicaricídio e fraude processual.

O anúncio foi feito pelo delegado Eduardo Menezes, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), durante coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira, 28. Segundo a Polícia Civil, o enquadramento inicialmente tratado como homicídio qualificado foi alterado ao longo da investigação diante dos elementos reunidos no inquérito.

A investigação aponta que Gustavo morreu após sofrer agressões dentro da residência onde estava com o pai e a madrasta, em Palmas. O caso ocorreu em 2 de agosto de 2026. Igor e Kathellen estão presos desde 5 de agosto.

De acordo com Menezes, o crime de vicaricídio passou a integrar o enquadramento porque, segundo a investigação, a violência contra Gustavo estaria relacionada ao histórico de conflitos entre Igor e Sabrina da Silva Feitosa, mãe da criança. O crime foi incluído no Código Penal pela Lei nº 15.384/2026 e prevê punição para a morte de descendente, ascendente, dependente, enteado ou pessoa sob os cuidados da vítima em contexto de violência doméstica ou familiar contra a mulher, quando o objetivo é causar sofrimento, punição ou controle sobre ela.

“Isso teria causado um descontrole muito grande, somado à ingestão de bebida alcoólica e de medicamento controlado. Ele teria se descontrolado e passado [a desferir] chutes, socos na barriga e cabeça, ali mesmo na área externa da casa”, relatou o delegado.

Delegado Eduardo Menezes | foto: Elâine Jardim

Versão apresentada pelo pai

Segundo a Polícia Civil, Igor foi novamente interrogado durante a investigação e apresentou uma versão para o que aconteceu no dia da morte. Conforme o delegado, ele afirmou que Gustavo teria ido para a área da piscina, pulado na água sem saber nadar e começado a se afogar.

Igor disse que retirou o filho da piscina e, em seguida, ficou irritado porque, segundo a versão apresentada por ele, a criança teria dito que a mãe havia autorizado o banho.

Ainda de acordo com o relato apresentado à polícia, Igor admitiu ter ingerido bebida alcoólica e feito uso de medicamento controlado naquele dia. Ele teria reconhecido que perdeu o controle e agrediu o filho com chutes e socos na região da cabeça e da abdôme.

A Polícia Civil, porém, afirma que a violência não terminou na área externa da casa. Segundo Menezes, as agressões continuaram dentro do quarto e provocaram lesões graves.

A versão apresentada por Igor também sustenta que, depois das agressões na área externa, o menino teria sido levado para dentro da residência, onde teria sido lavado, alimentado e colocado para dormir. A polícia contesta essa narrativa e afirma ter encontrado elementos que apontam para a continuidade das agressões.

Estupro de vulnerável e tortura

Além do vicaricídio, Igor foi indiciado por estupro de vulnerável e tortura. Segundo a Polícia Civil, exames periciais identificaram lesões na região anal da criança que, de acordo com a investigação, não seriam compatíveis apenas com agressões físicas.

“Ele tentou justificar que as lesões no ânus do menino teriam sido em razão das pancadas. Isso será rechaçado tecnicamente com a nova solicitação direcionada ao perito. A forma como as lesões são necessariamente causadas pela inserção de objetos”, afirmou Menezes.

A Polícia Civil informou ainda que o exame pericial apontou que Gustavo estava vivo quando as lesões foram provocadas. Para o delegado, esse elemento sustenta também o indiciamento por tortura.

Segundo Menezes, a tortura foi considerada um crime autônomo na investigação porque as lesões atribuídas a essa prática não teriam sido a causa direta da morte da criança.

Polícia aponta alteração da cena da morte

A investigação também apontou, segundo a Polícia Civil, uma tentativa de alterar a cena após a morte de Gustavo. A suspeita é de que o corpo tenha sido organizado para criar a aparência de que a criança havia sido encontrada morta enquanto dormia.

“Ficou claro que houve movimentação na cena do crime. Ajeitaram o corpo do menino para parecer que acordaram e encontraram ele morto. Essa alteração configura fraude processual”, explicou o delegado.

A fraude processual também integra o indiciamento de Kathellen Moreira. A Polícia Civil afirma que a madrasta estava na residência no momento dos fatos e teria participado da alteração da cena.

Mudança na investigação

No início da apuração, a Polícia Civil trabalhava com a hipótese de homicídio qualificado e tortura. Com o avanço da investigação, o enquadramento foi ampliado para incluir o estupro de vulnerável, a fraude processual e o vicaricídio.

Segundo o delegado Eduardo Menezes, a mudança para vicaricídio ocorreu após a análise do histórico de violência e conflitos entre Igor e Sabrina. A polícia afirma que havia registros de episódios anteriores envolvendo ameaças, agressões e disputas relacionadas à convivência do pai com o filho.

A investigação apontou ainda que Gustavo teria apresentado sinais de agressões em períodos anteriores às visitas ao pai. Fotografias e vídeos foram analisados pela polícia durante o inquérito.

Pai e madrasta seguem presos

Igor e Kathellen foram presos em 5 de agosto, três dias após a morte da criança. Segundo a investigação, o pedido de prisão foi apresentado à Justiça 48 horas depois do crime.

A Polícia Civil informou que, quando foram detidos, os dois já haviam escondido aparelhos celulares. A defesa de Kathellen apresentou dois pedidos de habeas corpus, mas ambos foram negados pela Justiça.

A Polícia Civil concluiu o inquérito com o indiciamento dos dois investigados e encaminhou o procedimento à Justiça para as providências cabíveis.

Investigação contra mãe e advogada foi encerrada

Paralelamente ao inquérito que apurou a morte de Gustavo, a Polícia Civil abriu uma investigação para verificar se houve omissão por parte da mãe da criança e da advogada dela diante de relatos de possíveis agressões sofridas pelo menino durante o período de convivência com o pai.

Nesta segunda-feira, 28, a Justiça determinou o trancamento da investigação contra Sabrina da Silva Feitosa e contra a advogada Stella Bueno. A decisão considerou não haver justa causa para a continuidade da apuração.

Segundo a Polícia Civil, a investigação contra as duas não tratava de participação na morte de Gustavo, mas de uma possível omissão prevista na Lei Henry Borel, que estabelece o dever de comunicar às autoridades situações de violência contra crianças e adolescentes.

A polícia afirmou que, apesar de ter identificado atendimentos e relatos relacionados ao menino, concluiu que o histórico de violência doméstica e o contexto de medo relatado pela mãe deveriam ser considerados. No entanto, para a polícia, a advogada deveria ter agido para proteger o menino. Com a decisão judicial, o procedimento contra Sabrina e a advogada foi encerrado, embora a decisão ainda possa ser questionada pelas vias cabíveis.