PF encontra “linha de montagem” digital usada para criar documentos de créditos do Banco Master; veja detalhes
14 setembro 2026 às 09h38

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A Polícia Federal identificou uma estrutura de produção em massa de documentos dentro do Banco Master que, segundo a investigação, teria sido usada para dar aparência de legitimidade a créditos consignados atribuídos à Tirreno Consultoria e posteriormente apresentados ao Banco de Brasília (BRB). A operação combinava dados reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos pela área de tecnologia e edição de arquivos digitais para formar conjuntos documentais que simulassem operações de crédito.
O funcionamento da estrutura foi detalhado em um relatório técnico-pericial elaborado pela PF a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. Intitulado “Investigações internas – Banco Master”, o arquivo tem 30 slides e registra atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 relacionadas à produção de documentos para a cessão de créditos consignados ao BRB.
Segundo os investigadores, a documentação era montada a partir de informações de operações reais e antigas. Dados de clientes eram extraídos dos sistemas internos, inseridos em planilhas e utilizados para preencher novos documentos. Procurações eram produzidas em lote, páginas de assinaturas eram separadas de arquivos originais e diferentes peças eram posteriormente reunidas em novos PDFs.
A perícia também encontrou indícios de que informações capazes de revelar a origem dos arquivos ou a data em que haviam sido produzidos eram retiradas. Em um dos documentos analisados, um Termo de Consentimento que originalmente apresentava a data de 24 de fevereiro de 2023 teve esse registro removido em julho de 2025.
A primeira etapa identificada pela investigação consistia na obtenção de dados de pessoas que já haviam realizado operações legítimas. Entre as informações utilizadas estavam registros relacionados ao CredCesta, produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de tecnologia, um levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams.
Vinicius reuniu os dados no arquivo “cpf_cessao.csv” e, no dia seguinte, executou a consulta “Contratos_Henrique_Dados.sql” no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha “Dados_cessão.xlsx”, enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho.
A planilha continha informações cadastrais, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. De acordo com a perícia, esses dados passaram a ser utilizados na elaboração dos documentos que comporiam as operações atribuídas à Tirreno.
As conversas entre integrantes da área de tecnologia indicam, porém, que a própria base utilizada apresentava inconsistências. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados. Rafael observou que havia um CPF associado a apenas uma proposta de 2019 e afirmou que a lista estava “meio furada”. A troca de mensagens, segundo a PF, demonstra que os responsáveis pelo tratamento dos dados identificavam incompatibilidades na base que seria utilizada na produção dos documentos.
Procurações foram produzidas em lote
Depois da obtenção dos dados, a estrutura utilizava ferramentas convencionais de escritório para produzir documentos em grande quantidade. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, recorreu à função de mala direta do Microsoft Word.
O recurso permite associar um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos de acordo com os registros disponíveis. No caso investigado, Allan vinculou o arquivo “PROCURACAO Master.docx” à planilha “Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx”, armazenada na pasta “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. Com esse procedimento, foram produzidas 2.700 procurações em 20 de junho de 2025, conforme os registros analisados pela perícia.
A ferramenta permitia, assim, reproduzir a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de registros sem que cada peça precisasse ser elaborada individualmente. A área de tecnologia também participou do tratamento dos documentos. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. aparecem relacionados ao desenvolvimento de aplicações em C# armazenadas no repositório GitHub do Banco Master.
Uma das funções identificadas pela perícia permitia extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, que correspondia à página de assinatura dos documentos originais. Outro arquivo analisado pelos investigadores foi um pacote chamado “erros-whatsapp.zip”, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. O material continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento. Para a PF, o procedimento permitia que essas páginas fossem posteriormente utilizadas na composição de novos conjuntos documentais.
CCBs foram assinadas posteriormente às datas indicadas
As Cédulas de Crédito Bancário, conhecidas como CCBs, também passaram por esse processo. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva participaram da extração de lotes de documentos do sistema idtrust, com arquivos identificados pela raiz “CCB_credcesta_…”.
Em 20 de junho, Fabrizio organizou pelo Teams uma força-tarefa para a assinatura dos documentos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.
As assinaturas foram realizadas por meio do Adobe Acrobat Reader, utilizando certificado digital corporativo do Banco Master e certificado individual de Allan Machado.
Foi nessa etapa que a perícia encontrou diferenças entre as datas indicadas nos documentos e os registros das assinaturas digitais. Em determinados arquivos, o texto da CCB indicava uma data anterior, como 21 de janeiro de 2025. O registro criptográfico, porém, apontava que a assinatura havia sido realizada em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
A divergência permitiu aos peritos estabelecer que determinados documentos apresentados como anteriores haviam sido assinados posteriormente.
A investigação também identificou pedidos para remover informações de data e horário dos Termos de Consentimento. Em uma conversa no Teams, em 20 de junho, Allan Machado solicitou a Moacir Lourenço da Silva Junior que retirasse a data dos documentos. Um dos exemplos encontrados pela perícia envolve um Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O arquivo apresentava originalmente o registro de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, a informação foi retirada visualmente do documento.
A alteração, entretanto, não eliminou todos os vestígios digitais. Outros registros do arquivo e das assinaturas permitiram aos peritos reconstruir parte da cronologia dos documentos.
Documentos eram reunidos em novos PDFs
Depois da produção e edição das peças, os diferentes arquivos eram reunidos em um único documento.
Allan utilizou o PDF24 para combinar CCBs, procurações e Termos de Consentimento em arquivos individuais. Os documentos eram armazenados em pastas de rede identificadas como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras”.
Dessa forma, documentos produzidos ou modificados separadamente eram apresentados como um conjunto documental correspondente a determinada operação. A tentativa de modificar informações não ficou restrita aos contratos e termos. A PF encontrou conversas sobre alterações em comprovantes de transferências realizadas por SPB e Pix.
Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a retirada de informações dos comprovantes. Entre os dados que deveriam desaparecer estavam o evento, o número do contrato e o histórico da operação.
Os documentos continham referências como “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”, capazes de relacioná-los às operações originais. As mensagens também mostram dificuldades para executar a alteração em grande quantidade. Romy afirmou que conseguia modificar alguns arquivos, mas que não seria possível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes.
A situação evidencia uma diferença entre as etapas da produção documental. Enquanto procurações e outros arquivos podiam ser gerados ou tratados em lote, a alteração gráfica de milhares de comprovantes apresentava limitações quando dependia de edição manual.
Auditoria da Deloitte foi discutida nas mensagens
As conversas analisadas pela investigação mostram ainda que os funcionários discutiam como responder a questionamentos da auditoria. Em 23 de junho, Fabrizio informou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a Deloitte estava solicitando informações. Segundo a PF, Alberto respondeu que a inconsistência deveria ser atribuída a “erro operacional na seleção”.
Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam tratado do envio à auditoria de documentos relacionados à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Entre os arquivos solicitados estavam CCBs e Termos de Consentimento.
Documentação chegou a Daniel Vorcaro
A PF também identificou o envio de amostras da documentação produzida durante o processo.
Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”. Alberto respondeu que providenciaria o material e informou posteriormente que, naquele momento, tinha acesso apenas às CCBs, enquanto Allan enviaria os links das procurações e das assinaturas. Na sequência, foram compartilhados arquivos relacionados ao conjunto documental.
Segundo a investigação, portanto, a produção dos documentos não estava limitada aos funcionários envolvidos diretamente na montagem. Amostras chegaram também à direção do banco.
Relação entre Tirreno, Master e BRB
A investigação da Polícia Federal relaciona a produção dos documentos à cessão de créditos atribuídos à Tirreno Consultoria. Segundo os investigadores, a empresa teria sido utilizada para formalizar aproximadamente R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de créditos consignados. A PF aponta que a Tirreno não possuía estrutura compatível com o volume das operações investigadas. A empresa teria sido constituída com capital social de R$ 100 e, segundo a investigação, funcionava sem sede e funcionários.
A estrutura documental identificada no Banco Master seria utilizada para dar suporte às operações apresentadas como créditos da Tirreno. Esses ativos teriam sido posteriormente negociados com o BRB. A investigação também apura irregularidades em operações que envolveram bilhões de reais em créditos atribuídos à empresa.
Como a estrutura funcionava
A partir dos elementos reunidos pela perícia, a PF identificou uma sequência que começava com a extração de dados de clientes e terminava na formação de dossiês digitais. Primeiro, informações de operações anteriores eram retiradas dos sistemas internos. Depois, os dados alimentavam planilhas utilizadas para gerar documentos em massa. Páginas de assinatura eram separadas de arquivos originais e CCBs eram submetidas a assinaturas digitais.
Na etapa seguinte, informações como datas e horários eram retiradas de determinados arquivos. Por fim, CCBs, procurações, termos e outros documentos eram reunidos em novos PDFs e organizados nas pastas relacionadas às demandas do BRB e da Tirreno. A tecnologia empregada incluía banco de dados e consultas SQL para obtenção das informações, Excel e Word para organização e produção dos documentos, aplicações em C# para tratamento dos PDFs, Adobe Acrobat para assinaturas digitais e PDF24 para montagem dos arquivos finais.
Apesar das alterações, a perícia encontrou registros que permitiram comparar as informações visíveis nos documentos com os metadados, registros de edição e assinaturas digitais.
A diferença entre as datas indicadas nas CCBs e os momentos registrados nas assinaturas digitais foi um dos elementos utilizados para reconstruir a cronologia. O relatório também aponta que a retirada visual de determinadas informações não eliminou necessariamente os registros digitais associados aos arquivos. Para a Polícia Federal, o conjunto desses elementos indica que a documentação era produzida, modificada e organizada para apresentar como anteriores operações que, segundo os registros digitais analisados, tiveram documentos produzidos ou assinados posteriormente.
