A promessa de Eduardo Siqueira Campos (Podemos) de trabalhar para que Dorinha Seabra (União Brasil) obtenha em Palmas sua maior vantagem na disputa pelo Governo do Tocantins passa por um teste dentro da própria administração municipal. Principal fiador da candidatura da senadora na capital, o prefeito enfrenta duas frentes de oposição que intensificaram a fiscalização sobre sua gestão nos últimos meses: o Coletivo Somos e o vereador Vinícius Pires (Republicanos).

A pressão ocorre justamente no maior colégio eleitoral do Estado. Palmas tem 218.504 eleitores, cerca de 18% dos 1,18 milhão de tocantinenses aptos a votar neste ano, segundo o Tribunal Regional Eleitoral. É nesse eleitorado que Eduardo assumiu uma responsabilidade que vai além do apoio formal. Ao declarar voto em Dorinha no início de agosto, afirmou que não abre mão de que a candidata tenha na capital “a maior diferença do Tocantins”.

A capacidade do prefeito de cumprir a promessa, porém, passa pela avaliação de sua própria gestão. É nesse ponto que Somos e Vinícius, por caminhos distintos, tentam ocupar espaço. Não se trata de uma atuação conjunta nem de uma ofensiva coordenada entre os dois. O efeito político, no entanto, converge: ambos mantêm a prefeitura sob fiscalização e levam problemas da administração para o debate público em pleno período eleitoral.

O caso do Somos tem um componente adicional. O coletivo não começou o mandato na oposição. Apoiou Eduardo no segundo turno de 2024, integrou sua base na Câmara Municipal e teve participação no Executivo por meio da Secretaria Extraordinária da Igualdade Racial e Direitos Humanos. A ruptura ocorreu em junho, após a crise aberta pelas investigações sobre a terceirização das Unidades de Pronto Atendimento de Palmas. O grupo entregou os cargos que mantinha na prefeitura e passou à oposição.

A mudança ocorreu depois da Operação Falsa Emergência, da Polícia Civil, que investiga a contratação da Santa Casa para administrar as UPAs. A apuração levou à prisão da então secretária municipal de Saúde, Dhieine Caminski, e atingiu uma das áreas mais sensíveis da administração. A investigação não autoriza atribuir irregularidades ou crimes ao prefeito sem decisão que sustente essa conclusão, mas produziu consequências políticas dentro da própria base que havia ajudado Eduardo a chegar ao Paço.

Desde o rompimento, o Somos passou a adotar uma fiscalização mais frequente e organizada. A educação tornou-se uma das áreas de cobrança. Nesta semana, o coletivo pediu à Secretaria Municipal da Educação a abertura de processo administrativo disciplinar para apurar suspeitas relacionadas à apresentação de diplomas ou títulos no processo de escolha de diretores da rede. O assunto também está sob apuração do Ministério Público.

O grupo também levou a fiscalização para ruas e bairros, com registros sobre pavimentação, iluminação, mato e outros problemas de infraestrutura. É uma estratégia diferente daquela limitada ao plenário da Câmara: a cobrança é levada ao local, registrada em vídeo e distribuída nas redes sociais. Com isso, temas administrativos passam a disputar espaço com a comunicação oficial da prefeitura sobre obras e serviços.

Vinícius Pires segue outro percurso. Sua oposição não nasceu da crise das UPAs e antecede o rompimento do Somos. Nos últimos meses, o vereador, que disputa uma cadeira na Assembleia Legislativa, tem concentrado parte de sua atuação em documentos, ações judiciais, representações e provocações ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas.

A terceirização das UPAs é o exemplo de maior repercussão. Vinícius questionou o contrato de cerca de R$ 139 milhões firmado para a gestão das unidades e ajuizou ação popular sobre a contratação. Depois, a Polícia Civil abriu a Operação Falsa Emergência para investigar o caso e o Tribunal de Contas adotou medidas cautelares relacionadas ao contrato. A atuação do vereador e as investigações dos órgãos públicos são procedimentos distintos e não devem ser tratados como relação direta de causa e efeito.

A estratégia de Vinícius, porém, mantém temas da administração sob análise externa ao Legislativo. O vereador também levou questionamentos sobre atos da prefeitura a órgãos de controle em outros episódios. Com isso, construiu uma oposição menos dependente do confronto político direto com Eduardo e mais associada à fiscalização de contratos, gastos e decisões administrativas.

As duas frentes têm características diferentes. O Somos passou de aliado a adversário e conhece a administração a partir da experiência de quem participou da base. Vinícius sempre esteve do outro lado e transformou denúncias, representações e ações em uma das marcas do mandato. Enquanto o coletivo procura conectar fiscalização parlamentar a problemas percebidos nos bairros e serviços municipais, Vinícius mantém pressão sobre atos administrativos por meio dos órgãos de controle.

Essa combinação pode ter efeito sobre uma tarefa eleitoral que o próprio Eduardo tomou para si. Prefeitos não transferem votos automaticamente a seus candidatos, assim como desgaste administrativo não significa rejeição imediata ao nome que apoiam. O problema para Dorinha surge caso a campanha de Eduardo pela senadora passe a dividir espaço com uma discussão permanente sobre a qualidade da própria gestão.

A prefeitura tenta responder a essa disputa com entregas. Eduardo tem anunciado investimentos em pavimentação, mobilidade, educação e ampliação de serviços. Obras de infraestrutura continuam em execução em diferentes regiões da cidade, enquanto a administração projeta novas unidades educacionais e ampliação de vagas. O resultado político dependerá também da capacidade do Paço de fazer essas entregas chegarem ao eleitor antes que problemas locais se consolidem como uma avaliação negativa da gestão.

Vereadores

Dorinha também não depende exclusivamente do prefeito na capital. A senadora construiu apoio entre vereadores e lideranças de Palmas e chega à disputa com uma rede política própria. Em abril, uma reunião na Câmara Municipal reuniu a maioria dos vereadores em apoio à então pré-candidatura ao governo. A capilaridade reduz a dependência de um único aliado, ainda que Eduardo seja o principal nome institucional de sua campanha no município.

É justamente a dimensão de Palmas que aumenta o peso dessa disputa paralela. Com aproximadamente um em cada cinco eleitores tocantinenses, uma vantagem expressiva na capital pode compensar perdas em outras regiões; uma votação abaixo da esperada pode obrigar a candidatura a buscar diferença maior no interior.

Somos e Vinícius não precisam derrotar politicamente Eduardo para criar dificuldade. Basta que consigam manter educação, saúde, asfalto, contratos e serviços municipais no centro da discussão enquanto o prefeito tenta usar seu capital político para pedir votos a Dorinha. Do outro lado, Eduardo precisa demonstrar que as crises e cobranças não comprometeram sua capacidade de mobilização.

A eleição estadual cria, assim, uma segunda disputa dentro de Palmas. Enquanto Dorinha tenta transformar a estrutura política reunida pelo prefeito em votos para o Palácio Araguaia, a oposição municipal trabalha para submeter a gestão de Eduardo a uma fiscalização permanente. O desempenho da senadora na capital ajudará a medir não apenas sua força eleitoral, mas quanto do capital político do prefeito ainda é transferível depois de quase dois anos de governo.