O combate à pobreza e à vulnerabilidade social está presente nos planos de governo dos sete candidatos ao Governo do Tocantins nas eleições de 2026, mas com abordagens bastante distintas. Enquanto alguns defendem o fortalecimento da assistência social e da rede de proteção às famílias em situação de vulnerabilidade, outros priorizam políticas de inclusão produtiva, qualificação profissional e geração de emprego como caminho para reduzir as desigualdades. Há ainda candidatos que apostam em medidas voltadas à segurança alimentar, habitação popular e até ao enfrentamento da chamada pobreza energética.

Embora todos apresentem propostas voltadas à melhoria das condições de vida da população de baixa renda, os planos revelam diferenças quanto ao papel do Estado. Em alguns casos, a prioridade é ampliar o alcance do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e fortalecer os municípios. Em outros, a estratégia está concentrada em promover autonomia financeira por meio do mercado de trabalho, do empreendedorismo e do acesso à infraestrutura.

Confira as principais propostas de cada candidato.

Dorinha Seabra prioriza fortalecimento do SUAS e combate à fome

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Dorinha Seabra | Foto: Divulgação

No diagnóstico apresentado em seu plano de governo, Dorinha Seabra afirma que, apesar da redução da pobreza registrada nos últimos anos, milhares de tocantinenses ainda vivem em situação de vulnerabilidade. Para a candidata, o crescimento econômico do Estado precisa resultar em redução efetiva das desigualdades e em maior acesso aos serviços públicos.

Uma das principais propostas é a implementação da Lei Estadual do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), fortalecendo o cofinanciamento estadual e ampliando a cooperação técnica com os 139 municípios. O plano também prevê a duplicação dos recursos destinados aos Benefícios Eventuais, utilizados para atender famílias em situações emergenciais.

Na área de qualificação, Dorinha propõe criar a Escola do SUAS Tocantins para capacitar gestores e trabalhadores da assistência social, buscando padronizar e fortalecer a execução das políticas públicas em todo o Estado.

O combate à fome também ocupa posição de destaque. A candidata pretende ampliar o programa Mesa Farta e implantar o Compra Tocantins, iniciativa que prevê priorizar a aquisição de alimentos da agricultura familiar para abastecer merendas escolares, hospitais e cozinhas públicas, fortalecendo simultaneamente a produção rural e a segurança alimentar.

Entre as propostas voltadas às populações tradicionais estão a criação da plataforma Território Vivo para mapear aldeias indígenas e comunidades quilombolas, além da instalação de poços artesianos movidos a energia solar e ampliação do acesso ao saneamento básico e à energia limpa.

Du Pereira propõe ampliar a rede de proteção social

Du Pereira | Foto: Divulgação

Du Pereira concentra suas propostas na ampliação da estrutura da assistência social e na integração entre proteção social, alimentação, habitação e sustentabilidade.

O candidato propõe criar um Pacto Estadual pelo SUAS para fortalecer o cofinanciamento estadual, regularizar repasses aos municípios e ampliar a vigilância socioassistencial. Também prevê a implantação da Escola do SUAS Tocantins para capacitação permanente dos profissionais da área.

Na segurança alimentar, o plano propõe estruturar o programa Segurança Alimentar Tocantins, reunindo bancos de alimentos, restaurantes populares, cozinhas comunitárias e aquisição de produtos da agricultura familiar por meio do Compra Tocantins.

Outra proposta é enfrentar a chamada pobreza energética. Para isso, Du Pereira pretende implantar projetos de geração de energia solar compartilhada e ações de eficiência energética destinadas principalmente a idosos e famílias de baixa renda, reduzindo o impacto da conta de energia no orçamento doméstico.

O plano também prevê apoio à melhoria de moradias populares, incluindo pequenas reformas e adaptações para idosos e pessoas com deficiência, além da criação de Centros-Dia para atendimento de idosos dependentes e pessoas com deficiência, buscando oferecer suporte às famílias cuidadoras.

Ataídes de Oliveira aposta na inclusão produtiva

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Ataídes de Oliveira | Foto: Jornal Opção Tocantins

Ataídes de Oliveira apresenta uma abordagem voltada à emancipação econômica das famílias. No plano de governo, o candidato afirma que a assistência social, quando dissociada da saúde, da educação e da geração de emprego, tende apenas a administrar a vulnerabilidade, sem superá-la.

Como estratégia, propõe fortalecer a rede de proteção social integrada aos programas de qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho.

Entre as medidas previstas está a unificação dos cadastros municipais e estaduais para tornar mais eficiente o atendimento às famílias em situação de vulnerabilidade e evitar sobreposição de políticas públicas.

O plano também prevê cursos de capacitação alinhados às demandas das cadeias produtivas regionais, acompanhando os beneficiários até sua efetiva inserção no mercado de trabalho, com foco na autonomia financeira.

Vicentinho Júnior reúne propostas para públicos específicos

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Candidato ao governo do Tocantins, Vicentinho Júnior | Foto: Ascom

O plano de Vicentinho Júnior concentra diversas propostas voltadas a grupos específicos considerados mais vulneráveis.

Na área da segurança alimentar, o candidato propõe garantir alimentação escolar durante o período de férias para estudantes da rede estadual, buscando reduzir os efeitos da insegurança alimentar entre crianças e adolescentes que dependem da merenda escolar.

Também prevê a criação da Bolsa Permanência para estudantes de famílias vulneráveis, com o objetivo de reduzir a evasão escolar.

Outra proposta é implantar usinas comunitárias de Energia Solar Social em bairros de baixa renda por meio de parcerias público-privadas, reduzindo o valor das contas de energia das famílias beneficiadas.

Na política habitacional, Vicentinho propõe reservar 10% das unidades dos programas habitacionais estaduais para pessoas com deficiência, com imóveis já adaptados às necessidades de acessibilidade.

O plano também prevê a criação do Programa Aluguel Social Mulher para vítimas de violência doméstica e linhas de microcrédito com juros zero destinadas a quebradeiras de coco, artesãs e mulheres empreendedoras, buscando promover autonomia financeira.

Witer Naves propõe reorganização da estrutura social do Estado

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Witer Naves | Fotos: Jornal Opção Tocantins

Witer Naves afirma em seu plano que o desenvolvimento econômico do Tocantins precisa ser acompanhado por uma distribuição mais equilibrada da riqueza e pela redução das desigualdades regionais.

Como principal medida, propõe criar a Secretaria da Proteção Social e Emancipação da Gente, reunindo em uma única estrutura administrativa as políticas de assistência social, segurança alimentar, geração de emprego, renda e inclusão produtiva.

Segundo o candidato, a unificação permitirá maior integração entre programas sociais e melhor direcionamento dos investimentos públicos.

Outra proposta é criar o Instituto Tocantinense de Estatística, Planejamento e Avaliação, responsável por produzir indicadores, estudos sobre vulnerabilidade social e avaliações periódicas das políticas públicas, permitindo que decisões governamentais sejam baseadas em dados.

Laurez Moreira defende assistência social integrada ao desenvolvimento

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Laurez Moreira | Foto: Divulgação

O plano de Laurez Moreira propõe que o desenvolvimento econômico esteja associado à inclusão social e à redução das desigualdades.

Entre as propostas está o fortalecimento da assistência social como direito fundamental, aproximando os serviços públicos das necessidades das famílias e integrando as políticas estaduais com os municípios.

O candidato também defende ampliar as ações de combate à pobreza e à insegurança alimentar, além de incentivar programas de inclusão produtiva e qualificação profissional de acordo com as vocações econômicas de cada região.

Na habitação, Laurez propõe priorizar famílias em situação de maior vulnerabilidade nos programas de Habitação de Interesse Social, apoiar pequenas reformas em moradias precárias — como instalação de banheiros, cobertura e melhorias estruturais — e criar um banco de terras públicas destinado à implantação de novos empreendimentos habitacionais.

Além disso, o plano estabelece como princípio que todas as políticas públicas sejam orientadas pelos conceitos de inclusão social, acessibilidade e igualdade de oportunidades.

Luiz Carlos prioriza infraestrutura e geração de empregos

Luiz Carlos | Foto: Divulgação

O plano de Luiz Carlos dedica menor espaço às políticas tradicionais de assistência social e concentra as propostas na ampliação da infraestrutura pública e da geração de empregos.

Na área de saneamento, o candidato pretende universalizar o serviço em municípios com até 30 mil habitantes, defendendo que o acesso ao saneamento básico representa uma condição essencial para a melhoria da saúde pública e da qualidade de vida.

Também propõe substituir pontes de madeira por estruturas de concreto em estradas vicinais, buscando melhorar a mobilidade das comunidades do interior.

Na área social, prevê a reforma de quadras esportivas e ginásios municipais para implantação de projetos de inclusão voltados a jovens em situação de vulnerabilidade, utilizando o esporte como ferramenta de prevenção à violência e de integração social.

Outra meta apresentada pelo candidato é estimular a geração de 100 mil empregos, apontando o crescimento econômico e a ampliação das oportunidades de trabalho como principal estratégia para reduzir a pobreza no Estado.

Política social no Tocantins: o desafio de transformar propostas em resultados

A pobreza e a vulnerabilidade social estão entre os principais desafios apresentados pelos candidatos ao Governo do Tocantins nas eleições de 2026. As propostas dos postulantes ao Palácio Araguaia passam por diferentes estratégias, como fortalecimento da assistência social, programas de segurança alimentar, geração de emprego, habitação e redução dos custos de energia para famílias de baixa renda.

O cenário social do Estado, porém, ainda impõe desafios. Segundo dados analisados pelo pesquisador Ian Prates1, 23,9% dos tocantinenses vivem abaixo da linha da pobreza, o equivalente a cerca de 372 mil pessoas. Além disso, 29,6% dos domicílios estão em algum grau de insegurança alimentar e apenas 35,1% das residências tinham acesso à rede geral de esgoto ou fossa séptica ligada à rede em 2023, enquanto a média nacional era de 69,9%.

Para Prates, os problemas sociais do Tocantins não podem ser enfrentados por uma única área de governo, já que envolvem diferentes dimensões da vida da população. “São problemas que se sobrepõem e exigem políticas capazes de combinar proteção social, infraestrutura, habitação e geração de oportunidades.”

O pesquisador avalia que, embora os candidatos apresentem propostas para enfrentar essas dificuldades, existe uma fragilidade comum entre os planos de governo: a falta de detalhamento sobre como as ações serão executadas. “Uma fragilidade comum aos planos, porém, é o grau de generalidade: faltam, em diferentes níveis, metas de atendimento, custos, fontes de financiamento, cronogramas e indicadores que permitam avaliar resultados.”

Entre as propostas analisadas está a de Dorinha Seabra, que tem como principal eixo o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). A candidata propõe ampliar o cofinanciamento estadual para os municípios, implementar a legislação estadual do sistema, capacitar gestores e criar a Escola do SUAS Tocantins.

Na área da segurança alimentar, o plano prevê ampliar ações como o Mesa Farta e criar o Compra Tocantins, programa que busca utilizar compras públicas para fortalecer a agricultura familiar e garantir alimentos para populações vulneráveis.

Segundo Prates, as medidas apresentadas são importantes, mas parte delas representa a ampliação de instrumentos já existentes. “São medidas importantes, mas várias representam ampliação de instrumentos já existentes. Por isso, o plano precisaria demonstrar com maior precisão qual será o ganho efetivo de cobertura e qualidade.”

O pesquisador destaca ainda que propostas como duplicação de repasses, redução da pobreza extrema e ampliação da infraestrutura em comunidades vulneráveis precisam estar acompanhadas de planejamento. “São propostas ambiciosas e exigem detalhamento de custos, prazos, prioridades e metas, justamente o que o plano não detalha.”

Vicentinho Júnior apresenta uma estratégia baseada em programas direcionados a públicos específicos, como alimentação escolar nas férias, energia solar para famílias de baixa renda, aluguel social para mulheres vítimas de violência, moradias adaptadas para pessoas com deficiência e microcrédito.

Para Prates, as iniciativas possuem impacto social, mas ainda precisam estar conectadas dentro de uma estratégia mais ampla. “Essas iniciativas aparecem mais como um conjunto de programas do que como partes de uma estratégia social integrada.”

O pesquisador também chama atenção para os desafios práticos de execução. “Manter alimentação escolar nas férias exige custeio adicional de pessoal, logística e funcionamento das unidades. Ampliar energia solar para famílias vulneráveis demanda explicar o modelo de financiamento, subsídios e escala de atendimento.”

O plano de Laurez Moreira, segundo a análise, apresenta uma abordagem mais transversal ao relacionar assistência social, cidadania, acessibilidade, habitação e geração de oportunidades.

A proposta inclui ações de habitação de interesse social, como construção de unidades, melhorias em moradias precárias e criação de banco de terras públicas.

Na avaliação de Prates, o diferencial está em reconhecer que a vulnerabilidade social possui múltiplas causas. “A vulnerabilidade é multidimensional: baixa renda, moradia inadequada, dificuldade de inserção econômica e necessidade de proteção social frequentemente atingem as mesmas famílias.”

Apesar disso, o pesquisador ressalta que o plano também precisa avançar na definição de metas e indicadores. “Ainda precisa avançar na definição de metas, orçamento, número de beneficiários e indicadores.”

Entre os demais candidatos, Witer Naves propõe integrar assistência social, segurança alimentar, trabalho, renda e inclusão produtiva em uma nova estrutura administrativa, além de reforçar o planejamento e a avaliação das políticas públicas. Para Prates, a proposta tem como desafio detalhar melhor quais serão as entregas concretas à população.

Du Pereira apresenta uma rede mais ampla de proteção social, com fortalecimento do SUAS, bancos de alimentos, cozinhas comunitárias, restaurantes populares e políticas para idosos, pessoas com deficiência e famílias cuidadoras. O principal desafio, segundo a análise, será garantir financiamento permanente para manter os serviços.

Ataídes de Oliveira concentra sua proposta na integração de cadastros, qualificação profissional e inserção produtiva. A estratégia busca ampliar a autonomia financeira dos beneficiários, mas, segundo Prates, o mercado de trabalho não é suficiente para resolver todos os tipos de vulnerabilidade.

Luiz Carlos prioriza investimentos em saneamento básico, infraestrutura e geração de empregos como instrumentos de redução da pobreza. A proposta apresenta uma agenda social mais ligada à melhoria dos serviços públicos e ao crescimento econômico.

Para Ian Prates, o debate eleitoral precisa ir além da quantidade de programas apresentados pelos candidatos. “Os desafios do Estado exigem uma política capaz de enxergar a vulnerabilidade de forma integrada, conectando proteção social, moradia, cidadania e autonomia econômica.”

Segundo o pesquisador, o próximo governo terá como desafio transformar compromissos de campanha em políticas públicas acompanhadas de metas e mecanismos de execução. “É preciso construir uma estratégia transversal, articulada e de longo prazo, além de uma visão que seja acompanhada de metas, orçamento e mecanismos concretos de execução.”

  1. É pesquisador sênior do Anker Research Institute e Diretor da Iniciativa ARI-CEBRAP para Salários Dignos no Brasil. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), também colabora com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) na área de trabalho decente e cadeias de valor sustentáveis. ↩︎