Turismo de base comunitária transforma rotina de comunidades quilombolas e amplia oportunidades no Jalapão
07 junho 2026 às 12h51

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Quem chega à comunidade quilombola Mumbuca, em Mateiros, encontra muito mais do que uma das portas de entrada para os atrativos mais conhecidos do Jalapão. Entre as casas, as rodas de conversa, os trabalhos em capim-dourado e as histórias compartilhadas pelos moradores, o turismo passou a fazer parte do cotidiano de famílias que, por décadas, viveram principalmente da agricultura, da pesca e do extrativismo.
Uma das pessoas que ajudam a contar essa história é Railane Ribeiro da Silva. Neta de Dona Miúda e bisneta de Dona Laurina — figura lembrada pela comunidade como a mulher que descobriu o potencial artesanal do capim-dourado —, ela cresceu acompanhando a produção das peças que mais tarde se tornariam um dos símbolos do Jalapão.
Hoje, além de artesã, Railane é presidente da Associação de Pequenos Produtores da Comunidade Mumbuca, agente cultural e responsável pelo espaço Dona Miúda Memórias, onde recebe visitantes interessados em conhecer a história da comunidade e da família que ajudou a transformar o capim-dourado em patrimônio cultural e fonte de renda para centenas de famílias.
Ao receber turistas, ela apresenta músicas tradicionais, compartilha relatos sobre os antepassados e explica como os conhecimentos foram transmitidos entre gerações.
“Eu aprendi a costurar ainda pequena. A cultura faz parte da minha vida. As músicas, as poesias, o artesanato, o modo de viver da comunidade. Hoje também tenho a responsabilidade de passar esse conhecimento para as crianças e para quem vem nos visitar”, conta.
Segundo Railane, o crescimento do turismo trouxe novas oportunidades econômicas, mas também reforçou a preocupação da comunidade em preservar tradições que resistem há gerações.
“Nos preocupamos em manter os costumes, a forma de fazer o artesanato, as músicas culturais, as fogueiras, as histórias. A preocupação é passar tudo isso para as futuras gerações”, afirma.


Do artesanato ao turismo
A trajetória do turismo em Mumbuca está diretamente ligada ao capim-dourado. De acordo com Sara Batista, moradora da comunidade e integrante dos atrativos Prainha e Fervedouro Mumbuca, os primeiros visitantes chegavam em busca das peças artesanais produzidas pelos moradores.
Com o passar dos anos, o interesse se ampliou para as experiências culturais e para os atrativos naturais da região.
“O turismo no Jalapão começou dentro da comunidade através do artesanato de capim-dourado. As pessoas vinham conhecer as peças e, aos poucos, passaram a visitar também os atrativos turísticos. Hoje o turismo envolve o artesanato, os restaurantes, as pousadas, os fervedouros e diversos outros serviços”, explica.
A mudança impactou diretamente a economia local. “Antigamente as famílias viviam basicamente da agricultura familiar. Havia poucas oportunidades de emprego. Com o turismo surgiram novas formas de renda e desenvolvimento para a comunidade e para o município”, relata.
Sara estima que aproximadamente 90% dos moradores de Mumbuca tenham hoje alguma relação direta ou indireta com a atividade turística.
Quem não trabalha com artesanato atua em pousadas, restaurantes, transporte de visitantes, recepção de turistas ou em empreendimentos administrados pelos próprios moradores.

A cozinha que nasceu na garagem
Entre os negócios que surgiram a partir desse movimento está o restaurante administrado pela cozinheira e lavradora Rosirene Ribeiro Rocha, moradora do Quilombo Prata, em São Félix.
Há cerca de dois anos, ela decidiu transformar a garagem da própria casa em um pequeno restaurante. A ideia surgiu enquanto participava de atividades da associação comunitária. Durante uma visita técnica, recebeu orientações para estruturar o negócio e começou a atender os visitantes em um espaço improvisado. “Começou na garagem do carro. Aos poucos fui ampliando e o restaurante foi crescendo”, conta.
Hoje, o estabelecimento garante renda para quatro pessoas da família, além de gerar trabalho temporário para moradores contratados em períodos de maior movimento.
No cardápio estão pratos tradicionais preparados com ingredientes presentes na rotina das famílias quilombolas, como frango caipira, feijão-de-corda, mandioca frita e chambari.
Segundo Rosirene, muitos visitantes também procuram conhecer produtos locais como rapadura, plantas medicinais, hortas comunitárias e o artesanato produzido na região.
Apesar do crescimento da atividade, ela aponta desafios que ainda fazem parte da rotina dos empreendedores locais. “O mais difícil é buscar alimentos fora da comunidade. A cidade fica longe e isso acaba dificultando”, afirma.

Turismo e preservação cultural
Para os moradores, a atividade turística está cada vez mais associada à valorização da própria identidade quilombola. Railane observa que muitos visitantes chegam interessados em conhecer a história da comunidade e compreender como vivem os moradores.
Segundo ela, o contato com os turistas acaba fortalecendo práticas culturais que já existiam, ao mesmo tempo em que amplia o reconhecimento do patrimônio local.“Quanto mais visitantes chegam, mais as pessoas querem conhecer nossa história, nossa cultura e nossas tradições. Isso fortalece a nossa identidade”, afirma.
A comunidade também acompanha com atenção as transformações provocadas pelo crescimento do Jalapão como destino turístico.
Entre as preocupações citadas pelos moradores estão a chegada de novos empreendimentos, as mudanças nos hábitos das gerações mais jovens e os impactos que futuras obras de infraestrutura podem trazer para o modo de vida tradicional.

Infraestrutura ainda é desafio
Apesar dos avanços econômicos, os moradores destacam que a realidade local ainda é marcada por limitações históricas.Railane cita problemas relacionados às estradas, ao saneamento básico, ao abastecimento de água e ao acesso à saúde. “Muitas vezes precisamos nos deslocar para resolver questões médicas. O acesso aos serviços ainda é uma das nossas maiores dificuldades”, relata.
Sara também aponta a regularização fundiária como um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas. Segundo ela, a ausência da titulação definitiva das terras dificulta o acesso a financiamentos e investimentos capazes de melhorar a estrutura dos empreendimentos turísticos. Além disso, questões como estradas precárias e limitações de infraestrutura continuam afetando o desenvolvimento local.
Fortalecimento do protagonismo
Desde 2021, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) desenvolve ações voltadas às comunidades quilombolas do Jalapão por meio do projeto Energia para Crescer, realizado em parceria com a Energisa.
De acordo com a analista técnica Admary Monteiro, a proposta é ampliar a participação dos moradores tradicionais na atividade turística e incentivar a criação de pequenos negócios ligados à hospedagem, alimentação, artesanato e experiências culturais.
“Nós entendemos que essas comunidades possuem história, cultura, tradição e conhecimentos que podem ser compartilhados com os visitantes. Nosso objetivo é fortalecer o protagonismo dos moradores dentro do turismo”, afirma. Segundo ela, o trabalho inclui consultorias, oficinas de atendimento ao cliente, manipulação de alimentos, planejamento de negócios e apoio à estruturação de novos empreendimentos.
Uma das iniciativas desenvolvidas foi a criação da Rota Quilombola Jalapão, voltada à valorização das experiências oferecidas pelas comunidades tradicionais.
Admary observa que a procura por esse tipo de turismo tem aumentado nos últimos anos. “As pessoas estão buscando experiências mais autênticas, conhecer histórias, modos de vida e tradições. O turismo de base comunitária oferece justamente essa conexão”, explica.
Para a analista, o crescimento da atividade também amplia as possibilidades de geração de renda dentro das próprias comunidades. “Muitas pessoas acreditavam que apenas os proprietários dos atrativos ganhavam dinheiro com o turismo. Hoje mostramos que a alimentação, a hospedagem, a contação de histórias, a música, o artesanato e outras experiências também fazem parte dessa cadeia econômica.”
Um turismo construído pela comunidade
Enquanto os visitantes percorrem dunas, cachoeiras e fervedouros, comunidades como Mumbuca e Prata seguem construindo um modelo de turismo que passa pela cultura, pela memória e pela participação direta dos moradores.
Nas oficinas de capim-dourado, nos restaurantes familiares, nas rodas de conversa e nos espaços de memória, a atividade se integra ao cotidiano local e cria novas formas de geração de renda sem se desvincular das histórias que deram origem às comunidades.
Para Railane, o desafio está em garantir que esse crescimento continue acontecendo sem romper os vínculos com as tradições que moldaram o território. “Tudo o que fazemos hoje carrega um pouco da nossa história. O importante é que as próximas gerações também conheçam e continuem preservando esse legado.”
