TV abre nova disputa no Tocantins e impõe desafios diferentes a Dorinha, Laurez e Vicentinho
25 agosto 2026 às 17h37

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A campanha pelo Governo do Tocantins entra nesta sexta-feira, 28, em uma fase que pode parecer menos relevante diante do avanço das redes sociais, mas continua estratégica: o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Dorinha Seabra (União Brasil) terá 4 minutos e 42 segundos, Laurez Moreira (PSD), 2 minutos e 40 segundos, e Vicentinho Júnior (PSDB), 1 minuto e 9 segundos. Mais do que a diferença entre os tempos, o início dos programas coloca diante das três campanhas uma questão semelhante: como usar uma mídia tradicional para alcançar o eleitor que os algoritmos das plataformas digitais nem sempre entregam.
A campanha eleitoral mudou. Cortes de vídeos, reels, transmissões ao vivo e conteúdos preparados para circular pelo WhatsApp passaram a ocupar parte do espaço antes reservado aos programas de televisão. O problema é que a lógica das redes tende a entregar conteúdo de acordo com comportamento, interesses e interações do próprio usuário. Quem acompanha Dorinha tem maior possibilidade de receber Dorinha; o mesmo vale para Laurez e Vicentinho. O horário eleitoral quebra parcialmente essa lógica. O programa entra na televisão da casa, no rádio do comércio e no carro sem depender de o eleitor procurar determinado candidato. E televisão está longe de ter desaparecido: a TIC Domicílios 2025 aponta aparelho de TV em 92% dos domicílios brasileiros e em 87% dos lares da Região Norte.
Isso torna os minutos disponíveis uma oportunidade, mas não garante vantagem automática. Tempo mal utilizado também significa exposição desperdiçada. Em campanhas cada vez mais orientadas pela velocidade das redes, o desafio das equipes profissionais será resistir à tentação de simplesmente transportar para a televisão a linguagem do Instagram. O programa eleitoral permite construção de narrativa, repetição de mensagem e apresentação de propostas de maneira que um vídeo de poucos segundos dificilmente consegue fazer.
Dorinha: transformar vantagem de tempo em identidade
Dorinha começa com a maior vantagem objetiva. Seus 4 minutos e 42 segundos representam mais que o dobro do tempo de Laurez e mais de quatro vezes o de Vicentinho. A quantidade permite à campanha apresentar biografia, propostas, apoios e realizações sem precisar escolher apenas uma dessas frentes a cada programa. Mas também cria uma obrigação: usar esse espaço para tornar mais clara a candidatura para além do eleitor que já acompanha a senadora nas redes.
Como candidata apoiada pelo governador Wanderlei Barbosa, Dorinha tem na continuidade uma das bases de sua campanha. A televisão pode ajudá-la a associar sua imagem às entregas bem avaliadas do atual governo e, ao mesmo tempo, responder a uma questão própria de qualquer candidatura governista: o que será continuidade e o que terá a marca da candidata. Apenas repetir a popularidade e as realizações de Wanderlei pode fortalecer a associação com o governador, mas não necessariamente construir uma identidade própria para quem pretende comandar o Estado.
Dorinha dispõe de tempo suficiente para fazer as duas coisas. Pode apresentar o governo que pretende preservar e explicar o que pretende acrescentar. A vantagem será ainda mais importante para chegar ao eleitor que conhece seu nome pela atuação parlamentar, mas ainda não formou uma percepção clara sobre como seria uma administração comandada por ela.
Laurez: experiência precisa virar argumento de mudança
Laurez terá 2 minutos e 40 segundos e ocupa uma posição diferente. O tempo é menor que o de Dorinha, mas suficiente para desenvolver uma mensagem com começo, meio e fim. Para sua campanha, o desafio não está apenas em apresentar currículo. Laurez já foi prefeito de Gurupi, vice-governador e chegou a comandar interinamente o Estado. A experiência administrativa é um ativo evidente, mas experiência, sozinha, não responde à pergunta que uma candidatura de oposição precisa responder: por que trocar?
Esse talvez seja o ponto que a televisão possa ajudar Laurez a desenvolver. Sua trajetória em Gurupi oferece material para comparação entre gestão e propostas para o Estado. Mas existe um precedente próximo que recomenda cautela. Ronaldo Dimas chegou à eleição de 2022 com discurso apoiado na experiência como prefeito de Araguaína e não venceu. Naquela disputa, Wanderlei Barbosa e o próprio Laurez estavam juntos na chapa que saiu vitoriosa.
O horário eleitoral dá a Laurez a oportunidade de avançar além da apresentação do currículo. Se pretende ocupar o espaço de principal alternativa ao grupo governista, precisará explicar quais problemas identifica no atual modelo, o que faria diferente e por que sua experiência administrativa o credencia para essa mudança. Seus 2 minutos e 40 segundos permitem essa construção. A questão será saber se a campanha escolherá esse caminho ou continuará concentrada principalmente na biografia política e administrativa do candidato.
Vicentinho: menos tempo exige mensagem mais definida
Vicentinho entra na televisão com a restrição mais evidente entre os três: 1 minuto e 9 segundos. Dorinha terá mais de quatro vezes seu tempo e Laurez, mais que o dobro. Isso obriga a campanha tucana a trabalhar com mensagens mais curtas e uma definição mais rigorosa de prioridades. Não haverá espaço para apresentar muitos assuntos no mesmo programa.
A estratégia adotada até aqui nas redes sociais ganha importância nesse cenário. A campanha tem usado o ambiente digital para apresentação de propostas e posicionamentos, espaço no qual a diferença de tempo da televisão deixa de existir. Mas é justamente por possuir menos minutos que Vicentinho não pode tratar rádio e TV como acessórios. Cada programa será uma oportunidade de alcançar o eleitor fora do público que já acompanha sua campanha digital.
O principal desafio será definir com clareza qual papel pretende ocupar na disputa. Se buscar consolidar-se como adversário do grupo governista, o horário eleitoral oferece espaço para apontar problemas concretos, apresentar soluções e estabelecer contraste com Dorinha. Ao mesmo tempo, disputa com Laurez o eleitor que deseja uma alternativa ao atual grupo. Com pouco mais de um minuto, tentar falar sobre tudo pode diluir a mensagem; escolher dois ou três eixos reconhecíveis ao longo da campanha tende a facilitar a identificação do candidato.
A televisão não morreu, mudou de função
A estreia do horário eleitoral não significa uma volta às campanhas de duas décadas atrás. As redes continuarão decisivas para distribuição de conteúdo, mobilização de apoiadores e reação aos acontecimentos da eleição. A TIC Domicílios mostra, inclusive, a dimensão dessa mudança: 71% dos usuários brasileiros de internet assistem a vídeos, programas, filmes ou séries on-line. O eleitor transita entre telas.
É justamente aí que rádio e televisão podem ganhar uma função diferente em 2026. Em vez de competir com as redes, podem alimentar as próprias redes. Um trecho produzido para o programa eleitoral pode virar corte, reel, postagem e mensagem de WhatsApp minutos depois. E uma ideia testada nas redes pode ganhar escala no horário gratuito. A campanha mais eficiente tende a ser aquela que compreender os dois ambientes como complementares, e não concorrentes.
Para Dorinha, o desafio será converter a maior exposição em identidade própria e ampliar o conhecimento sobre sua candidatura. Para Laurez, transformar experiência administrativa em uma razão concreta para o eleitor escolher uma mudança. Para Vicentinho, fazer de um tempo menor uma mensagem mais concentrada e consolidar seu espaço como alternativa. Os três chegam à televisão com tempos diferentes, mas com a mesma tarefa: falar também com quem ainda não decidiu procurá-los nas redes sociais.
A distribuição do horário gratuito segue critérios definidos pela legislação e pela representação partidária; o TSE publicou em julho a tabela de representatividade usada para o cálculo das Eleições 2026.
