UFT inicia primeiro curso regular de Educação Intercultural Indígena com entrada anual no Tocantins
08 julho 2026 às 17h33

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A Universidade Federal do Tocantins (UFT) iniciou nesta semana as aulas da primeira turma do curso de Licenciatura em Educação Intercultural Indígena, uma graduação inédita na instituição criada para formar professores indígenas para atuação nas escolas de Educação Básica dos territórios originários.
Com entrada regular anual e funcionamento no Câmpus de Porto Nacional, o curso atende às demandas educacionais dos povos vinculados aos Territórios Etnoeducacionais Timbira, Vale do Araguaia e Xerente. A primeira turma reúne estudantes dos povos Krahô, Karajá, Javaé, Apinajé e Kanela.
Para o professor André Demarchi, um dos idealizadores do projeto, a criação da graduação representa uma conquista histórica do movimento indígena e da universidade.
“É considerado um marco porque ele é o primeiro curso regular com entrada anual que existe na UFT para atender à demanda da educação indígena. Era uma demanda histórica do movimento indígena que a UFT tivesse um curso regular, presencial, para atender esse público”, afirmou.
Segundo o professor, a criação do curso, que matricula 40 alunos anualmente, também busca enfrentar uma dificuldade vivenciada por muitos estudantes indígenas que ingressam no ensino superior.
“Muitos estudantes indígenas se matriculam nos cursos de História, Letras, Biologia, Geografia, Pedagogia e nas licenciaturas de modo geral, mas eles são formados nessas licenciaturas para dar aula nas escolas dos não indígenas. Eles não têm uma formação voltada para a educação escolar indígena”, explicou.
O diferencial da nova graduação, segundo Demarchi, é justamente preparar profissionais para atuar nas escolas indígenas a partir das realidades dos próprios territórios.
“O que a gente vem suprir com esse curso é justamente fazer uma formação adequada para esse profissional. Vamos formar professores para atuar na sala de aula indígena. Esse é o diferencial do curso: uma educação voltada para o território”, disse.
A proposta pedagógica do curso foi construída a partir de uma perspectiva intercultural, valorizando os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e promovendo o diálogo com os saberes acadêmicos.
“Ele não é organizado por disciplinas, ele é organizado por eixos temáticos que justamente visam pensar as conexões que podem existir entre as cosmopedagogias do Cerrado, que são as pedagogias dos povos indígenas, e as pedagogias e conhecimentos da sociedade não indígena”, explicou.
Dez anos de articulação
A implantação da licenciatura é resultado de quase uma década de articulação entre universidade e comunidades indígenas. A primeira proposta do curso começou a ser construída entre 2015 e 2017, com participação de representantes dos povos Javaé, Karajá, Xerente, Krahô e Apinajé, no Tocantins, além dos povos Krikati, Canela e Gavião, do Maranhão.
O Projeto Pedagógico do Curso (PPC) foi elaborado em diálogo com os povos indígenas e passou por avaliação das comunidades antes da continuidade do processo.
De acordo com Demarchi, o caminho até a implantação foi marcado por desafios relacionados às políticas públicas para educação indígena.
“O nosso maior desafio foi com relação à própria política educacional de apoio a esse tipo de curso. Em 2016, a gente conseguiu criar as bases de sustentação do PPC com os povos indígenas, mas depois tivemos uma mudança política nacional que desarticulou toda a política educacional indígena federal”, afirmou.
Segundo ele, a retomada do projeto ocorreu com a abertura de novas políticas públicas e a garantia de financiamento.
“Só agora tivemos novamente uma abertura para essa política. Conseguimos um financiamento do MEC para o curso, e isso permitiu que ele fosse aprovado de uma maneira mais célere e garantisse recursos para o tempo-comunidade e o tempo-universidade”, explicou.
Formação para permanecer nos territórios
O professor destaca que a proposta do curso é formar profissionais que retornem às comunidades e fortaleçam a educação indígena.
“A gente vai formar professores com uma formação justamente que vai permitir que ele volte para aquela comunidade da qual ele vem. É lá que ele vai lecionar, e esse é o fluxo que a gente quer seguir no curso”, afirmou.
A alta procura pela graduação, segundo Demarchi, revela uma demanda acumulada dos povos indígenas por acesso ao ensino superior.
“Existe um gargalo histórico, uma demanda histórica do movimento indígena por acesso ao ensino superior. Essa demanda ficou reprimida por muitos anos e está sendo finalmente aberta para os povos indígenas”, disse.
Ele explica que a procura também está relacionada às dificuldades enfrentadas por indígenas em cursos tradicionais.
“Como esse curso é intercultural, contracolonial e busca atender de maneira específica esse público, a procura foi muito grande por causa disso”, afirmou.
Expectativa é transformar curso em referência
Com a implantação da primeira turma, o próximo desafio é garantir a permanência dos estudantes e consolidar a graduação dentro da estrutura da universidade.
“A nossa expectativa é que a gente consiga realmente implantar ele de uma maneira autônoma e regular na universidade, que ele seja um curso com colegiado próprio, infraestrutura própria e uma forma de entrada que respeite as especificidades dos povos indígenas”, afirmou.
Para Demarchi, a meta é que a licenciatura ultrapasse as fronteiras do Tocantins. “A expectativa é que ele vire uma referência nacional e internacional para a produção de conhecimento intercultural no Brasil e no mundo, com os povos daqui do Cerrado em diálogo com povos de outras regiões do Brasil e do mundo”, concluiu.
