Disputa por Câmara no TO parte de cinco vagas abertas e embaralha bases dos atuais deputados
15 junho 2026 às 10h09

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A disputa pelas oito vagas do Tocantins na Câmara dos Deputados começa com um dado central: dos atuais parlamentares da bancada federal, apenas três aparecem hoje em rota declarada de reeleição. Tiago Dimas (Podemos), Ricardo Ayres (Republicanos) e Filipe Martins (PL) trabalham para renovar os mandatos. Os demais têm projetos em outras frentes, o que cria, ao menos neste primeiro desenho, uma eleição com até cinco cadeiras em aberto.
O quadro ainda pode mudar até as convenções. Pré-candidaturas majoritárias podem ser revistas, chapas podem ser reorganizadas e acordos partidários podem alterar o tabuleiro proporcional. Mas o avanço desses projetos já produz efeitos práticos. Quando um deputado federal passa a construir candidatura ao governo, ao Senado ou à Assembleia, abre espaço em sua base eleitoral para aliados, adversários internos e novos nomes disputarem prefeitos, vereadores, lideranças regionais e segmentos organizados.
Esse é o primeiro ponto da eleição para federal em 2026. Vicentinho Júnior (PSDB) consolidou o projeto ao governo. Alexandre Guimarães (MDB) segue no grupo que trabalha sua candidatura ao Senado. Eli Borges é o nome do Republicanos para a disputa majoritária, em movimento que também atende à estratégia nacional da legenda de ocupar espaço na eleição para o Senado. Carlos Gaguim (UB) mantém projeto ao Senado. Toinho Andrade (PSDB) já declarou intenção de buscar uma vaga na Assembleia Legislativa.
No Republicanos, a expectativa interna é de uma chapa capaz de eleger três deputados federais. Ricardo Ayres parte como nome de mandato em busca da reeleição. A disputa pelas demais vagas tende a se concentrar em perfis com estrutura e inserção regional. Fábio Vaz, ex-secretário estadual da Educação, entra como nome ligado ao núcleo político do governador Wanderlei Barbosa. Alfredo Júnior aparece como empresário com estrutura própria e projeto de chegar à Câmara. Lucas Campelo, vereador mais votado de Araguaína em 2024, tenta transformar capital municipal em voto estadual.
Campelo é observado dentro da chapa por características que podem diferenciá-lo na disputa interna. Jovem, com base em Araguaína, estrutura própria e narrativa de ascensão pessoal, ele tenta falar com um eleitorado que busca renovação sem romper com a lógica de grupo político. O desafio será levar essa imagem para além do norte do estado e disputar espaço em uma legenda que deve ter uma das competições internas mais duras da eleição.
Federação União-PP
Na federação União Brasil-PP, a disputa pelas vagas deve passar, principalmente, pelos deputados estaduais Janad Valcari e Jair Farias, nomes com trajetórias testadas nas urnas e forte presença regional. A avaliação entre aliados é que ao menos um dos dois tem caminho competitivo para chegar à Câmara. Há, inclusive, quem projete a eleição dos dois, em uma disputa voto a voto pela liderança da chapa.
O cenário também conta com Luana Nunes. Ex-secretária municipal de Saúde de Gurupi, ela carrega o peso eleitoral do principal colégio do sul do estado e conta com o apoio da prefeita Josi Nunes, sua mãe, que já exerceu mandato de deputada federal. A estrutura política construída pelo grupo em Gurupi pode transformar Luana em uma candidatura competitiva da federação.
A presença de três nomes com densidade eleitoral própria tende a elevar a disputa interna. Janad tem forte inserção em Palmas e pulveriza apoios que passam por prefeitos, vereadores e lideranças regionais. Jair Farias consolidou bases no Bico do Papagaio e no norte do estado. Luana chega com o capital político de Gurupi e a força de um grupo familiar com histórico de vitórias em eleições proporcionais e majoritárias. O desafio da federação será distribuir essas candidaturas regionalmente para evitar sobreposição de votos e ampliar as chances de conquistar mais de duas cadeira.
Tucanos
No PSDB, a leitura interna é de que a sigla tem condições de fazer pelo menos uma cadeira. A disputa, porém, tende a ser pesada. Irajá Abreu trabalha discurso voltado à juventude, tecnologia e agro, com estrutura própria e agenda calibrada em regiões estratégicas. O ex-deputado Osires Damaso tenta voltar à Câmara com a força de Paraíso do Tocantins, um dos maiores colégios eleitorais do estado.
A entrada de Cinthia Ribeiro acrescenta outro peso à disputa tucana. Depois de um período de ruídos com Vicentinho Júnior e de conversas sobre uma possível saída da sigla, a ex-prefeita de Palmas se colocou como pré-candidata a federal. Ela carrega o capital político do principal colégio eleitoral do Tocantins e pode se beneficiar do confronto aberto com a gestão de Eduardo Siqueira Campos, que assumiu a prefeitura criticando a administração anterior. Se a rejeição à atual gestão crescer na capital, Cinthia tende a disputar esse sentimento com vantagem de recall e estrutura política acumulada.
No Podemos, a reeleição de Tiago Dimas ainda exige cautela. Ele começou o mandato em desvantagem em relação aos demais deputados, já que só assumiu a cadeira após retotalização dos votos, em 2025, quase no fim do ciclo iniciado em 2023. Além disso, enfrenta dentro do partido a presença do ex-governador Sandoval Cardoso, que tem estrutura, lastro político e movimentação intensa junto a lideranças municipais. Há quem defenda que o Podemos possa eleger os dois, mas esse é um cenário desafiador pela necessidade de votos de legenda e de equilíbrio entre projetos fortes no mesmo campo.
O PL tem Filipe Martins como principal aposta para federal. A avaliação interna é que ele será o eixo da chapa, responsável por puxar a legenda em busca do quociente necessário para garantir ao menos uma vaga. Filipe tem mandato, estrutura partidária e um colégio eleitoral fiel ligado à Assembleia de Deus Ministério de Madureira, comandada no Tocantins por seu pai, pastor Amarildo Martins. O ponto de atenção para o partido será a capacidade de montar uma chapa que não dependa apenas do desempenho individual do deputado.
O PT ainda não apresentou uma chapa proporcional consolidada para federal. A depender dos nomes, o partido, que é federado com PV e PCdoB, pode tentar construir uma candidatura competitiva para buscar ao menos uma vaga. O desempenho, nesse caso, estará ligado à capacidade de nacionalizar parte do debate, organizar palanques regionais e atrair nomes com voto próprio em meio a uma disputa proporcional mais cara e fragmentada.
A eleição para deputado federal no Tocantins, portanto, começa menos pela fotografia dos nomes e mais pelo deslocamento das bases. Cinco projetos fora da reeleição abrem espaço real para novos ocupantes. Mas essas vagas não estão simplesmente disponíveis. Elas serão disputadas dentro de chapas com mandatos, estruturas familiares, grupos religiosos, prefeitos, vereadores, empresários e lideranças regionais.
O resultado deve depender menos de favoritismo individual e mais da combinação entre nominata, quociente eleitoral, distribuição regional de votos e capacidade de cada grupo de evitar que suas bases migrem para adversários internos. Em uma eleição com até cinco vagas abertas, o primeiro turno da disputa já começou dentro dos partidos.
