“O que foi feito com todo o dinheiro que entrou no Tocantins?”, Luxemburgo questiona legado de governos
04 junho 2026 às 10h48

COMPARTILHAR
Aos 74 anos, Vanderlei Luxemburgo decidiu trocar o futebol pela política. Depois de treinar clubes como Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos e Real Madrid, o ex-técnico afirma que sua experiência sempre esteve ligada à gestão de pessoas e não apenas ao esporte. Agora, aposta nesse discurso para disputar uma das duas vagas ao Senado pelo Tocantins em 2026.
Pré-candidato pelo Podemos, Luxemburgo diz que não pretende construir carreira política e afirma que um único mandato é suficiente para executar os projetos que considera prioritários para o estado. Na entrevista a seguir, ele critica o que chama de falta de resultados dos sucessivos governos tocantinenses, defende investimentos em educação, esporte e saúde, rejeita a polarização entre Lula e Bolsonaro, fala sobre o que pensa sobre impeachment de ministros do STF e afirma que o Senado precisa discutir os problemas reais da população.
O senhor passou quase cinquenta anos no futebol. Por que decidiu entrar na política justamente pelo Senado?
Eu não sou carrerista político. Minha carreira foi o futebol. Comecei em time pequeno, trabalhei em grandes clubes, fui para a seleção brasileira, treinei o Real Madrid. Não tenho tempo para fazer uma carreira política começando por vereador, deputado ou prefeito. O que eu sinto é que estou preparado para exercer a função de senador porque a minha vida inteira foi dedicada à gestão de pessoas, à tomada de decisões e à convivência com pressão e interesses diferentes. Nunca fui apenas técnico de futebol. Sempre fui gestor.
Então o senhor não pretende construir uma carreira política?
Não. Tenho 74 anos. Um mandato me levaria aos 82. Não faz sentido pensar em outro. Quero encerrar minha vida pública fazendo algo que beneficie a população.
Não vivo da política, não preciso da política para sobreviver nem para ganhar popularidade.
O que o senhor viu no Tocantins que o levou a entrar nessa disputa?
Eu faço uma pergunta simples: o que aconteceu com o Tocantins nos últimos vinte anos? O que foi feito com todo o dinheiro que entrou aqui? O estado recebeu recursos, recebeu emendas, recebeu investimentos.
Mas qual foi a grande obra estrutural? Qual foi a grande transformação social? É uma pergunta que precisa ser feita.
O senhor considera que o Tocantins ficou para trás?
Eu vejo um estado com potencial enorme. O agro cresce porque o empresário investe. A pecuária cresce porque o empresário investe. Agora eu quero saber o que o setor público entregou. O Hospital de Araguaína está há anos para ser concluído. O Hospital de Gurupi também. A ponte de Estreito caiu depois de anos de problemas conhecidos. São situações que precisam ser discutidas.
O que mais falta ao Tocantins hoje?
Parece básico, mas precisamos falar de investimentos em educação, esporte e saúde. Essas são as três ferramentas mais importantes para transformar uma sociedade. Quando você investe nelas, forma cidadãos melhores e reduz problemas futuros.
O senhor fala muito em esporte. Isso não é olhar o estado apenas pela sua experiência profissional?
Não. Quando falo de esporte, falo de política pública. Quero centros esportivos ligados à educação. Quero espaços onde a criança estude e pratique esporte. Isso não é projeto de futebol.
É projeto de formação de cidadão.
O senhor acredita que isso pode ser feito em apenas um mandato?
Com certeza. Dá para fazer muita coisa em oito anos. Falta gestão. Falta prioridade. Às vezes se gasta centenas de milhões em projetos que não mudam a vida das pessoas.
Com planejamento, é possível fazer muito mais.
O senhor se apresenta mais como gestor do que como político. Qual é a diferença?
O gestor conversa com quem está na ponta. Eu quero ouvir vereador, empresário, trabalhador, agricultor, estudante. É a população que mostra quais são as necessidades reais. Foi assim que trabalhei a vida inteira no futebol.
Como surgiu sua candidatura pelo Podemos?
Houve uma conversa com a presidente nacional do partido, Renata Abreu. Eu deixei claro que só entraria se tivesse espaço para disputar o Senado. Ela garantiu isso. Depois veio a parceria com Eduardo Siqueira Campos e a construção desse projeto.
O senhor divide espaço no partido com Ronaldo Dimas. Isso cria disputa interna?
Não. Existem duas vagas para o Senado. Ele cuida da campanha dele e eu cuido da minha. Não vejo problema nisso.
O senhor ainda não declarou apoio a nenhum dos pré-candidatos ao governo. Por quê?
Porque tenho liberdade para fazer essa escolha no momento certo. Quando decidir, vou conversar com a direção nacional do partido por respeito à hierarquia.
Mas a decisão será tomada pensando no que considero melhor para o Tocantins.
O Brasil vive uma polarização intensa entre Lula e Bolsonaro. Isso faz mal ao país?
Faz. Se você tirar esses dois personagens da cena política, boa parte da polarização desaparece. O Brasil deixou de discutir projetos e passou a discutir lados.
Hoje muita gente só quer saber se alguém é de direita ou de esquerda.
O senhor se considera de direita ou de esquerda?
Eu me considero de centro. Quero discutir soluções. Não tenho compromisso com guerra ideológica. Tenho compromisso com resultados.
O Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do mundo. Isso é motivo para comemoração?
É positivo, mas não basta. O que importa é o poder de compra da população. O cidadão consegue comprar mais hoje do que comprava há alguns anos? Essa é a pergunta principal.
O que falta para melhorar essa situação?
O governo precisa reduzir gastos, tornar a máquina mais eficiente e criar condições para que a população tenha mais renda e mais capacidade de consumo.
O senhor apoia o fim da escala 6×1?
Apoio a escala 5×2 porque ela melhora a qualidade de vida do trabalhador.
Mas não dá para transferir toda a conta para o empresário. O governo também precisa participar da solução.
Como?
Com compensações, incentivos e redução de custos. Não adianta beneficiar um lado e prejudicar o outro. Tem que haver equilíbrio.
As apostas esportivas viraram um problema nacional?
Ninguém vai acabar com as bets. Elas existem no mundo inteiro. A discussão precisa ser outra: como regular e usar os impostos arrecadados para beneficiar a população.
O Congresso discute frequentemente pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Como o senhor vê esse debate?
O debate não pode ser ideológico. As instituições precisam ter credibilidade. O que deve importar é a capacidade das pessoas e o respeito às regras, não se alguém é de direita ou de esquerda.
Por que o eleitor tocantinense deveria votar em Vanderlei Luxemburgo?
Porque sou gestor. Minha história está aí. Deixei um legado no futebol e acredito que posso ajudar o Tocantins a desenvolver todo o potencial que tem. Minha vida está resolvida. Não estou entrando na política para mim.
Estou entrando porque acredito que ainda posso contribuir.
