Com artesanato sustentável, mulheres de Xambioá constroem oportunidades e recomeços a partir de sementes do Cerrado
07 junho 2026 às 12h38

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Por muitos anos, Jaqueline de Oliveira Freitas acreditou que sua identidade cabia em poucas palavras: esposa, mãe, filha e dona de casa. Hoje, aos 37 anos, ela faz questão de dizer que existem duas Jaquelines, a de antes e a de depois da Xambiart. Entre uma e outra, existe uma história construída com sementes do Cerrado, babaçu, medo, coragem e uma rede de mulheres que se recusou a desaparecer.
A história da Xambiart começou em 2013, em Xambioá, no norte do Tocantins, como resultado de um projeto de geração de renda para mulheres da comunidade de Alto Bonito, desenvolvido com apoio do Programa ReDes, uma parceria entre o Instituto Votorantim e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A proposta era transformar elementos da biodiversidade local, sementes, fibras naturais, babaçu, buriti, tucumã, jarina e outros materiais, em biojoias e peças artesanais capazes de gerar renda e autonomia. Atualmente cooperativa reúne sete mulheres, mas sua trajetória foi construída por muito mais pessoas, no início, eram 23 artesãs compartilhando o mesmo sonho.
Para Jaqueline, a transformação aconteceu imediatamente: “Antes eu era simplesmente a Jaqueline esposa, mãe, filha, dona de casa. Agora sou a Jaqueline e tudo isso, mas agregada à mulher que ajuda o marido, que ajuda em casa, coisa que eu não fazia antes porque eu não tinha nenhuma renda. Não precisar pedir dinheiro para comprar as coisas para mim e para o meu filho é maravilhoso.”

Por isso, ela resume sua própria trajetória de forma simples: “Eu sempre falo que existem duas Jaquelines: a antes e a depois. E sinceramente eu prefiro essa Jaqueline de hoje, a Jaqueline empoderada, a Jaqueline que corre atrás dos seus objetivos. Levo alegria para as nossas clientes deixando elas ainda mais belas usando uma biojoia, e também fico feliz porque através disso, com o nosso dinheirinho, a gente consegue realizar os nossos próprios sonhos.”
As conquistas materiais vieram junto com esse fortalecimento, houve cooperadas que compraram motocicletas, reformaram suas casas e conquistaram independência financeira, destacada por Santana de Sousa Barreto Silva, de 58 anos, uma das fundadoras e primeira presidente da cooperativa: “Tinha pessoas que nunca tinham pegado dinheiro delas mesmas. Quando você vê isso, percebe que não é inútil. Você é útil, sabe fazer, faz acontecer.”
Mas além disso, ela enxerga mudanças que ultrapassam a questão financeira, a cooperativa ensinou a dividir, conviver e crescer coletivamente:
Muitas vezes eu paro e penso se eu não estivesse na Xambiart, acho que já teria entrado em uma depressão profunda. Porque, às vezes, quando a gente fica sem fazer nada, sem uma ocupação, acaba ficando à toa e pensando em coisas que não fazem bem. Quando você ocupa a cabeça, cria, produz e compartilha o que faz, tudo muda. Da mesma forma, quando uma colega cria um colar, uma pulseira ou um brinco e me pede um parecer, pergunta o que eu achei, o que gostei, isso é muito gratificante, uma troca muito bonita, eleva a alma da gente ao infinito.

Santana relembra que esse sentimento mais tarde se concretizou um dos grandes feitos da cooperativa: “O momento mais marcante que vivi na Xambiart foi quando ainda funcionávamos em um espaço alugado. Todo mês precisávamos pagar R$ 500 de aluguel e, na época, esse valor fazia muita falta. Então conquistamos um prêmio de economia solidária de R$ 20 mil na 22ª Feira Internacional de Cooperativismo (Feicoop) e na 11ª Feira Latino-Americana de Economia Solidária. Éramos 20 cooperados e poderíamos simplesmente dividir o dinheiro, mas decidimos pensar no futuro. Em vez disso, resolvemos investir na compra de um terreno para que a cooperativa deixasse o aluguel. Naquele período, eu era a presidente e fui até Santa Maria, no Rio Grande do Sul, receber o cheque da premiação. Quando voltamos, compramos o lote. Receber aquele documento foi uma emoção muito grande. Foi a sensação de que estávamos construindo algo que realmente era nosso.”
Com local próprio a produção das biojoias aumentou.

Processo de produção
Um dos diferenciais da cooperativa é o processo produtivo baseado no aproveitamento de recursos naturais de forma sustentável, as sementes são coletadas, secas, polidas e parte delas recebe tingimento sem produtos químicos. Além disso, o grupo participou de ações de recuperação ambiental com o plantio de espécies nativas da região.
A produção de uma peça na Xambiart é resultado de um processo que começa muito antes da etapa de montagem e exige uma sequência de atividades que unem a coleta da matéria-prima, o trabalho manual e o conhecimento acumulado pelas artesãs ao longo dos anos. Dependendo do material utilizado, o primeiro passo acontece ainda no Cerrado, onde são coletados elementos da natureza.

No caso do coco babaçu, um dos principais símbolos da produção da cooperativa, os frutos são recolhidos e levados para a sede da Xambiart, onde passam pelo descascamento e seguem para a máquina de corte, responsável por dividir o material nas partes que serão utilizadas na confecção das peças. Em seguida, cada fragmento passa pelo motor esmeril para as primeiras etapas de lixamento e, posteriormente, recebe um acabamento manual, realizado peça por peça, antes de retornar ao equipamento para o polimento com cera de carnaúba, que realça o brilho e preserva as características naturais do material. Somente depois desse percurso começa a fase de montagem, quando são feitos os furos, as costuras e a união de cada componente até que o artesanato esteja pronto para ser comercializado.
O tempo e a dedicação exigidos em cada etapa também ajudam a explicar o vínculo que muitas artesãs desenvolveram com a cooperativa. É assim que Ivanete Hipólito Ferreira Marenho, de 48 anos, define sua trajetória na Xambiart e relembra que chegou ao projeto sem qualquer conhecimento sobre artesanato. “Estou na Xambiart desde o início e até hoje não pretendo largar. A cooperativa entrou na minha vida quando eu estava em um momento muito fragilizado e eu não tinha experiência nenhuma com artesanato. Aprendi através da produção, cursos e também com as amigas que foram me ensinando. Hoje, a Xambiart é uma família para mim. Temos altos e baixos, mas continuamos ali, firmes e fortes.”


Altos e baixos
Em pouco mais de uma década, a cooperativa conseguiu reconhecimento nacional, estruturou uma sede própria, expandiu mercados, participou de missões internacionais e se tornou referência de economia solidária e empreendedorismo feminino no Tocantins. Um dos exemplos foi quando as biojoias aparecerem na novela O Outro Lado do Paraíso, fato que impulsionou a procura pelos produtos e contribuiu para um aumento de cerca de 50% nas vendas, segundo relatos das próprias cooperadas.
Depois de tantos avanços, porém, a cooperativa se deparou com um período de forte retração, em 2025 atravessou um momento delicado, marcado por dificuldades pessoais enfrentadas por diversas integrantes. Algumas conviviam com quadros de depressão, enquanto outras lidavam com problemas familiares e emocionais.
Ivanete conta que chegou a acreditar que a cooperativa caminhava para a falência. Foi então que, naquele mesmo ano, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Tocantins (Sebrae/TO), parceiro da Xambiart desde 2015, promoveu uma nova capacitação voltada às artesãs. A iniciativa marcou um ponto de virada ao fortalecer a relação entre a entidade e as cooperadas, abrindo caminho para um processo de reestruturação e novos horizontes para a cooperativa.
Jaqueline descreve essa relação: “Eu sempre digo que, sem o apoio do Sebrae, a gente não estaria no patamar em que a gente está hoje. O Sebrae nos abraçou de tal forma, de tal maneira que, até hoje, segura na nossa mão. Quando a gente está quase querendo desistir, eles dizem: “Epa, não, não podemos deixar esse grupo de mulheres morrer.” Principalmente na pessoa da dona Celina Soares, que é uma pessoa magnífica. Eu até falo que ela é nossa gestora. Ela é uma pessoa ímpar na Xambiart, e eu só tenho que agradecer por Deus ter colocado ela nas nossas vidas.”
A analista do Sebrae Celina Soares detalha como foi esse processo: “A principal estratégia primeiro foi trabalhar a questão comportamental das artesãs. A consultora trabalhou muito isso, da motivação, de mostrar que eles são capazes, que eles têm matéria-prima estocada. Muita matéria-prima e que dali poderia sair muita coisa, essa cooperativa tem muito equipamento e esses equipamentos praticamente parados. Com isso, a gente começou a trabalhar com elas nesse sentido, que elas são capazes, que elas têm tudo, equipamento e matéria-prima.”

Segundo ela, a equipe percebeu que os produtos ainda carregavam características desenvolvidas anos antes e precisavam de uma nova leitura para atender às tendências do mercado. “Como eles estavam com os produtos ainda de 2016, não tinham inovado, melhorado esses produtos, a gente entrou também com a parte de orientação, de gestão, mostrando que conseguem ganhar mais dinheiro produzindo peças de acessórios e de bijuteria em artesanato, que o forte deles é a semente e as pastilhas de babaçu.”

A mudança de postura rapidamente refletiu na rotina da cooperativa, para Celina, o maior resultado foi perceber o entusiasmo das artesãs diante das novas oportunidades: “A gente percebeu que elas estão mais empolgados para trabalharem, para produzirem. Para participarem de uma feira, elas trabalharam dia e noite, até tarde da noite. A gente percebe um resultado motivador. Percebe no sorriso delas, nos depoimentos, que elas estão felizes, mas essa motivação tem que ser constante.”
Esse processo abriu caminho para que a Xambiart voltasse a participar de grandes eventos nacionais, em 2025, a cooperativa esteve na Feira Nacional do Artesanato, em Belo Horizonte, e, posteriormente, participou do Salão do Artesanato, em São Paulo, onde conseguiu comercializar uma quantidade grande de produtos.


É por isso que eu falo hoje que o Sebrae não faz só uma capacitação, não me dá apenas um incentivo, eles fizeram um processo psicológico comigo. Eles mudaram a Jaqueline. Dentro de mim, alguma coisa mudou, entendeu? E eu já estou ansiosa pela próxima feira para a qual eu for convidada pelo Sebrae, diz Jaqueline.
Jaquelina e Ivanete inclusive já ministram oficina de produção de biojoias, como a que aconteceu na aldeia indígena Sororó, localizada no sudeste do Pará, onde as duas foram dar aulas, com apoio da Votorantim.

Depois de enfrentar períodos de incerteza e viver uma retomada marcada pela redescoberta da própria capacidade, as cooperadas agora projetam novos mercados e sonham em levar as biojoias produzidas em Xambioá para cada vez mais lugares.
“O que eu espero para o futuro é abrir novos horizontes, vender para todo o mundo, conquistar mais clientes no Brasil e também fora dele. Quem sabe daqui a um ou dois anos a gente possa dizer: ‘Eita, vamos fazer uma encomenda para os Estados Unidos, para a Bélgica, para a França, para a Itália’, enfim, para vários países. O futuro que eu espero para a Xambiart é esse, estar exportando tanto para dentro quanto para fora do Brasil. Hoje nós já vendemos. Temos uma cliente nos Estados Unidos e queremos mais. Temos clientes em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e em Palmas. Temos clientes em vários lugares, mas queremos crescer ainda mais. Nós queremos triplicar a nossa produção e o número de clientes. E não é só conquistar clientes, mas garantir a satisfação deles. Queremos que a pessoa receba a nossa mercadoria e diga: ‘Amei, adorei, muito obrigada. Chegou no momento certo, na hora certa.’ E que as nossas peças sejam agradáveis aos olhos, tanto dos nossos clientes quanto dos clientes deles” finaliza Santana.

De janeiro a junho de 2026, segundo dados do Sebrae, o Tocantins reúne 2.469 artesãos habilitados a atuar com a Carteira do Artesão do Governo Federal, que podem encontrar na trajetória da Xambiart inspiração, referências de fortalecimento coletivo e novas possibilidades de atuação no artesanato.
Novas peças, trabalhos e participação em feiras são sempre divulgadas nas redes sociais da cooperativa @xambiart no Instagram.
