O Tocantins integra a rota de empresas estrangeiras interessadas na pesquisa de terras raras, minerais utilizados na fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta tecnologia. Entre as companhias com atuação no estado está a australiana Alvo Minerals, que mantém uma base de exploração em Palmeirópolis, no sul tocantinense, e anunciou, na quinta-feira, 8, novos resultados de sondagens do projeto Bluebush, desenvolvido na região do granito Serra Dourada, próximo à divisa com Goiás.

O avanço das pesquisas ocorre em um cenário de investimentos bilionários no Brasil. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo no sábado, 10, identificou pelo menos 18 empresas internacionais com processos minerários para pesquisar ou explorar terras raras no país. Os empreendimentos somam mais de R$ 17,5 bilhões entre recursos já aplicados e investimentos previstos. A Austrália lidera a presença estrangeira, com 11 grupos, seguida por Canadá e Estados Unidos, com três companhias cada.

A Alvo Minerals mantém atividades de exploração mineral na região de Palmeirópolis, onde desenvolve o projeto Palma, voltado principalmente à pesquisa de cobre e zinco. A empresa também participa da corrida por terras raras por meio do Bluebush, empreendimento situado na região do granito Serra Dourada, formação geológica que abriga a mina Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás.

Em comunicado divulgado à Bolsa de Valores da Austrália em 8 de outubro, a mineradora apresentou novos resultados de pesquisas no Bluebush, com identificação de concentrações de disprósio e térbio, dois elementos utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho. Segundo a companhia, as pesquisas acumulam 448 furos de sondagem, com 3.708 metros perfurados.

A empresa também informou a conclusão de um acordo relacionado à aquisição da Mata Azul, responsável pelo empreendimento, cuja área alcança 9.859 hectares, aproximadamente 98,6 quilômetros quadrados. O contrato prevê a aquisição progressiva de participação societária, vinculada ao cumprimento de etapas técnicas, como a elaboração de estimativas de recursos minerais e estudos de viabilidade.

Os resultados apresentados incluem intervalos mineralizados próximos à superfície, com concentrações superiores a mil partes por milhão de óxidos totais de terras raras em determinados pontos pesquisados. A companhia pretende avançar nos estudos das áreas de Boa Vista, Praia e São Bento.

Apesar dos resultados, o Bluebush permanece em fase de pesquisa e ainda não possui uma primeira estimativa formal de recursos minerais. A identificação de concentrações desses elementos não significa que exista uma reserva economicamente viável ou que a exploração comercial esteja autorizada.

Pesquisas alcançam outros municípios do Tocantins

Além da atuação da Alvo Minerals na região de Palmeirópolis, registros da Agência Nacional de Mineração (ANM) apontam autorizações para pesquisas de terras raras em outros municípios tocantinenses, entre eles Juarina, no norte do estado, e Paranã e Arraias, na região sudeste.

Em Juarina, uma autorização publicada em março de 2026 contempla uma área de 1.250,63 hectares para pesquisas de cobre, níquel e terras raras. Em Paranã, há registro de autorização para pesquisa de ouro e terras raras. Já em Arraias, um título minerário abrange uma área de 1.960,20 hectares que também alcança o município de Cavalcante, em Goiás.

As autorizações permitem a realização de estudos geológicos para verificar a presença e a concentração dos minerais. A eventual abertura de minas depende da comprovação de viabilidade econômica, da obtenção de licenças ambientais e do cumprimento das exigências legais.

Disputa internacional por minerais estratégicos

O interesse pelas terras raras brasileiras acompanha a procura internacional por fornecedores alternativos à China, que concentra grande parte da produção e do processamento mundial desses minerais.

Entre as operações recentes está a compra da australiana Meteoric Resources pela Lynas, também australiana, em um acordo de R$ 3,5 bilhões relacionado a um empreendimento em Minas Gerais. Outra transação envolveu a aquisição da mineradora Serra Verde, em Goiás, pela americana USA Rare Earth.

A Serra Verde iniciou a produção comercial em 2024, no município de Minaçu, e é considerada um dos empreendimentos mais avançados do setor no Brasil. A operação produz carbonato misto de terras raras, material que ainda precisa passar por outras etapas industriais para a obtenção de elementos separados e produtos utilizados pela indústria.

A presença estrangeira no setor também envolve empresas canadenses e americanas com projetos em diferentes estágios de desenvolvimento. Parte dos investimentos anunciados depende de licenciamento, financiamento e confirmação da viabilidade econômica das jazidas.

Nova política federal e industrialização

O avanço das pesquisas ocorre poucas semanas depois da sanção, pelo presidente Lula (PT), da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, em setembro. A legislação estabelece instrumentos para estimular investimentos e ampliar o processamento industrial desses materiais no Brasil.

A política prevê a possibilidade de criação de um fundo garantidor com participação da União de até R$ 2 bilhões, além de créditos fiscais de até R$ 1 bilhão por ano, entre 2030 e 2034, destinados a atividades de processamento, transformação e recuperação de minerais estratégicos.

O objetivo do governo federal é permitir que uma parcela maior das etapas industriais permaneça no país. Atualmente, a extração e a produção de concentrados representam apenas parte da cadeia econômica das terras raras. A separação dos elementos e a fabricação de metais, ligas e ímãs concentram atividades de maior complexidade tecnológica.

No Tocantins, a presença de empresas estrangeiras e os registros de pesquisas minerais colocam diferentes regiões do estado entre as áreas de interesse do setor. O potencial econômico desses empreendimentos, porém, ainda depende dos resultados das sondagens, de investimentos e da eventual instalação de operações comerciais. Os R$ 17,5 bilhões identificados no levantamento nacional não representam recursos destinados exclusivamente ao território tocantinense.