As dores e a solidão de ser professor: quando ensinar virou perigoso
28 junho 2026 às 10h10

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Fernando Maciel Vieira
Há uma dor que não aparece no laudo médico, não consta no atestado, não tem CID que a nomeie com exatidão: a dor de entrar na sala de aula com medo. Não o medo saudável de quem enfrenta um desafio, aquele que faz a adrenalina trabalhar bem. Mas o medo visceral, primário, de quem não sabe o que o espera do outro lado da porta. Esse medo virou companheiro de trabalho de muitos professores brasileiros — e a maioria enfrenta essa companhia em silêncio, como quem engole o choro antes de tomar a chamada.
Ser professor no Brasil de hoje é carregar um fardo que cresceu demais para um único par de ombros. É preciso ensinar, mas também acolher, mediar, conter, acalmar, registrar, responder a formulário, cumprir meta, suportar ameaça, aguentar humilhação e ainda, por favor, fazer isso com sorriso — porque afinal, não era essa a vocação? A narrativa do professor-herói, discutida aqui na semana passada, serve também para isso: para que ninguém precise se perguntar por que o herói está tão adoecido.
Em 2023, mais de 150 mil professores da rede pública brasileira foram afastados por transtornos mentais — depressão, burnout, ansiedade — segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Cento e cinquenta mil. É uma cidade média esvaziada de dentro para fora, não por epidemia de vírus, mas por epidemia de descaso. Só em São Paulo, 112 professores eram afastados por dia por problemas de saúde mental nos primeiros seis meses de 2024 — um aumento de 15% em relação ao ano anterior. São 112 salas de aula que amanheceram sem professor, 112 histórias que ninguém contou no telejornal, 112 seres humanos que chegaram ao limite e ninguém foi buscar antes (Stecca, 2025).
A solidão é parte central desse quadro. Não é a solidão de quem está sozinho no mundo — é aquela solidão específica de quem trabalha rodeado de gente e, ainda assim, não tem com quem dividir o peso. O professor entra na sala, fecha a porta e enfrenta sozinho o que o sistema não resolveu lá fora: a família que não aparece, o aluno que chega com fome, a violência que vem de casa e se desconta na aula. Não há suporte psicológico sistemático, não há supervisão que acolha, não há par que tenha tempo — porque o colega também está sobrecarregado, também está sobrevivendo a sua própria turma de 40.
Numa pesquisa com mais de 1,5 mil professores de Santa Catarina, a ansiedade e a insegurança psicológica apareceram como as emoções mais recorrentes em relação ao trabalho, relatadas por 53% dos docentes, seguidas do esgotamento mental por 44%. Dos pesquisados, 68,5% afirmaram ter ido trabalhar mesmo doentes ou com muita dor — sendo o principal motivo o desejo de não atrasar o conteúdo e prejudicar os alunos. Leia isso com cuidado: o professor vai doente para não prejudicar o aluno que, muitas vezes, não percebe — e o sistema, que percebe, não age. É o retrato de uma categoria que aprendeu a se sacrificar como virtude e descobriu tarde que o sacrifício tem limite (TRT12, 2024).
A violência física veio para confirmar o que a violência simbólica já fazia há muito tempo. Em outubro de 2025, um professor no Distrito Federal foi agredido com socos e chutes no rosto por um pai de aluna — dentro da própria escola — porque havia pedido à estudante que parasse de usar o celular durante a aula. O agressor quebrou os óculos do professor e arrancou uma corrente com crucifixo de seu pescoço. O educador não revidou. Não revidou. Porque o professor aprendeu que revidar é perder o emprego. Que se defender é inconveniente. Que a culpa, de algum modo, sempre encontra um jeito de chegar até ele (Silva, 2025).
Na Inglaterra, quase um em cada cinco professores foi agredido por um aluno num único ano. Na Espanha, 91% dos professores de escolas públicas afirmaram ter problemas de convivência nas salas de aula, e oito em cada dez sofreram agressões físicas ou verbais. A violência contra professores não é invenção brasileira — é fenômeno global. Mas no Brasil ela encontra um terreno particularmente fértil: remuneração baixa, turmas superlotadas, ausência de suporte institucional e uma cultura que, ao mesmo tempo, idealiza a docência e despreza quem a exerce (Sinesp, 2024).
A essa altura, soma-se ainda a vigilância permanente: professores são gravados pelos alunos, monitorados por pais nas redes sociais, expostos publicamente antes que qualquer apuração ocorra. O professor virou alvo fácil na era do vídeo rápido e do julgamento instantâneo. Um segundo fora de contexto vale mais do que vinte anos de sala de aula. É a mais nova forma de violência — e a mais covarde, porque não deixa marca visível, só destroça reputação, gera processo e aprofunda o medo (Revista Educação, 2025).
O que sobra, no fim do dia, é o professor sozinho com sua dor. Sem protocolo de acolhimento, sem estrutura de escuta, sem política pública de proteção que funcione de verdade. Em março de 2023, um ataque com faca na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, feriu quatro professoras e matou uma delas. O autor tinha 13 anos. O Brasil ficou chocado por uns dias. Depois passou. E os professores voltaram para a sala de aula — porque era segunda-feira, porque havia conteúdo para dar, porque o sistema não para (Sinteal, 2025).
Diz um ditado árabe que “quem ensina um homem a pescar alimenta uma geração; quem destrói o pescador não alimenta nenhuma.” O Brasil parece determinado a destruir o pescador. Com salário aviltante, com abandono estrutural, com uma violência que cresce e não encontra resposta à altura. E enquanto o professor adoece, vai embora, ou fica e sobrevive em modo automático — a nação vai perdendo, sem perceber, a única profissão que é capaz de tornar todas as outras possíveis.
Não basta aplaudir na pandemia e ignorar no orçamento. Não basta homenagear em outubro e ameaçar em novembro. Não basta pedir dedicação de quem está no limite e oferecer em troca apenas mais cobrança. O professor está doendo. E a dor que não é cuidada não some — ela contamina. Contamina a sala de aula, contamina o aluno, contamina o futuro que um dia alguém imaginou construir naquele lugar chamado escola.
