Da fogueira à sala de aula: o que Severino nos ensina sobre a dor do professor
22 junho 2026 às 08h41

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Por Fernando Maciel Vieira
O forró começa. A sanfona puxa o ar, a zabumba marca o passo, o triângulo risca o tempo. Dois corpos se aproximam. Uma mão encontra a cintura, a outra se entrelaça no alto. E duas pessoas, sem contrato e sem currículo, decidem confiar uma na outra pelo tempo de uma música.
Essa cena simples carrega uma filosofia que o Nordeste vem ensinando há séculos e que a educação brasileira ainda não aprendeu: a alegria não espera pela abundância. O sertanejo que celebra o São João com a terra ainda rachada não está fingindo que a seca passou. Está dizendo, com o corpo e com a fogueira, que a vida vale ser vivida agora — neste chão, com esta gente, com o que se tem.
João Cabral de Melo Neto entendeu isso antes de todos. Em Morte e Vida Severina, acompanhamos um retirante que desce o Capibaribe carregando no nome a própria condição: Severino, nome de multidão, nome de quem o sistema nunca precisou distinguir. Ele atravessa paisagens de morte, de abandono, de invisibilidade. E, no final da jornada, assiste ao nascimento de uma criança no mangue do Recife e pergunta ao pai: vale a pena? Vale trazer mais um ao mundo assim?
O pai responde que sim. Porque a festa que os vizinhos pobres fazem pelo recém-nascido não é negação da miséria — é afirmação, radical e política, de que aquela vida importa. De que aquele menino tem nome. De que chegou.
É essa mesma lógica que pulsa no coração do São João. A fogueira não nega a seca. O forró não promete fartura. A quadrilha não finge que a vida é fácil. Mas diz, com cada passo: ainda assim, aqui estamos. E isso — esse gesto coletivo de existir juntos apesar de tudo — é uma das formas mais sofisticadas de resistência que um povo pode desenvolver.
A dor, nessa tradição, não desaparece: ela se transmuta. Luiz Gonzaga pegou a Asa Branca que fugia da seca e devolveu ao Brasil uma melodia que todos passaram a cantar — inclusive os que jamais viram o sertão. O cordel registrou o que o arquivo oficial ignorou. A sanfona guardou o que o livro didático esqueceu. Há uma alquimia nisso: pegar o que machuca e devolver em forma de beleza. Poucas culturas fizeram isso com tanta generosidade.
Mas o que tudo isso tem a ver com a educação brasileira?
Tudo. Porque Severino ainda entra pela porta da escola todos os dias. Com outro nome, em outro estado, em outra língua — mas com a mesma invisibilidade. A escola que não vê quem chega, que ensina sem perguntar quem aprende, que mede sem perguntar o que vale a pena medir, reproduz exatamente o que o poema de João Cabral denuncia: um sistema que produz gente sem nome próprio, sem lugar reconhecido, sem identidade confirmada.
O filósofo Axel Honneth nos lembra que o reconhecimento não é luxo — é condição. Ser visto em sua singularidade, ter sua existência confirmada pelo olhar do outro, saber que o que você é importa: isso não é afeto supérfluo. É o que torna possível aprender, crescer, confiar. Sem reconhecimento, o que a escola entrega não é educação — é mais um trecho de rio para o retirante cruzar sozinho.
Paulo Freire dizia que ninguém educa ninguém — que os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. O forró é a demonstração mais viva disso. Aprende-se a dançar no corpo do outro, no erro que vira giro, no tropeço que vira riso. A aprendizagem acontece na relação, na confiança, na disposição de conduzir e de se deixar conduzir. Mas a escola, pressionada por avaliações externas e metas de desempenho, tende a fazer o inverso: isola o estudante diante de sua prova, mede o que ele consegue fazer sozinho e compara esse resultado com o de outros igualmente isolados.
O arraial não funciona assim. O arraial inclui sem pré-requisito. Você não precisa saber dançar para dançar. Não precisa ter nascido no Nordeste para sentir a zabumba no peito. A festa não exige competência prévia: ela a produz pelo engajamento, pelo risco de tentar, pelo calor de tentar junto.
A questão, então, não é importar o forró para dentro da sala de aula — embora isso não seja má ideia. A questão é saber se a educação brasileira está disposta a aprender com a pedagogia que o Nordeste vem praticando nas praças abertas há gerações: que toda criança que chega à escola chegou. Que esse fato, por si só, merece ser celebrado. Que o professor que a recebe não está fazendo um favor ao futuro da nação — está, antes de tudo, encontrando uma pessoa.
Severino não precisa de mais uma escola que não o veja. Precisa de uma que saiba fazer festa por ele ter chegado.
Cordel de Severino na Escola
(para ler em voz alta, de preferência com zabumba ao fundo)
Meu nome é Severino,
não tenho outro de pia,
mas entrei pela porta da escola
numa manhã de fria.
A professora me olhou
como quem olha a parede,
perguntou se eu tinha caderno
e foi embora com a rede
de conteúdos já prontos
pra quem não tem sede.
Aprendi que dois mais dois
dá quatro em qualquer nação,
mas não aprendi meu nome
na conta nem na lição.
No arraial do São João
a festa me chamou pelo nome —
ninguém pediu meu boletim,
ninguém mediu meu volume.
A zabumba disse: entra.
E eu entrei com o meu costume.
Escola que não dança
só ensina quem já sabe.
Quem já sabe de tudo
não precisa que ninguém abra
a porta do conhecimento —
entra só, não pede passagem.
Mas Severino precisa
de quem lhe dê uma homenagem.
No fim do poema, Severino
viu nascer um menino pobre
e perguntou: vale a pena?
Vale viver sem cobre?
O mestre respondeu: sim.
Porque nasceu — e isso é um dom.
Porque chegou — e isso basta.
Porque existe — e isso é bom.
Se a escola aprendesse isso
que o arraial já sabe bem —
que toda criança que chega
já traz o que lhe convém —
Severino teria nome
e a festa seria o além.
— F.M.V.
