Por que ensinar se a maioria dos alunos não quer? Professor fim de bimestre
21 junho 2026 às 16h06

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Por Fernando Maciel Vieira
Chegou o fim do bimestre. E com ele, aquela sensação familiar que mistura alívio, luto e a discreta satisfação de quem atravessou um campo minado de chinelos. O professor fecha o diário, olha para os números e pensa, com a serenidade de quem já passou por isso oito vezes por ano há vinte anos: como é possível que isso ainda me surpreenda?
Não surpreende. Mas dói. Todo fim de bimestre dói de um jeito novo.
Vamos ser honestos — coisa rara nesse ofício, onde a honestidade é frequentemente confundida com pessimismo e o otimismo, com incompetência disfarçada de fé. A verdade que nenhum coordenador pedagógico diz em voz alta na reunião de conselho de classe, mas que todo professor pensa enquanto finge anotar algo no caderno, é esta: uma parte considerável dos alunos não quer aprender o que estamos ensinando. Não hoje. Não agora. Talvez nunca, no formato em que estamos oferecendo.
Dito assim, parece catástrofe. Mas é apenas o retrato honesto de qualquer sala de aula real — não a sala de aula dos projetos político-pedagógicos, que costuma ter alunos atentos, professores inspirados e uma janela com luz perfeitamente inclinada sobre o texto de Machado de Assis. A sala real tem trinta e dois estudantes, dois ventiladores quebrados desde março, um celular tocando funk no fundo e um aluno na terceira carteira que está, tecnicamente, acordado, mas cujos olhos comunicam que a consciência foi passear e não deixou endereço.
Por que, então, continuar ensinando?
A pergunta é séria e merece ser levada a sério — não respondida com aquele repertório de frases motivacionais que circulam nas formações continuadas e nos grupos de WhatsApp de professores às 23h de domingo. “A diferença que você faz na vida de cada aluno.” “Plante hoje, colha amanhã.” “Você é a luz no caminho deles.” Com todo o respeito a quem acredita genuinamente nessas frases: elas são lindas e, na maior parte das terças-feiras de setembro, absolutamente insuficientes.
Paulo Freire — que o Brasil cita com reverência e aplica com displicência — escreveu que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua produção. Bela frase. Mas Freire nunca teve que explicar isso para uma turma de 9.º ano às 13h15 depois do recreio, quando a glicose caiu, o calor subiu e o conteúdo é equações do segundo grau. Nesse momento, a epistemologia da esperança encontra seus limites práticos — e o professor, sozinho diante da turma, improvisa.
O problema, naturalmente, não são os alunos. Nunca é só os alunos, e quem acha que é já perdeu metade do argumento antes de começar. O problema é uma equação muito mais perversa, que tem variáveis chamadas: família que não dorme direita porque a renda não fecha; celular que oferece dopamina instantânea enquanto a escola oferece esforço diferido; governo que promete valorização e entrega piso salarial descumprido; coordenação que pede relatório; direção que pede plano de recuperação; secretaria que manda formulário; e o professor que, no meio de tudo isso, ainda precisa ser motivador, psicólogo, assistente social e, de vez em quando, se possível, professor.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha que nunca pisou numa escola pública do Tocantins mas que de algum modo a descreveu perfeitamente, argumenta que vivemos numa sociedade do cansaço — uma era em que o excesso de estímulos e demandas não liberta, mas paralisa. O aluno que olha para o quadro negro e não consegue se concentrar por mais de três minutos não é preguiçoso: é um ser humano cujo sistema de atenção foi sequestrado por algoritmos infinitamente mais sofisticados do que qualquer método de ensino disponível ao professor da rede pública. O Instagram sabe exatamente quando liberar dopamina. O professor tem giz.
E no entanto.
E no entanto, toda vez que um aluno — um, no fundo da sala, que você quase não notou no primeiro mês — de repente faz uma pergunta que revela que ele estava ouvindo quando parecia não estar, acontece algo que nenhuma estatística do PISA consegue capturar. Não é milagre pedagógico. Não é prova de que o método funcionou. É simplesmente a confirmação de que a presença importa — mesmo quando não parece, mesmo quando os números dizem o contrário, mesmo quando o diário fecha com mais vermelhos do que deveria.
John Hattie, pesquisador australiano que passou décadas analisando o que realmente faz diferença na aprendizagem, identificou um fator que supera método, tecnologia e currículo: a qualidade da relação entre professor e aluno. Não afeto piegas — relação. Presença real, expectativa genuína, feedback honesto. O professor que acredita que o aluno pode aprender produz, em média, alunos que aprendem mais. O mecanismo é misterioso e robusto ao mesmo tempo: ninguém sabe exatamente como funciona, mas funciona.
O problema é que acreditar cansa. Especialmente quando o bimestre fecha.
Então por que ensinar quando a maioria não quer?
Porque querer não é um estado fixo — é uma condição que se produz, às vezes lentamente, às vezes por acidente, quase sempre depois de muito tempo. O aluno que hoje dorme na terceira carteira pode, em cinco anos, lembrar de uma aula — não do conteúdo todo, mas de um momento, uma frase, um problema que ficou sem resposta e que ele nunca esqueceu. A educação opera em escala de tempo que a política não suporta e que o professor raramente vê: seus resultados chegam quando você já está em outra sala, com outra turma, ou aposentado, ou morto.
Isso seria trágico se não fosse, também, libertador. O professor que entende que seu trabalho não produz resultados imediatos — e que ainda assim vai à escola na segunda-feira — não é ingênuo. É alguém que fez as pazes com a temporalidade do seu ofício. É alguém que entendeu, de um modo que poucos profissões exigem, que se trabalha para além de si mesmo.
Há uma cena que todo professor conhece e que nenhum currículo de licenciatura prepara adequadamente: o último dia do bimestre, quando você olha para a turma e percebe que alguns chegaram mais longe do que você esperava — e outros ficaram mais atrás do que você gostaria. Os dois lados dessa constatação doem de modos diferentes. O sucesso dos que avançaram carrega sempre a pergunta: o que foi meu e o que teria acontecido de qualquer jeito? O fracasso dos que ficaram carrega a pergunta mais pesada: o que eu deixei de fazer?
Essa pergunta, quando não paralisa, é o que separa o professor do funcionário. O funcionário fecha o diário e vai embora. O professor fecha o diário, vai embora, chega em casa, abre o diário mentalmente e continua.
No fim do bimestre, depois de tantos anos, aprendi a fazer as pazes com o paradoxo: é possível ensinar para quem não quer, porque o querer não precisa vir antes — pode vir durante, ou depois, ou nunca chegar com o nome que a gente espera. A semente que você planta numa aula de geografia numa cidade pequena do Tocantins pode germinar numa forma completamente diferente da que você planejou, num tempo que você não viverá para ver, num sujeito que um dia vai se perguntar de onde veio aquela ideia estranha de que o mundo pode ser explicado — e que não vai lembrar exatamente do seu nome, mas vai lembrar de ter tido um professor.
É pouco. É muito. Depende do dia.
Hoje, fim de bimestre, é pouco e muito ao mesmo tempo.
Amanhã tem aula.
