O Tocantins precisa manter suas mulheres vivas
24 julho 2026 às 10h45

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O Tocantins tem mais mulheres do que homens entre seus eleitores. Elas são maioria nas urnas, representam mais da metade do eleitorado e têm poder para definir os rumos políticos do Estado. Mas, antes de qualquer disputa eleitoral ou debate sobre representatividade, existe uma urgência mais básica: garantir que elas estejam vivas para participar do futuro que ajudam a construir.
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostram uma realidade que exige atenção. Em 2025, o Tocantins registrou aumento de 52,8% nos casos de feminicídio, passando de 13 para 20 mortes. Com uma taxa de 2,5 feminicídios para cada 100 mil mulheres, o Estado ficou entre os piores índices do país, ocupando a quarta maior taxa nacional.
O cenário ganha ainda mais peso quando analisado ao lado dos demais indicadores de violência. O Tocantins conseguiu reduzir as Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025. Foram 307 vítimas, contra 312 em 2024, uma queda no número geral de mortes violentas. O Estado também registrou redução expressiva nas mortes decorrentes de intervenção policial, que caíram quase pela metade no período.
Os avanços mostram que políticas de segurança pública conseguem produzir resultados, mas também revelam um desafio específico: enquanto a violência letal geral apresenta redução, a violência contra mulheres continua exigindo respostas mais efetivas.
O feminicídio raramente acontece como um episódio isolado. Na maioria das vezes, ele é o ponto final de uma sequência de violências que começa antes, com ameaças, agressões, controle, perseguições e outras formas de dominação. Quando uma mulher é assassinada, muitas vezes os sinais já estavam presentes e a rede de proteção não conseguiu interromper esse ciclo.
Essa realidade também aparece nos números de violência sexual. O Tocantins registrou 1.080 vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O Estado ficou na sexta posição entre os maiores índices do país, com uma taxa de 68,1 casos por 100 mil habitantes.
Entre as mulheres, foram 922 vítimas, uma taxa de 116,9 casos por 100 mil mulheres, também colocando o Tocantins entre os estados com maiores índices nacionais. A maioria dos registros envolve estupro de vulnerável, crime que atinge principalmente crianças e adolescentes, com mais de 80% das vítimas sendo meninas.
Os números mostram que a violência contra mulheres e meninas não começa no feminicídio. Ela passa por diferentes etapas e pode atravessar toda uma trajetória de vida quando não há prevenção, acolhimento e proteção.
O desafio do Tocantins, portanto, não é somente reduzir estatísticas criminais. É preciso garantir que as mulheres estejam protegidas antes que a violência alcance seu estágio mais extremo.
As mulheres são maioria entre os eleitores tocantinenses. Elas escolhem representantes, participam da economia, sustentam famílias e ocupam espaços importantes na sociedade. Ainda assim, muitas continuam enfrentando uma realidade em que o direito mais básico, o direito à vida, não está plenamente garantido.
Em um ano marcado pelo debate eleitoral, os números deveriam provocar uma reflexão sobre quais prioridades estarão na agenda pública. A proteção das mulheres precisa ser uma política permanente, não pode ser só uma resposta após uma tragédia.
O Tocantins precisa ouvir suas mulheres, porque elas são maioria nas urnas. Mas, antes de tudo, precisa mantê-las vivas.
