Quando olho o Brasil de agora, penso: aonde chegamos?
24 setembro 2026 às 15h55

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Por Fernando Maciel Vieira
Mas — e aqui mora a diferença entre a crônica que só ri e a crônica que também pensa — rir da tragédia sem apontar saída é apenas anestesia, e anestesia em excesso mata o paciente enquanto o distrai da dor. Este texto não escolhe lado de camisa, porque a crise brasileira não é de time, é de método: falta reconstruir instituições que sirvam ao país e não a si mesmas, falta investimento sério e continuado em educação como projeto de Estado e não de governo, falta reaprender a divergir sem se destruir — o que Arendt chamaria de recuperar o espaço público como lugar de pluralidade, não de guerra. Falta, sobretudo, que cada brasileiro devolva à política aquilo que ela perdeu: a exigência. Porque “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, e se a cobrança organizada, informada e persistente for a pedra que golpeia certo, ainda há Brasil a se reconstruir do outro lado dessa piada de mau gosto que estamos vivendo. O riso, aqui, não é resignação — é o primeiro passo para deixar de rir e começar, enfim, a agir.
Diz o ditado que “quem não tem cão, caça com gato”, e o Brasil, sem liderança que valha, tem caçado com o que aparece — populista de plantão, salvador da pátria de ocasião, sempre o mesmo circo com artistas trocados. Ligo a televisão e vejo um país que trocou o debate de ideias pelo grito de arquibancada, que trocou o projeto de nação pelo meme de terça-feira. “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, e por aqui parece que multiplicaram os reis e reduziram, ano após ano, os olhos.
Não é de hoje que a política brasileira convive com essa espécie de amnésia funcional. Zygmunt Bauman já avisava que vivemos numa modernidade líquida, onde tudo escorre pelas mãos antes que possamos compreender — os escândalos escorrem, as promessas escorrem, a indignação escorre com a mesma velocidade com que surge, e no dia seguinte já estamos indignados com outra coisa, o que é conveniente demais para ser acidente. Byung-Chul Han diria que trocamos a política do pensamento pela política do estímulo: já não discutimos projetos, reagimos a notificações. E assim seguimos, “de grão em grão”, só que ao invés da galinha encher o papo, é o buraco fiscal que engorda e a paciência do povo que esvazia.
“Cada macaco no seu galho” — só que por aqui os galhos se confundem, e cada poder finge não enxergar o outro empoleirado onde não deveria estar. O Legislativo se apequena diante do Executivo quando convém, o Executivo grita golpe quando o Judiciário aperta o cerco, e o Judiciário, entre uma toga e outra, decide o que é urgente com a mesma imparcialidade de quem escolhe padrinho de casamento. Hannah Arendt já havia diagnosticado esse fenômeno: quando as instituições deixam de ser espaço de ação plural e viram palco de vaidades, a política se esvazia e sobra o espetáculo. E o povo, coitado, assiste, porque “cão que ladra não morde” — só que aqui late todo mundo e ninguém resolve nada.
Sigamos ao noticiário econômico, que também é hilário se não fosse trágico: sobem os juros, sobe o preço do gás, sobe o boleto, e só não sobe o salário de quem trabalha o mês inteiro para “fazer segunda-feira caber no domingo”. Pierre Bourdieu chamaria isso de violência simbólica travestida de fatalidade — convencem o pobre de que sua pobreza é escolha, de que basta “correr atrás”, como se corrida valesse alguma coisa numa pista com regras diferentes para cada corredor. Enquanto isso, explica-se ao trabalhador que o aperto é “para o bem do país”, frase que, no Brasil, historicamente, nunca aperta igual para todo mundo.
E a educação, ah, a educação — “filho de peixe, peixinho é”, dizem, como se fosse destino e não política pública a decidir quem nada e quem afunda. Paulo Freire já ensinava que educação não é depósito de conteúdo, é prática de liberdade; por aqui, virou depósito de promessa de campanha, recolhida assim que a urna fecha. Escola sem verba, professor sem reconhecimento, aluno sem horizonte — e mesmo assim exigem resultado, como quem cobra fruta de árvore que não se rega. “Quem planta vento, colhe tempestade”, e nós plantamos décadas de descaso; não é de espantar que a colheita venha em forma de país que não lê, não debate, e troca argumento por grito.
