Por Fernando Maciel Vieira

Há uma economia perversa nesse ataque, e ela tem nome: bode expiatório. O filósofo francês René Girard já explicava, décadas atrás, que toda sociedade em crise precisa de um sacrifício simbólico para aliviar suas próprias contradições — alguém que pague, sozinho, pela desordem coletiva. O professor tornou-se esse sacrifício contemporâneo: culpa-se a escola pela violência que a sociedade produz em casa, culpa-se o docente pela desatenção que o algoritmo do celular disputa palmo a palmo, culpa-se quem ensina pela ignorância que décadas de desinvestimento público cultivaram com esmero. É mais fácil atacar quem está na sala de aula do que encarar o espelho de um país que trata educação como despesa, não como projeto de nação.

E que lutas são essas que tão convenientemente esquecem? A luta por um piso salarial que, na prática, muitos estados driblam com criatividade digna de engenharia financeira. A luta contra jornadas de trabalho que somam três empregos para fechar um salário decente — o que Ricardo Antunes chamaria, com precisão cirúrgica, de precarização travestida de vocação. A luta silenciosa contra o adoecimento psíquico, que estudos como os de Wanderley Codo já denunciavam desde os anos 1990 e que ninguém, até hoje, resolveu de fato. A luta, ainda mais invisível, por ser ouvido nas decisões pedagógicas que outros tomam por ele, num paradoxo digno de tese de doutorado: cobram resultado de quem não tem voz no processo.

A socióloga Nancy Fraser tem uma chave interessante para entender esse fenômeno: ela fala em injustiça de reconhecimento, aquela que humilha simbolicamente um grupo, e injustiça de redistribuição, aquela que o empobrece materialmente. O professor brasileiro sofre as duas ao mesmo tempo, num combo que nenhum plano de carreira compensa. É xingado nas redes sociais por “doutrinar” e, na mesma semana, recebe contracheque que mal cobre o aluguel. É acusado de não ensinar o básico e, simultaneamente, impedido de reprovar quem não aprendeu, porque a meta de aprovação precisa fechar bonita no relatório da secretaria.

Convenhamos: é uma armadilha perfeita. Constrói-se um personagem — o professor preguiçoso, o professor ideológico, o professor que “só quer férias” — e, uma vez consolidado o personagem, ninguém mais precisa discutir currículo, infraestrutura, formação continuada ou salário digno. Basta apontar o dedo. O antropólogo Achille Mbembe, ao pensar as necropolíticas contemporâneas, lembra que todo poder que quer se sustentar sem se explicar precisa de um corpo para culpar publicamente. O professor tornou-se esse corpo: visível, acessível, sem sindicato forte o bastante para revidar, e, principalmente, sem tempo — porque quem corrige quatrocentas provas à noite não tem energia sobrando para rebater tuíte.

Mas há um detalhe que os arquitetos desse ataque parecem sempre esquecer: o professor é, também, o único adulto que resta, na vida de muita criança pobre deste país, para lembrá-la de que ela tem valor. Atacar quem ensina não é apenas covardia intelectual — é miopia histórica. Porque toda vez que se humilha publicamente um professor, humilha-se, por tabela, cada aluno que um dia vai precisar de alguém que acredite nele quando mais ninguém acreditar. E isso, nenhuma nota de imprensa, nenhum vídeo viral, nenhum comentário raivoso vai conseguir apagar: o professor continua entrando em sala, ainda que o país inteiro insista em fingir que ele não existe fora dela.