Por Rita de Cássia Guimarães Melo1

Reclamar da ausência de placas de rua em Palmas não é capricho estético de morador exigente; é o sintoma escancarado da omissão sistemática do poder público. Uma capital erguida sob a promessa de planejamento e modernidade não pode falhar no dever mais elementar de qualquer administração municipal: dizer aos cidadãos onde eles pisam, vivem e transitam.

A gravidade desse abandono tem hora marcada para se revelar. Sob a luz do dia, o palmense ainda tenta contornar o problema recorrendo à memória visual: a cor de um portão, a sombra de uma mangueira ou a fachada de um comércio conhecido. Porém, basta o sol se pôr para o cenário virar pesadelo. Em alamedas escuras, desprovidas de postes de identificação e com numerações sumidas nos muros, qualquer deslocamento noturno se transforma em agonia. É rotineiro ver trabalhadores, entregadores e famílias rodando por quase uma hora, reféns do breu, com os vidros trancados e a insegurança à espreita, tentando adivinhar onde começa e onde termina determinado endereço.

A falta de sinalização ultrapassa o incômodo burocrático e atinge em cheio a segurança e a saúde pública. É a placa na esquina que orienta com agilidade a viatura da polícia em patrulhamento preventivo, o socorro urgente de uma ambulância do SAMU ou a entrega rápida de quem ganha o sustento na rua. Em situações de socorro emergencial, cada minuto gasto decifrando um labirinto sem nomes custa vidas humanas. Enquanto a Prefeitura arrecada pontualmente o IPTU e a taxa de iluminação, devolve à população um território anônimo e perigoso.

Romantizar o fato de que o morador “dá um jeito” com referências informais é normalizar o descaso. Não é aceitável que, em uma capital de 320 mil habitantes, quem vive e produz aqui há décadas continue refém exclusivo de aplicativos de mapas para reconhecer a própria rua. Há inclusive uma transferência perversa de soberania: quando a Prefeitura se omite em sinalizar o solo urbano, delega a governança e a toponímia da cidade aos algoritmos de corporações privadas. O aplicativo passa a mandar no espaço que a administração foi incapaz de organizar.

Essa inércia apaga memórias e cobra um preço desmedido da sociedade. Não faltam verbas para peças publicitárias que vendem uma cidade futurista, mas falta a decência básica de instalar placas reflexivas nos cruzamentos para guiar quem volta cansado para casa no escuro.

Uma gestão que abandona seus munícipes à própria sorte na escuridão de vias mudas não tem legitimidade para discursar sobre “cidade inteligente”. A falta de placas não é mero descuido; é negligência continuada. Até quando Palmas continuará cobrando impostos de cidade grande enquanto se recusa a acender a luz e dizer o próprio nome?

  1. Moradora de Palmas, historiadora, professora Universidade Federal do Tocantins. Contato: [email protected]. ↩︎