Todos os anos, quando a fumaça toma conta das cidades e os incêndios avançam sobre o Cerrado, a sensação é a de que fomos pegos de surpresa. Mas, na maioria das vezes, não fomos. Os avisos existiam. As previsões estavam disponíveis. O problema é que elas nem sempre são levadas a sério.

A nova projeção climática divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente indica que o El Niño deve ganhar força nos próximos meses. Para estados como o Tocantins, isso significa menos chuva, temperaturas mais altas e um cenário ainda mais favorável às queimadas. Não é uma previsão qualquer, é um alerta e alerta deveria servir para provocar ação.

O Tocantins conhece bem os efeitos da estiagem. Basta lembrar dos últimos anos. Brigadistas enfrentando incêndios por semanas, produtores rurais acumulando prejuízos, parques e áreas de preservação queimados, cidades cobertas por fumaça e hospitais recebendo mais pacientes com problemas respiratórios. Tudo isso já aconteceu e pode se repetir.

É claro que nenhum governo controla o clima. Mas todos podem e devem se preparar para enfrentar suas consequências.

Isso passa por planejamento, investimento e coordenação. Brigadas precisam estar estruturadas antes do fogo começar. Municípios precisam receber apoio técnico. A fiscalização das queimadas ilegais não pode depender apenas de operações emergenciais. Também é necessário investir em informação, porque muitos incêndios ainda têm origem em ações humanas que poderiam ser evitadas.

Existe uma tendência, no Brasil, de tratar prevenção como gasto e emergência como prioridade. É uma lógica cara e pouco eficiente. Quando o assunto é clima, agir depois custa muito mais. Custa recursos públicos, custa produção, custa biodiversidade e, em alguns casos, custa vidas.

As mudanças climáticas estão tornando eventos extremos mais frequentes. Independentemente das discussões sobre suas causas, uma coisa é inegável: governos precisam incorporar essa realidade ao planejamento. Não basta reagir. É preciso antecipar.

O El Niño não espera o calendário político, nem o fechamento do orçamento, nem o fim das disputas entre governos. A natureza segue seu curso.

Os alertas já foram feitos pelos cientistas. Agora, cabe aos gestores mostrar que foram capazes de ouvi-los. Se o pior cenário se confirmar, a população terá o direito de cobrar o que foi feito para evitá-los. Essa é a diferença entre administrar uma crise e apenas correr atrás dela.