A fachada da “família tradicional brasileira”, meticulosamente cultivada pela família Bolsonaro como pilar moral de seu projeto político, ruiu de forma barulhenta e irreversível. O que antes era uma guerra silenciosa de egos e projetos pessoais, travada nos bastidores do clã, irrompeu aos olhos de todos, expondo uma disputa pela herança política de um patriarca condenado. 

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ao pedir demissão da presidência do PL Mulher no dia 30 de junho, detonou uma bomba de fragmentação que ameaça pulverizar a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e, por extensão, liquefazer as pretensões de toda a direita que orbita a família. Enquanto isso, do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva observa, com a serenidade de quem vê o adversário tropeçar nos próprios pés.

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A crise, que se intensificou desde que o Intercept revelou o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro a pedido do primogênito de Jair, transcendeu qualquer divergência planejada. Ela mostra uma luta pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Não há ideologia em jogo, mas um cálculo de poder. Michelle, ao gravar um vídeo de 27 minutos com uma clareza retórica que os filhos de Jair jamais alcançaram, rasgou o véu da hipocrisia. 

“Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”, disparou, transformando o que era uma troca de farpas em um acerto de contas.

A cronologia da desagregação mostra o caso de incoerência. Em dezembro, Flávio chamou a madrasta de “autoritária” após ela se opor à aliança com Ciro Gomes no Ceará, um ex-adversário que já chamara os filhos do ex-presidente de “ladrões”. Michelle, que acompanha o marido de 71 anos, revidou em fevereiro: publicou um vídeo fritando bananas, uma provocação direta a Eduardo Bolsonaro, o “bananinha”, que a havia cobrado por não apoiar Flávio. “Ele ama banana frita”, legendou a então primeira-dama da prisão domiciliar. 

Enquanto os irmãos se uniam para atacá-la, Michelle seguia preparando sua vingança, apoiando à deputada Caroline de Toni contra Carlos Bolsonaro em Santa Catarina e lamentando a queda da deputada Soraya Santos, rifada pelo próprio Flávio em um acordo político. “Soraya, o TCU seria muito melhor com você lá. Triste dia!”, escreveu ela, expondo a falácia do discurso de defesa das mulheres.

O resultado dessa guerra civil familiar é desastrosa para a direita. Um levantamento da DSC Lab divulgado nesta semana mostra que a vantagem de Flávio sobre Lula no Índice Brasil de Impacto Digital despencou praticamente pela metade, caindo de 32,08 para 18,29 pontos. A taxa de engajamento do senador simplesmente derreteu de 2,06% para 1,01%, enquanto o volume de curtidas encolheu 70,9% entre 18 e 23 de junho

Se o bolsonarismo não fosse uma seita, a candidatura do filho já teria naufragado. O fogo-amigo que Michelle ateou, sem qualquer preocupação com o desgaste do enteado, revela uma força política centrada em um único membro do clã.

Enquanto Flávio pediu desculpas em nota afirmando: “sou casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida”, para tentar estancar o banho de sangue, a imagem de caos já se consolidou. Cada capítulo desta novela mostra a verdade que o bolsonarismo sempre tentou esconder: a família que posava de bastião moral é, na realidade, um campo minado de vaidades e traições. 

Essa instabilidade enfraquece ainda mais a fraca direita e pavimenta, com requintes de autossabotagem, o caminho de uma oposição fragmentada rumo à reeleição de Lula, um líder que projeta justamente o que falta aos seus rivais: estabilidade.