Fernando Maciel Vieira 

Tem datas que funcionam como espelho retrovisor incômodo. 2014 é uma delas. Lembra? O Brasil inteiro virou canteiro de obras “padrão FIFA” — estádios refeitos, ampliados, climatizados, com gramado que parecia tapete de sala de visita. Bilhões — e aqui não é exagero retórico, é número mesmo, na faixa de mais de 20 bilhões de reais somando obras de estádios, mobilidade e entorno — foram direcionados para que o Brasil pudesse, por um mês, brilhar aos olhos do mundo. E brilhou. Por um mês.

Enquanto isso, a algumas ruas de distância dos estádios recém-inaugurados, escolas públicas continuavam — adivinhe — com goteira. A mesma goteira de antes da Copa. A mesma de durante. E, surpresa, a mesma de depois. Porque “padrão FIFA” não é coisa que se aplica em série, tipo molho de tomate em prato de massa: passa em cima do estádio, mas não escorre, não vaza, não chega na escola da esquina.

E o pior nem é a injustiça em si — é a repetição cansada do roteiro. Porque dez anos depois, alguns desses estádios “padrão FIFA” se transformaram em motivo de chacota nacional: arena que serve de estacionamento de ônibus, gramado que virou pasto, estrutura que custou fortuna e hoje gera prejuízo mensal para prefeituras que nem sabem o que fazer com o elefante branco que ganharam de presente. Isso é fato, é manchete recorrente, é Tribunal de Contas escrevendo relatório sobre relatório.

Só que aqui está o detalhe genial — no sentido mais sarcástico possível — da nossa engenharia institucional: a escola, que já estava com problema antes da Copa, segue com o mesmo problema agora, mas o estádio, que estava novo, já está com problema também. Ou seja: conseguimos, em uma década, fazer o estádio alcançar a escola na decadência, em vez de fazer a escola alcançar o estádio na qualidade. Igualdade às avessas. Uma espécie de democratização — pelo fundo do poço.

E quando alguém, hoje, solta a frase “queremos escola padrão FIFA”, o que isso revela, na real, é uma amnésia coletiva digna de prêmio. Porque a gente já fez esse teste. Em escala nacional. Com bilhões. E o resultado prático, sobre a vida da maioria das crianças brasileiras, foi: nenhum. Zero. A merenda continuou atrasando, o professor continuou sem material, o telhado continuou — esse personagem recorrente — pingando.

Bauman, ao falar da “modernidade líquida”, descrevia bem esse tipo de fenômeno: sociedades que investem fortunas em símbolos temporários, espetáculos, vitrines, enquanto as estruturas permanentes — aquelas que realmente sustentam a vida cotidiana das pessoas — vão sendo corroídas silenciosamente, sem culpa, sem manchete, sem fita de inauguração. O estádio é o símbolo líquido: brilha, evapora, e o que sobra é a conta. A escola é a estrutura permanente: não brilha, não evapora — só evolui aos poucos para pior, sem que ninguém perceba até que o teto, literalmente, caia.

E tem uma ironia cruel nessa história toda: muitos desses estádios “padrão FIFA” hoje recebem, vez ou outra, eventos — shows, jogos de pouca expressão, feiras. Ou seja: o espaço que recebeu investimento monumental serve hoje, em parte, como — irônico, não? — espaço de eventos eventuais. Enquanto a escola, que recebe crianças todos os dias, ano após ano, sem pausa, sem folga, sem feriado de manutenção, continua sendo tratada como o item descartável da lista de prioridades. Lógica perfeita: o prédio que é usado o tempo inteiro é o que menos recebe atenção; o que é usado esporadicamente é o que ganhou bilhões.

Dez anos depois, dá pra fazer um teste simples: tire uma foto de qualquer estádio “padrão FIFA” hoje, e uma foto de qualquer escola pública da redondeza. Compare o estado de conservação. Se o estádio, com toda aquela fortuna investida, já está caindo aos pedaços — o que dizer da escola, que nunca recebeu nem fração disso, e ainda é cobrada para “produzir resultado padrão internacional”?

A verdade nua e crua é essa: não foi falta de dinheiro que impediu a escola padrão FIFA. Foi escolha. Escolheu-se gastar bilhões num evento de um mês, e seguiu-se gastando — ou melhor, não gastando — o mínimo na estrutura que forma, todos os dias, durante décadas, a população inteira do país. E aí, dez anos depois, vem alguém — com toda a cara de pau possível — propor “padrão FIFA” pra escola, como se fosse ideia nova, como se o exemplo recente não estivesse ali, decadente, à vista de todos, servindo de estacionamento.

Se quiser “padrão FIFA” pra escola, comece devolvendo, em forma de manutenção escolar, o que sobrou — em concreto, ferro e mato alto — dos estádios. Spoiler: não vai sobrar quase nada. E é exatamente por isso que, enquanto a frase continuar sendo repetida sem essa memória, ela vai continuar sendo, antes de tudo, o melhor exemplo de como o Brasil sabe prometer estádio e entregar telhado de amianto rachado — de novo, e de novo, e de novo.