Por: Amanda Costa

Os comunicadores negros têm reivindicado, com crescente urgência, um lugar de protagonismo e uma mudança estrutural na forma como o Brasil discute seus problemas sociais. Esse movimento parte de uma constatação simples e inescapável: não é possível compreender o país sem reconhecer que o racismo organiza suas instituições — e entre elas, a imprensa.

Apesar das pressões, os grandes veículos continuam respondendo de maneira insatisfatória. As diferenças de tratamento entre pessoas brancas e negras nas matérias são evidentes e documentadas. E quando se observa quem são os profissionais responsáveis por produzir as notícias, o cenário revela uma desigualdade que se perpetua há décadas: jornalistas negros seguem sendo minoria nas redações e, quando conseguem entrar, raramente ocupam postos de decisão.

Segundo o IBGE, 56% da população brasileira se autodeclara preta ou parda. Mesmo assim, a mais recente edição do Perfil Racial da Imprensa Brasileira mostra que apenas 20% dos jornalistas em atuação pertencem a esse grupo. A maioria — 60,2% — está restrita a cargos operacionais, como reportagem, redação e produção, quase sempre distantes de funções estratégicas, editoriais ou de liderança.

A desigualdade também aparece na permanência desses profissionais no mercado. Pesquisadores como Nonato e Santiago apontam que 43% dos jornalistas negros trabalham mais de nove horas por dia, enquanto 70% recebem até R$ 5,5 mil mensais — valores que, para muitos, não garantem estabilidade mínima. Como resultado, mais da metade precisa recorrer a outros trabalhos para complementar renda. A precarização não é incidental: ela funciona como barreira para que comunicadores negros avancem na carreira e alcancem postos de influência.

Reconhecer essas dinâmicas exige mais do que “trazer o tema para o debate”. Exige enfrentar a desigualdade racial desde a base — uma herança direta do Brasil, que recebeu o maior contingente de pessoas africanas escravizadas entre os séculos XVI e XIX. O jornalismo brasileiro, moldado historicamente por elites brancas, ainda carrega esse legado.

O próprio projeto “Perfil Racial da Imprensa Brasileira” escancara: nas redações, jornalistas negros são quase três vezes menos numerosos que os brancos. A composição atual é de 20,1% de negros, 77,6% de brancos e apenas 0,2% de indígenas. À margem dessa estrutura excludente, surgem coletivos de comunicação negra que vêm disputando espaço e narrativas — muitos deles, fundados justamente para suprir o que a imprensa tradicional não entrega.

É o caso do Alma Preta Jornalismo, do Portal Mundo Negro, da Revista Afro, do Geledés, do História Preta, do Afropress e do Atlântico Negro, entre outros. O Alma Preta, criado em 2015 por estudantes negros da Unesp, se consolidou como um dos principais veículos do jornalismo antirracista e hoje é comandado pelo jornalista Pedro Borges.

O jornalista Pedro Borges do Alma Preta | Foto: Reprodução

Manual, escola e, principalmente, prática

O Alma Preta lançou recentemente seu Manual de Redação Antirracista, um documento que reúne princípios editoriais construídos a partir de anos de prática. Não se trata de um guia restrito ao seu time: é um convite a comunicadores de qualquer veículo que desejem revisar repertórios e confrontar práticas que perpetuam vieses raciais.

Outro exemplo é o Notícia Preta, que criou a Escola de Comunicação Antirracista, com cursos que vão de Assessoria de Imprensa a Semiótica e Racismo, além da História da Imprensa Negra no Brasil. A iniciativa, que funciona on-line e em parceria com o Senac Rio no formato presencial, evidencia algo essencial: combater o racismo também é uma disputa pedagógica.

Manual de redação antirracista | Foto: Reprodução

E nas redações tradicionais?

Ser antirracista não é slogan — é prática diária. Isso implica:

  • valorizar fontes, especialistas e referências negras;
  • evitar linguagem racista, estereótipos e enquadramentos que naturalizam a violência;
  • tratar temas raciais com profundidade, e não como pauta sazonal do 20 de novembro;
  • ampliar a representatividade racial em todas as áreas das redações, especialmente nos cargos de chefia;
  • reconhecer que intelectuais, comunicadores e produtores de conhecimento negros existem — e sempre existiram.

A frase de Angela Davis, “Numa sociedade racista, não basta não ser racista; é preciso ser antirracista”, tornou-se um mantra porque aponta para uma verdade incômoda: a neutralidade, no Brasil, sempre beneficiou a branquitude. A imprensa, enquanto instituição que molda narrativas e legitima discursos, tem responsabilidade direta sobre esse processo.

Angela Yvonne Davis é professora, filósofa e ativista | Foto: Foto: Boitempo

A pergunta que fica não é se a imprensa brasileira é racista — isso já está amplamente demonstrado por pesquisas, práticas editoriais e pelo perfil de quem ocupa seus espaços. A pergunta real é: quando ela vai assumir a tarefa de transformar essa realidade em vez de administrá-la?

Mudar a composição das redações, rever enquadramentos e reconhecer novas centralidades não é concessão: é requisito para que o jornalismo cumpra seu papel democrático.

Se mais da metade do país é negra, é insustentável que a imprensa siga retratando e interpretando o Brasil a partir de um ponto de vista que ignora justamente quem constitui a maioria.