A indignação seletiva da esquerda e suas contradições insuperáveis
17 julho 2026 às 13h41

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Há algo intrigante na forma como setores da esquerda reagem às injustiças do cotidiano. Quase sempre a reação é seletiva. Em meio a tantos problemas, cada grupo decide quais causas merecem atenção e quais ficam em segundo plano. Essa escolha revela valores, prioridades e também conveniências que, quase sempre, seguem o engajamento.
A primeira-dama do Brasil, Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, tem sido alvo de críticas em relação aos gastos realizados em viagens oficiais com cartão corporativo, mas ela afirma que tais despesas seguem protocolos de segurança e transparência, e que os ataques têm caráter misógino. O Tribunal de Contas da União (TCU) já arquivou processos sobre o tema, concluindo que não houve irregularidades.
Talvez, de fato, haja legalidade, porque não se sabe como esse processo se deu de fato, mas, pode-se afirmar que não há moralidade. Gastos com o dinheiro público em meio às tantas denúncias da perpetuação da miséria e desigualdade social. E o pior feitas por eles mesmos. Isso não pode combinar com o projeto pregado pela esquerda.
Alguns se mobilizam contra rascismo, outros contra a misoginia, outros ainda contra a pobreza. Há quem concentre sua revolta no colonialismo, ainda hoje, e há quem se indigne diante da violência doméstica. Nenhuma dessas causas é menor. Todas carregam dramas humanos profundos e que devem ser tratadas como soluções pontuais e objetivas. O fato de algumas mobilizarem multidões enquanto outras permanecem esquecidas mostra como nossas escolhas são parciais.
A crítica mais comum à esquerda brasileira é justamente essa seletividade. Há mobilização intensa contra o racismo ou a misoginia, mas menos disposição para enfrentar a corrupção, a violência urbana e alta carga tributária. Essa percepção fragiliza o discurso político. Se a luta por justiça é universal, por que não se estende com a mesma força a todas as formas de injustiça, inclusive as praticadas pelo Estado contra cidadãos inocentes e trabalhadores?
Nesse sentido, o problema surge quando outras batalhas são banalizadas ou relativizadas. Quando a fome, que tem um número grande de soluções, por ambos os espectros políticos, é tratada como menos urgente que a misoginia ou quando a corrupção é vista como detalhe diante de outras agendas, o resultado é um discurso fragmentado que não consegue gerar unidade social.
A indignação seletiva não é apenas incoerência moral. É também um obstáculo para a eficácia política. Movimentos que se fecham em causas específicas correm o risco de se transformar em guetos ideológicos incapazes de dialogar com a diversidade de dores que atravessam a sociedade.
Justiça Cósmica e a utopia da justiça social
Thomas Sowell identificou um fenômeno curioso. A busca pela chamada justiça social é, na verdade, uma busca por uma justiça cósmica. Trata-se de uma concepção que transcende a justiça entre indivíduos e passa a ser aplicada a etnias inteiras, classes sociais, grupos de renda ou até mesmo a ascendentes mortos. É a coletivização da culpa que deveria ser individualizável. Portanto, uma justiça que não pode ser exercida por homens, mas apenas por divindades.
A justiça tradicional, humana e possível, consegue aferir culpa de A sobre B por meio de provas objetivas. Já a justiça social ou justiça cósmica tenta atribuir culpa a pessoas mortas ou a grupos inteiros sem apresentar provas concretas, apenas demonstrando disparidades estatísticas. Isso não configura ação comprovável por parte de supostos criminosos, que acabam mistificados e elevados a figuras demonizadas da sociedade. Ao mesmo tempo, as vítimas são igualmente mistificadas. Transformadas em massas disformes, imaculadas, incapazes e não-culpadas pela própria situação.
Essa lógica cria um cenário em que tanto culpados quanto vítimas são definidos por conveniência ideológica e não por fatos objetivos. É uma visão que, como apontou F. A. Hayek em Direito, Legislação e Liberdade, gera equívocos profundos nas políticas públicas e mina a própria noção de responsabilidade individual.
O desafio da indignação abrangente
A verdadeira transformação exige que a indignação seja menos seletiva e mais abrangente. Corrupção, misoginia, racismo, fome, impostos e violência não são problemas isolados. São sintomas de uma estrutura espoliativa e patrimonialista. A busca por uma justiça cósmica pode soar nobre, mas acaba se tornando impraticável e até perigosa, pois substitui a justiça concreta e objetiva por abstrações inalcançáveis. Ou seja, fica sem as duas.
O desafio não é abandonar as causas. O desafio é reconhecer que todas fazem parte de um mesmo tecido social, que se devem vincular a instância social de combate: social ou legislativa. No sentido do que deve se tornar lei, e combatido por tribunais, e o que apenas deve ser combatido pelo espirito humano por diabetes e argumentos. Não se pode confundir os dois.
A indignação seletiva e a utopia da justiça cósmica apenas fragmentam o debate e enfraquecem a ação política. O caminho mais sólido é o da justiça real, individual, baseada em provas e responsabilidades claras. Essa é a única capaz de gerar unidade social e mudança efetiva.
