A série do Césio-137 nos obriga a relembrar o preconceito, e não apenas o acidente
06 abril 2026 às 08h23

COMPARTILHAR
Como dizia o filósofo George Santayana, “É preciso relembrar a história para que ela não se repita.” A estreia da minissérie “Emergência Radioativa”, lançada pela Netflix em 18 de março, escancara novamente o acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987, e nos faz relembrar que não foi apenas a contaminação radioativa, mas sim a onda de preconceito que condenou uma cidade inteira ao isolamento.
A produção dramatiza o maior acidente radiológico em área urbana do mundo, no qual mais de 200 pessoas foram expostas à radiação, e quatro morreram diretamente, entre elas a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos.
Contudo, como revelou o depoimento da mãe de Leide, Lourdes das Neves, ao Jornal Opção, “não tem como esquecer.”
Logo após o desastre, uma reação tomou conta do país. Goiânia e todo o estado de Goiás se transformaram em sinônimo de perigo. Pessoas de outras regiões evitavam viajar para a capital goiana como se o solo inteiro estivesse envenenado.
Goianos que visitavam outros estados sofreram preconceito: hotéis recusavam reservas, lojas fechavam as portas, e até apertos de mão eram evitados. Esse comportamento irracional produziu uma segunda tragédia, a da exclusão social.
Quem assistiu ou irá assistir a série da Netflix, pense e sinta isso como se fosse você inocentemente vivendo aquele momento, porque o verdadeiro legado do Césio-137 não pode se limitar à fiscalização técnica. Afinal, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) intensificou normativas e procedimentos para resíduos radioativos, seguindo padrões internacionais, e até mesmo a legislação brasileira foi atualizada para que os procedimentos sejam levados ao mais alto rigor na destinação de rejeitos radioativos.
No entanto, nenhuma lei conseguiu, até hoje, desfazer o medo profundo e a marca de humilhação que ficaram gravados na identidade do goiano.
Por conseguinte, manter viva essa recordação das vítimas significa respeitar suas histórias sem sensacionalismo. A dor de Lourdes das Neves, que perdeu uma filha e ainda assim não cultivou rancor, merece ser ouvida com dignidade. “Eles sabiam do risco”, afirma ela, apontando para a negligência dos responsáveis pela clínica que abandonou o aparelho de radioterapia.
O luto dela, como ela mesma descreveu para a equipe do Jornal Opção no fim de março, “não tem como. É muito complicado.”
A série reabrir essas feridas que nunca cicatrizaram é algo positivo? “É preciso relembrar a história para que ela não se repita.” Friso que isso deve acontecer, mas desde que o faça com responsabilidade.
De nada importam as dores serem repuxadas sem que a sociedade entenda que o preconceito contra goianos naquela época exemplifica algo que não pode jamais se repetir: a punição de um povo inocente que não sabia o que estava mexendo.
As vítimas manusearam o pó brilhante por pura ignorância, não por malícia. Em vez de acolher, o resto do país respondeu com rejeição. E é esse comportamento, o medo transformado em agressão contra a vítima, a verdadeira lição não aprendida.
Que a série e as memórias não sirvam apenas para evitar um novo acidente nuclear, mas que um povo inteiro seja novamente crucificado pelo sofrimento que já carrega.
