Por Mylenna Scheidegger

Já ficou para trás o tempo em que as apostas eram apenas um palpite entre amigos sobre o placar de um jogo, valendo dez reais ou um salgado. O cenário mudou completamente. As apostas ganharam novas proporções, diversificaram seus formatos e passaram a ocupar um espaço cada vez maior na internet, nos meios de comunicação e, principalmente, no esporte.

Quem acompanhou qualquer partida da Copa do Mundo percebeu que o futebol já não disputa a atenção do público apenas com os adversários em campo. O drible, a tática e o grito de gol agora dividem o protagonismo com gráficos de odds, promoções e promessas de ganhos fáceis. O que estamos presenciando não é apenas mais uma competição esportiva, mas a consolidação da “Copa das Bets”. E o preço desse novo modelo de entretenimento está sendo pago por toda a sociedade brasileira.

A presença de casas de apostas no esporte não é novidade. O que chama atenção é a intensidade e a onipresença da publicidade, que passou a ocupar praticamente todos os espaços das transmissões esportivas, normalizando o hábito de apostar e transformando o jogo em um produto de consumo permanente.

Essa engrenagem ganha contornos ainda mais preocupantes quando é impulsionada por influenciadores digitais. O caso da influenciadora Virgínia Fonseca se tornou um dos exemplos mais emblemáticos desse ecossistema. Ao misturar a divulgação de plataformas de apostas com conteúdos sobre família, maternidade e empreendedorismo, cria-se uma associação capaz de transmitir credibilidade a um mercado que envolve riscos financeiros significativos.

Quando alguém com dezenas de milhões de seguidores associa apostas à possibilidade de ganhos fáceis e a um estilo de vida de luxo, a capacidade crítica de parte do público tende a diminuir. Não se trata de uma publicidade qualquer. Trata-se da mercantilização da confiança. O seguidor mais vulnerável muitas vezes não enxerga apenas um jogo de azar, mas uma oportunidade de alcançar a vida que acompanha diariamente nas redes sociais.

Por trás das campanhas coloridas e dos discursos otimistas existe uma realidade bem diferente. Estudos e levantamentos recentes vêm apontando o crescimento acelerado do mercado de apostas no Brasil e seus impactos sobre o endividamento das famílias e os casos de dependência relacionados ao jogo. Enquanto plataformas movimentam bilhões de reais, cresce também o número de brasileiros que comprometem parte importante da renda em busca de uma vitória que, na maioria das vezes, não chega.

Até mesmo grandes veículos de transmissão começaram a rever seus limites. A decisão da CazéTV de retirar os palpites ao vivo feitos por comentaristas durante as transmissões da Copa, após críticas do público, demonstra que parte da sociedade começa a questionar o papel desempenhado pela mídia na promoção das apostas. Também soa contraditório defender o chamado “jogo responsável” enquanto aplicativos utilizam mecanismos de engajamento e estímulos constantes para manter o usuário apostando durante toda a partida.

Inserir um aviso de “jogo responsável” não é suficiente para neutralizar os efeitos de uma publicidade construída para incentivar apostas contínuas. O alerta precisa ir muito além de uma frase exibida na tela. As medidas de regulação adotadas pelo poder público representam um passo importante, mas ainda tentam conter consequências de um mercado que cresceu em velocidade muito superior à capacidade de fiscalização.

O Brasil precisa impor limites mais rigorosos à publicidade das apostas e responsabilizar quem transforma sua enorme audiência em instrumento para estimular um comportamento de alto risco. A “Copa das Bets” pode ser extremamente lucrativa para plataformas digitais e para celebridades contratadas por elas, mas, para milhões de brasileiros, o saldo tem sido o aumento do endividamento, da frustração e da perda de qualidade de vida. Está na hora de devolver o futebol ao seu verdadeiro protagonismo e impedir que a paixão nacional continue sendo utilizada como porta de entrada para um problema que afeta famílias em todo o país.